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REPORTAGEM

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Arquibancada do Pacaembu é destruída para ter subsolo com arena de e-sports

Arquibancadas destruídas do Pacaembu - Reprodução/Instagram
Arquibancadas destruídas do Pacaembu Imagem: Reprodução/Instagram
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

11/05/2022 19h33

A possibilidade de construir uma arena para a prática de e-sports, como são conhecidos os torneios de jogos de videogame, fez a concessionária Allegra Pacembu destruir as duas arquibancadas centrais (leste e oeste) do Estádio do Pacaembu. De acordo com a empresa, ambas as estruturas serão reconstruídas até a reabertura do estádio, em janeiro de 2024.

Fotografias do que restou das duas arquibancadas, duas montanhas de terra, foram compartilhadas hoje (11) pelos perfis do vereador Eduardo Suplicy (PT-SP) e do ex-vereador Nabil Bonduki, colunista da Folha de S. Paulo. "A arquibancada é parte integrante do conjunto arquitetônico que está tombando junto à praça Charles Miller. Tomarei as providências cabíveis junto à Câmara Municipal ara convocarmos mais uma vez, em regime de urgência, a concessionária que deverá prestar informações ao municipalidade e reparar o dano da forma mais rápida possível", escreveu Suplicy.

A Câmara, porém, tem tido dificuldades em ouvir a Allegra. Um dos sócios da empresa chegou atrasado a uma audiência no mês passado, que tinha hora para acabar e durou menos de meia hora. A audiência foi remarcada para a semana passada e, na véspera, a empresa, que seria ouvida como convidada, informou que não enviaria representantes. No mesmo dia, foi aprovada uma convocação, que torna a obrigatória a ida da Allegra para explicar as obras, em data ainda não marcada.

"As arquibancadas do Estádio do Pacaembu, tombado pelo patrimônio, assentadas sobre o talude da grota do córrego Pacaembu, em um exemplo da arquitetura em diálogo com o meio físico, foram destruídas pela concessionária Allegra Pacaembu, sob o olhar complacente de uma prefeitura submissa e omissa. Essa concessão é absurda. A empresa já cometeu crimes suficientes para que a prefeitura denuncie o contrato e retome esse bem público que é de todos nós, que é de São Paulo", escreveu Bonduki.

A obra, porém, foi autorizada pelo Condephaat e pelo Compresp, os Conselhos do Patrimônio Histórico do estado e do município de São Paulo. O órgão, que reúne membros do governo e da sociedade civil, passou por reestruturação na gestão João Doria (PSDB) e agora tem ampla maioria de pessoas ligadas ao governo estadual.

A Allegra argumentou, para o conselho, que é necessário, para a modernização do estádio, a criação de área de circulação de pessoas embaixo das arquibancadas laterais. Como o estádio fica em um vale, a entrada das arquibancadas laterais se dava de cima para baixo, com a circulação de pessoas restritas à entrada pela rua, que fica na altura quase do topo das arquibancadas, e à lateral do campo. O número de bares e banheiros nestes setores é muito menor do que de estádios mais modernos.

Ao mesmo tempo, a Allegra visa ampliar as áreas monetizáveis do estádio, aumentando a possibilidade de ter retorno financeiro com o negócio. A concessionária já tornou público que, embaixo da arquibancada da rua Itápolis (a que aparecia na imagem padrão das transmissões de TV), será construída uma arena de e-sports.

Segundo a Allegra, a arena será e Battle Royale, o que significa que várias pessoas podem jogar simultaneamente no mesmo telão. De acordo com a concessionária, ela será a maior do mundo neste modelo. A estrutura terá lugares para 2 mil pessoas sentadas, em 3 mil metros quadrados de área.

Do outro lado, a arquibancada com entrada para a Rua Desembargador Paulo Passaláqua, terá, debaixo dela, um espaço semelhante, com circulação de pessoas e bares, mas a concessionária ainda não tornou público se ali também haverá algum empreendimento.

Se hoje as arquibancadas estão assentadas sobre talude (ou seja, o concreto ficava em cima da terra), no futuro elas estarão apoiadas em vigas pré-fabricadas. Em reunião no Condephaat na semana passada, o técnico Amer Nagib Moussa Junior disse ter vistoriado a obra e ouvido da Allegra que a construção de um pavilhão no meio do antigo gramado visa guardar, futuramente, esse material pré-fabricado.

"(O contrapiso) surgiu da necessidade de abrigar as peças pré-fabricadas quando chegar a hora de elas serem reconstituídas, porque está havendo o desmonte das arquibancadas para a utilização do subsolo. Enquanto as peças não começam a ser construídas, esse espaço vai ser usado para realização de eventos", disse o funcionário do Condephaat. Esse galpão para guardar peças é o que a Allegra chama de Pavilhão Pacaembu, um espaço para shows.

O Pacaembu já perdeu o Tobogã, arquibancada entre um dos gols e o ginásio, que não fazia parte do projeto inicial e teve sua demolição aprovada pelos órgãos do patrimônio. Por enquanto, segue intocada apenas a arquibancada do portão de entrada, da ferradura, conhecida pelas cadeiras verdes de um lado e amarelas do outro. Debaixo delas fica o Museu do Futebol, área cedida ao governo do Estado.

À coluna, a Allegra disse que "todas as obras de reforma, modernização e restauro do Complexo Pacaembu foram devidamente aprovadas pelo Conpresp, pelo Condephaat e Secretarias Municipais competentes".

"As intervenções nas arquibancadas leste e oeste são necessárias para torná-las acessíveis a pessoas com deficiência e implementar sanitários, lanchonetes, áreas de hospitalidade e imprensa, cumprindo, portanto, as obrigações do Contrato de Concessão e melhorando muito os níveis de conforto e segurança aos usuários. Após as escavações, contenções e fundações, as arquibancadas serão inteiramente refeitas com a mesma geometria, bem como o gramado que será reconstituído", continuou a concessionária.