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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Novo astro das maratonas, Danielzinho quer se naturalizar chinês

Danielzinho, que surge como novo astro das maratonas, quer se naturalizar chinês - Divulgação/Adidas
Danielzinho, que surge como novo astro das maratonas, quer se naturalizar chinês Imagem: Divulgação/Adidas
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

18/05/2022 12h00

O Brasil pode perder de uma vez só seus três melhores maratonistas, incluindo Daniel Nascimento, novo fenômeno mundial e homem mais rápido da história da prova entre os não africanos. O corredor de apenas 23 anos, que está morando no Quênia, sente nunca ter tido apoio do país onde nasceu e já enviou um projeto para o governo da China oferecendo-se para se naturalizar chinês.

Junto com ele também mudariam de nacionalidade esportiva os outros dois maratonistas brasileiros com índice para o próximo Campeonato Mundial: o veterano Paulo Roberto de Paula, três vezes atleta olímpico, e o estreante José Marcio Leão da Silva, pernambucano de Garanhuns que passa por dificuldades financeiras, apesar de ser o quinto do ranking brasileiro de todos os tempos.

Independentemente da resposta dos chineses, é grande a chance de Danielzinho, que não aceitou dar entrevistas para a coluna, não mais defender o Brasil. Morando no Quênia, ele conheceu diversos corredores que se naturalizaram, gostou da ideia, e pediu para que as pessoas que cuidam da sua carreira arranjassem uma nova bandeira para ele representar internacionalmente.

A proposta para a China, denominada "Dragon Fly Project", foi oficializada na semana passada pelo consultor técnico de Danielzinho, Marco Oliveira, treinador brasileiro que há muitos anos atua no esporte chinês. Procurado pelo maratonista, ele montou uma oferta na qual os três brasileiros se naturalizariam e passariam a treinar na China, ajudando a impulsionar a formação de atletas naquele país, que patina para conseguir resultados na maratona, apesar de maciços investimentos estatais.

Foi Daniel quem iniciou o movimento em busca da naturalização chinesa, mas tanto Paulo quanto Leão gostaram do projeto.

Qualquer país que queira naturalizar o meu irmão, meu irmão vai. Eu não pensaria duas vezes. Vai embora. Vai ficar fazendo o que aqui? Nós mais pagamos para ser atletas do que recebemos. Com o pouco que ganhamos, administramos nossa vida. Não tem planejamento a longo prazo"
Luis Fernando de Paula, irmão gêmeo de Paulo e empresário tanto dele quanto de Leão

No projeto enviado aos chineses consta procuração dos três autorizando a negociação e também o aviso: "Os três principais maratonistas brasileiros, mais três técnicos, estão todos imediatamente disponíveis para viver e treinar na China". Os treinadores são o próprio Marco Oliveira, Luis Fernando e Jorge Luis Silva, que desde o início do ano treina Danielzinho.

Fora dos holofotes

Daniel Nascimento teve uma carreira de destaque nas categorias de base do atletismo, batendo o recorde sul-americano sub-20 dos 10.000m em 2017, ano em que foi campeão continental sub-20 e brasileiro adulto. Mas, por razões nunca esclarecidas publicamente por ele, em 2018 a família o buscou na base de treinamento da Orcampi em Campinas e levou-o de volta para casa em Paraguaçu Paulista (SP). Em entrevistas, ele afirmou que essa pausa na carreira foi devido a uma lesão.

Daniel Nascimento celebra após vencer a prova de 3.000m nos Jogos Sul-Americanos sediados em Lima, no Peru, em 2013 - Gabriel Rossi/LatinContent via Getty Images - Gabriel Rossi/LatinContent via Getty Images
Daniel Nascimento celebra após vencer a prova de 3.000m nos Jogos Sul-Americanos sediados em Lima, no Peru, em 2013
Imagem: Gabriel Rossi/LatinContent via Getty Images

Quando voltou ao atletismo, no fim de 2019, já defendia uma equipe originalmente de esportes aquáticos, a ABDA de Bauru, alcançando um bom 10º lugar na São Silvestre e o título da Meia Maratona de São Paulo. Era o início de uma migração para as provas de rua, que costuma acontecer em momento bem mais tardio na carreira de fundistas como ele. Antes de fazer 23 anos, Daniel já corria sua primeira maratona, em Lima, e fazia índice para os Jogos de Tóquio.

Bancado pela ABDA, Daniel se preparou no Quênia, o que ele dizia ser um sonho de vida. Nas Olimpíadas, chegou a liderar, mas sentiu um problema físico e não completou a prova. No fim do ano, virou o segundo do ranking brasileiro de todos os tempos terminando em nono em Valência (Espanha). No começo deste ano, em Seul, na Coreia do Sul, bateu o recorde sul-americano de Ronaldo da Costa, com 2h04min51s, chegando em terceiro.

Só de premiação pela posição e pelo tempo, melhor do que o antigo recorde da prova, recebeu US$ 130 mil. Fechou um grande contrato com a Adidas e passou a ser convidado para todas as principais maratonas do mundo. Apenas por largar em Nova York em novembro, caso aceite a oferta, vai receber US$ 30 mil. Isso sem contar eventual premiação por resultado. Um bom maratonista, como Daniel, costuma correr duas 'Majors' por ano.

Mas e o apoio?

Danielzinho se fez no esporte, mas sente que chegou onde chegou sozinho. Na última década, a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e o Comitê Olímpico do Brasil (COB) não investiram na maratona, uma prova cuja preparação é cara, por depender de longos estágios de treinamento em altitude, no exterior, e na qual os brasileiros estavam longe de qualquer chance real de ganhar medalha.

