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REPORTAGEM

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Sem provas, Tandara tenta culpar farmácias por doping

Tandara não joga desde a suspensão nas Olimpíadas de Tóquio em 2021 - Wander Roberto/COB
Tandara não joga desde a suspensão nas Olimpíadas de Tóquio em 2021 Imagem: Wander Roberto/COB
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

20/05/2022 04h00

Dez meses depois de ser flagrada em exame antidoping com a substância proibida ostarina em seu organismo, Tandara Caixeta será julgada na próxima segunda-feira (23) pelo Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem (TJD-AD). Ali, a defesa tentará provar que suplementos alimentares comprados pela oposta da seleção brasileira de vôlei em duas farmácias de manipulação de São Paulo estavam contaminados. O problema é que não existe prova disso.

Em busca de comprovação de que Tandara consumiu suplementos contaminados, o advogado Marcelo Franklin, conhecido por inúmeras vitórias usando este mesmo argumento, conseguiu adiar ao máximo o julgamento em primeiro grau. Desde o início de agosto, quando Tandara foi notificada pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), suspensa provisoriamente e expulsa dos Jogos Olímpicos de Tóquio, Franklin solicitou diversas vezes que o Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD) avaliasse produtos supostamente consumidos por ela, em busca de uma contaminação cruzada.

Mas nenhum deles apontou a presença de ostarina, um modulador específico de receptor androgênico (SARM) cuja comercialização é atualmente proibida no Brasil, ainda que seja possível encontrar à venda na internet diversos produtos que têm ostarina como substância principal. Eles são voltados a quem quer ganhar explosão muscular sem ganho de peso, como fisiculturistas, corredores e ciclistas. Ostarina é o doping 'raiz': só é consumido por quem quer ter ganho de performance.

A defesa de Tandara então apontou para um caminho que tem sido cada vez mais comum nos julgamentos de doping no Brasil: apresentar laudos identificando que outro suplemento supostamente vendido pela mesma farmácia continha outra substância também proibida. E, ato contínuo, alegar que a farmácia que vendeu o suplemento tem histórico de contaminação cruzada. E, aí, a culpa do doping seria da empresa, não do atleta que não seguiu as diversas recomendações do COB para não consumir suplementos manipulados, para evitar qualquer risco.

Coquetel de suplementos

No momento em que um esportista é submetido a um exame antidoping, ele declara em um formulário os remédios e suplementos que consumiu nos últimos sete dias. No caso de Tandara, segundo apurou a coluna, essa lista foi retificada depois do resultado positivo para ostarina, com diversos suplementos de diversos fornecedores.

Ao menos um deles é de uma farmácia de probióticos da Vila Leopoldina, na zona Oeste de São Paulo, região próxima a Osasco, onde Tandara jogava à época. Outro, de uma farmácia de alopatia de Caçapava, no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo.

Os suplementos que a defesa de Tandara alegam ser da farmácia de São Paulo foram testados no LBCD e, pelo que apurou a coluna, apontaram a presença de ao menos uma substância proibida não descrita na embalagem. A partir daí, a tese é: se a farmácia supostamente contaminou um lote com uma substância proibida, pode ter também contaminado outro lote com ostarina. Mas há um buraco nesta linha de raciocínio: a farmácia em questão não comercializa ostarina — nas palavras de uma pessoa com conhecimento do caso, é "como dizer que tinha um feijão no saco de arroz, sendo que a fábrica só faz arroz".

Para tentar demonstrar que a contaminação ocorreu no laboratório, Tandara entrou com um processo na Justiça comum contra a empresa, o que também é uma prática recorrente de Franklin nos processos em que ele atua. Mas isso acabou virando contra a jogadora. Alegando que o caso está judicializado, a farmácia paulistana não tem fornecido informações para o processo que corre no tribunal antidoping.

Paralelamente, Franklin abriu uma ação idêntica contra outra farmácia, a de Caçapava, também tentando demonstrar contaminação cruzada. Nos dois processos, ele alegou que Tandara é famosa e, por isso, os casos deveriam correr em segredo de Justiça, o que foi atendido. Na justiça antidoping, todos os processos também correm em segredo. Assim, não é possível saber todos os detalhes do caso. As partes envolvidas também não podem podem comentar.

Provável punição

Pelo que apurou a coluna, a defesa terá dificuldade para demonstrar a contaminação cruzada, porque não tem acesso ao que passou pelas bancadas dos laboratórios antes da produção dos suplementos comprados pela jogadora. Além disso, Tandara não tinha um lote lacrado do suplemento que ela alega estar contaminado, da farmácia paulistana, como pede a legislação antidoping brasileira.

Também pesa contra a jogadora de vôlei um processo recente no TJD-AD, e muito parecido. A ciclista Danilas Ferreira, defendida por outro advogado, seguiu o mesmo roteiro, de demonstrar a contaminação por outra substância, processar a farmácia na Justiça Comum, e tentar colocar a culpa do doping na empresa. Mas a tese não colou e ela foi suspensa por quatro anos, a pena máxima em casos como este.

Há anos a Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag) afirma categoricamente que a contaminação cruzada em produtos e medicamentos é "uma hipótese extremamente improvável". A entidade diz que o setor é submetido a fiscalização de diversos órgãos, entre Anvisa, polícias e vigilância sanitária, e que a tese tantas vezes apresentada em defesas na Justiça Antidoping é "sabidamente errônea". Mesmo assim, o advogado Marcelo Franklin colecionou vitórias com essa tese.

Tandara testou positivo em exame antidoping surpresa realizado no CT do vôlei, em Saquarema (RJ), assim que as jogadoras voltaram de 10 dias de descanso com a família, depois da Liga das Nações, em julho do ano passado. Como a meia-vida da ostarina é curta, a substância só poderia ter entrado no corpo dela no máximo um dia antes do exame, segundo apurou a coluna — caso contrário, não seria identificada.

De Saquarema, as atletas viajaram direto para Tóquio, onde Tandara passou por novo exame, que deu negativo. Entre um teste e outro, ela não mudou os suplementos que oficialmente consumia, receitados pela nutricionista esportiva com a qual se consultava. Se esses suplementos estivessem contaminados, não haveria como o teste dar positivo em Saquarema e negativo em Tóquio. De acordo com pessoas próximas à jogadora, Tandara também se consultava, porém, com um nutrólogo ortomolecular recomendado pelo marido dela.

Caso seja considerada culpada pelo doping, Tandara pode pegar de dois a quatro anos de suspensão. Ela já cumpre suspensão provisória desde o ano passado.

Procurados, os advogados das duas farmácias processadas por Tandara alegaram segredo de Justiça para não comentarem os casos. Marcelo Franklin não retornou as tentativas de contato. A empresa que cuida da imagem de Tandara não respondeu ao pedido por comentários.