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Olhar Olímpico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Campeã de verbas no esporte, ONG de Leo Moura recebe R$ 41 milhões

Leo Moura, lateral do Botafogo-PB - Reprodução/Instagram
Leo Moura, lateral do Botafogo-PB Imagem: Reprodução/Instagram
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

09/01/2022 17h46

Reportagem do Estadão deste domingo, assinada por Breno Pires e André Shalders, mostra que uma ONG do ex-jogador de futebol Léo Moura recebeu R$ 41,6 milhões da Secretaria Especial do Esporte entre 2020 e 2021, o que faz da entidade, de longe, aquela que mais verba recebeu da pasta no período. O Olhar Olímpico mostrou que, em meados de 2020, ela já era recordista, mas os valores ainda eram bem menores. Até então, R$ 5,2 milhões no governo Jair Bolsonaro (PL).

O aumento expressivo no volume de recursos vem na esteira da descoberta (também por parte do Estadão) do agora chamado Orçamento Secreto, sustentado por emendas de relator, cujos beneficiários dos repasses são difíceis de se rastrear. Esse mecanismo estaria sendo usado pelo governo federal para obter apoio político no Congresso. Por essas emendas, políticos aliados de Bolsonaro conseguem destinar mais recursos do que os R$ 15,9 milhões da cota parlamentar — metade disso precisa ir para a saúde.

No caso do Instituto Léo Moura, os padrinhos são, segundo o Estadão, principalmente o deputado bolsonarista Luiz Lima (PSL-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), ex-presidente do Senado. A liberação dos recursos é feita pela Secretaria Nacional de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social, que tem como secretária a ex-nadadora Fabíola Molina, que foi colega de Luiz Lima na seleção de natação e é apadrinhada politicamente por ele.

Em julho de 2020, quando o Olhar Olímpico revelou que a ONG de Leo Moura já era campeã de recursos no que sobrou do antigo Ministério do Esporte, os valores estavam em R$ 5,2 milhões. Na época, já era mais do que o orçamento de 29 das 35 confederações olímpicas. Agora, R$ 41,6 milhões é mais do que vão receber do COB em 2022, somadas, as confederações de atletismo, basquete, boxe, canoagem, desportos aquáticos e vôlei.

O dinheiro visa pagar a estrutura de escolinhas de futebol, que funcionam em campinhos de cidades do Amapá, reduto eleitoral de Alcolumbre, e da região dos Lagos, no Rio, onde Luiz Lima concentrou seus votos na eleição de 2018, quando se tornou deputado federal pelo PSL abraçado na bandeira do bolsonarismo.

Um dos convênios, assinado em outubro, prevê R$ 14 milhões para a instalação de 20 núcleos da escolinha de Leo Moura no Amapá, por um ano. Isso significa que cada uma delas terá, em média, R$ 700 mil para atender, segundo o projeto, até 300 crianças. Isso dá mais de R$ 2 mil por aluno.

Como mostrou o Olhar Olímpico em 2020, o dinheiro enviado à ONG é, na verdade, administrado por uma empresa, a Costa & Moura, que tem Leo Moura como sócio e é administrada por Adolfo Luiz Costa. Mais do que isso: no site da empresa, documentos mostravam que a estrutura da Costa & Moura é que administra o dinheiro público federal. Nos editais, os e-mails para contato são de domínio da Costa & Moura, os telefones são os mesmos da Costa & Moura, os funcionários envolvidos são os mesmos da Costa & Moura e os endereço também.

Os orçamentos apresentados à Secretaria Especial do Esporte têm itens e valores incomuns para projetos sociais de escolinhas de futebol. Por exemplo: no convênio voltado ao Amapá, são previstos R$ 132 mil em locação de caixas de som. Há previsão de realização, em um ano, de 400 campeonatos, com a compra de 24 mil medalhas, quatro vezes mais o número de jovens atendidos, por R$ 120 mil.

São 20 núcleos, em 20 campos de futebol, mas o projeto prevê a compra de 160 redes. Cada núcleo terá 16 apitos profissionais, 16 sacos de bolas e 16 cronômetros. São 15 mil camisas, 15 mil shorts, 15 mil pares de meiões. 15 mil caneleiras e 15 mil pares de chuteiras — dois kits e meio para cada aluno. Só pares de luvas de goleiro serão 2 mil: 100 para cada núcleo. Para 20 núcleos, serão compradas 1,4 mil camisetas de professores. Ou seja: cada núcleo vai receber 70 camisas para os técnicos.

Os números foram inflados na comparação com o projeto apresentado em 2020 para 15 escolinhas no Rio, por emenda assinada por Luiz Lima. Naquele primeiro projeto, eram 10 apitos profissionais por núcleo e 363 pares de chuteira, por exemplos. Agora são 900.

Ao Olhar Olímpico, o técnico da seleção brasileira de futebol social, Pupo Fernandes, disse que o valor de R$ 700 mil por núcleo "dá e sobra" para um projeto social para 300 crianças. "Com 200 mil mensais conseguimos tocar um projeto social durante um ano. Com dois profissionais conseguimos manter o projeto funcionando no contra turno escolar e compramos material esportivos como bolas, cones e coletes, que são os mais utilizados nos projetos de futebol", afirmou ele, que administra duas escolinhas de futebol.

A reportagem do Estadão relatou que esteve em duas das unidades do projeto na última quinta-feira, uma em Teresópolis (RJ) e outra em Macapá. Na primeira, as atividades estão suspensas desde novembro. "No local há apenas um campinho de futebol com menos da metade das dimensões oficiais, sem marcações e grama só nas laterais. Segundo vizinhos que não quiseram se identificar, duas balizas sem rede, também fora do padrão, e um contêiner foram as únicas benfeitorias trazidas pelo projeto ao campo, que já existia", escreve o jornal.

Ao Estadão, Leo Moura festejou ser o campeão de recursos no Esporte. "Acredito que as pessoas veem credibilidade nesse projeto e, a partir daí, viraram nossas parceiras. Eu me sinto um cara abençoado por ter sido agraciado com essas verbas e poder ajudar muitas crianças", disse.