Depois de aparecer bem nas Olimpíadas, ele até teve oferta de correr pelo Pinheiros, mas recusou, optando por passar a ser treinado por Jorge Luis Silva, o Jorginho, que classificou um xará dele, Daniel Chaves, para os Jogos de Tóquio. No Brasil, Danielzinho federou-se por um clube de Ijuí (RS), o ANR/Unimed Noroeste/RS, que naturalmente não paga o que o Pinheiros pagaria.

Daniel Nascimento corre ao lado do queniano Eliud Kipchoge, um dos principais nomes do atletismo, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio - Ramsey Cardy/Sportsfile via Getty Images - Ramsey Cardy/Sportsfile via Getty Images
Daniel Nascimento corre ao lado do queniano Eliud Kipchoge, um dos principais nomes do atletismo, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio
Imagem: Ramsey Cardy/Sportsfile via Getty Images

Fora de um clube grande, morando longe do Brasil (está na região de Eldoret, no Quênia), e treinado por um técnico que não faz parte do grupo que hoje é hegemônico na CBAt, Danielzinho acabou se distanciando ainda mais da confederação e do COB. Novo astro do esporte brasileiro, ele até pretendia correr o Troféu Brasil, no mês que vem, mas a CBAt estipulou que só valem índices feitos a partir de 1º de junho de 2021 e a última prova dele em pista foi dois dias antes. E não abriu exceção nem para ele, que estava em preparação para atingir um feito histórico.

Se decidir não correr mais pelo Brasil, Daniel não vai perder muita coisa em termos financeiros. Ele recebe apenas uma Bolsa Atleta de R$ 3,1 mil do governo federal e teria direito, mas não quis, a um patrocínio de R$ 1,1 mil da Caixa, intermediado pela CBAt, que tem validade de seis meses. O apoio tem gerado reclamações no atletismo por ser bem menor do que recebem, também da Caixa, medalhistas aposentados. Agora que Danielzinho ameaça ir embora, COB e CBAt dizem que negociam um apoio de R$ 11 mil ao mês para ele, até dezembro.

Quarentena

Daniel, Paulo e Leão são os três brasileiros com índice para correr a maratona do Mundial de Oregon, nos EUA, mas a participação deles na competição depende das negociações com a China. Caso a naturalização aconteça, a expectativa é que eles fiquem três anos sem participar de torneios oficiais, perdendo assim as Olimpíadas de Paris. Danielzinho disse a interlocutores que não vê problemas nisso, até porque tem uma longa carreira pela frente.

Paulo Roberto Paula em ação durante a maratona dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016 - Matthias Hangst/Getty Images - Matthias Hangst/Getty Images
Paulo Roberto Paula em ação durante a maratona dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016
Imagem: Matthias Hangst/Getty Images

No caso de Paulo, a naturalização é improvável. Ele, que tem três Olimpíadas no currículo e bateu seu recorde pessoal em Sevilha, com 2h09min51s, em abril, vai fazer 44 anos em julho e não vai estender a carreira além de Paris. Assim, a expectativa dele é ganhar apoio para treinar na China, ajudando a desenvolver a maratona lá, mas continuar defendendo o Brasil por mais dois anos.

Já o caso de Leão é o mais delicado. O corredor de Garanhuns (PE), de 31 anos, ganhou a vida correndo provas regionais que oferecem premiações baixas. Na pandemia, segundo relatos, chegou a passar fome, porque as corridas foram suspensas e ele perdeu seu ganha pão. Um empresário o "adotou" e bancou a ida dele à Itália para, no mês passado, correr a Maratona de Milão. O pernambucano foi 11º, com 2h08mis37s, assumiu o quinto lugar no ranking histórico brasileiro, mas não viu sua vida mudar.

Como não tem resultado em campeonato nacional, ele não tem Bolsa Atleta. Também não recebe apoio da CBAt ou do COB. Para poder ir ao Mundial, precisou da solidariedade de amigos para as burocracias de pagar o visto norte-americano. Segundo o empresário dele, Leão não consegue se sustentar do esporte, e não tem outra profissão. Ele não tem se preparado adequadamente para o Mundial porque precisa participar de provas pequenas quase todo fim de semana, para ter uma fonte de renda.

Outro lado

A CBAt detalhou que Daniel teve "apoio complementar" para despesas de camping no Quênia na preparação para as Olimpíadas e ressalta que, no início do ano, ofereceu um complemento de US$ 1,5 mil, mais bilhetes aéreos, para ele e seu treinador, mesmo suporte dado a Paulo e Leão.

A CBAt disse ainda que "conversa com o COB" para que Daniel seja contemplado no Programa de Preparação Olímpica (PPO), com ganhos mensais de R$ 11.000,00, entre junho e dezembro de 2022. O COB foi no mesmo sentido, dizendo que "considerando os recentes resultados do atleta Daniel Nascimento, o está incluindo no Programa de Preparação Olímpica".

Já Paulo Roberto, segundo a CBAt, teve apoio de R$ 2 mil por mês antes dos Jogos Olímpicos e despesas pagas durante 40 dias para um camping em Portugal, onde mora.

Questionado sobre apoio aos maratonistas, o COB citou a "Missão Europa", que no ano passado levou alguns atletas brasileiros para treinar em Portugal, onde Paulo Roberto já mora. Nem Daniel nem Leão foram beneficiados. "Além disso, o COB e a CBAt, através dos recursos ordinários, investe em ações de suporte aos seus treinamentos, com o objetivo de potencializar as chances de resultados nos principais campeonatos do mundo", disse o COB, sem citar nenhum apoio efetivo.

A confederação ainda não convocou nenhum dos três atletas para o Mundial, uma vez que o prazo para obtenção de índices termina só no dia 29 de maio.