PUBLICIDADE
Topo

Olhar Olímpico

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Atletas fazem vaquinha para treinar e criticam COB, que culpa a CBDA

Seleção brasileira júnior de nado artístico - Arquivo Pessoal
Seleção brasileira júnior de nado artístico Imagem: Arquivo Pessoal
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

18/10/2021 20h45

Atletas das seleções brasileiras de base do nado artístico abriram uma vaquinha na internet para arrecadar R$ 106 mil para treinar visando o Campeonato Sul-Americano Sub-15 e Sub-19, no Peru, e os Jogos Pan-Americanos Sub-23, na Colômbia. Elas responsabilizam o Comitê Olímpico do Brasil (COB), que por sua vez perdeu a paciência com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), a quem culpa pela crise.

"O COB não quer pagar esse nosso último treinamento, porque tirou a verba para pagar as coisas do Sul-Americano, que nós pensávamos que já estava tudo certo. Agora eu pergunto a vocês: é possível competir sem treinar?", postou no Instagram uma atleta da seleção juvenil.

Com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) ainda sem conseguir prestar contas de recursos da gestão Coaracy Nunes, a entidade está impossibilitada de receber dinheiro público. Isso afeta também os repasses da Lei Agnelo/Piva feitos pelo COB.

Todo ano, a partir de critérios predeterminados, o COB define quanto cada confederação tem direito na divisão do dinheiro das Loterias. Quando uma entidade como a CBDA não pode receber o dinheiro, o próprio comitê executa as verbas, repassando toda a cota para a "atividade fim" (treinamentos e competições), sem reserva para a "atividade meio" (salários de dirigentes e funcionários, aluguel de sede etc).

O cancelamento dos treinamentos das seleções de nado, que precisam treinar juntas para as atletas poderem realizar os movimentos em sincronia, tem a ver com a execução desse dinheiro. O COB diz que a CBDA já estourou sua cota de verba em 2021, enquanto a confederação diz não ter culpa que o Sul-Americano Juvenil e Júnior mudou de sede em cima da hora —de Santa Cruz de La Sierra (Bolívia) para Lima (Peru)—, o que deixou a viagem mais cara.

"Diferentemente de outras confederações que passaram por momentos de impedimento ou dificuldades financeiras, a CBDA não trouxe soluções para a gestão esportiva de suas modalidades, colocando sobre o COB a responsabilidade exclusiva do custeio das necessidades de seus atletas, não tendo gerado qualquer receita própria nos últimos anos", informou o COB à coluna.

O órgão culpa a gestão da CBDA pelo problema. "Em ofício datado do dia 6 de outubro, o COB alertou a CBDA sobre a falha na previsão orçamentária de R$ 330 mil para o envio da delegação de 162 integrantes, recomendando que a entidade buscasse uma solução para adequação dos custos de forma a viabilizar as ações prioritárias. Na ocasião, a CBDA não foi capaz de apresentar uma proposta para solucionar a questão", continuou o comitê, em nota, cuja íntegra está no fim da reportagem.

O Sul-Americano exige uma delegação muito maior do que qualquer outra competição continental. Envolvendo cinco modalidades (natação, maratonas aquáticas, polo aquático, nado artístico e saltos ornamentais), em duas categorias etárias diferentes, o evento terá a participação de 162 brasileiros. Com a alta do dólar e a mudança de sede, anunciada no fim de agosto, só em passagens aéreas até Lima o COB vai gastar R$ 1 milhão.

Quando chegou a esse número, que não caberia no que sobrou do orçamento dos esportes aquáticos para 2021, o COB pediu que a CBDA fizesse cortes na delegação. Diante da negativa, remanejou orçamento cancelando as fases de treinamento das seleções de nado.

A notícia, porém, chegou às atletas um dia antes de elas viajarem para o Rio de Janeiro, onde fariam um camping de duas semanas anterior à viagem a Lima. Nas redes sociais, elas têm reclamado que terão de competir no Peru sem o treinamento adequado, o que causaria um vexame para elas e para o esporte brasileiro de forma geral.

Vaquinha virtual

Desde sábado, mais de R$ 25 mil já foram arrecadados pela vaquinha, o que permitirá que a seleção se reúna no Rio nos próximos dias. As atletas cujas famílias têm recurso vão pagar pelas próprias despesas e, ao menos para o Sul-Americano, o treinamento está garantido. Mas ainda não há nenhum planejamento visando o Pan Júnior de Cali (Colômbia), a partir de 25 de novembro, evento multiesportivo, nos moldes do Pan e da Olimpíada, que tem sido tratado como prioritário pelo COB.

Confira a nota do COB:

A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos foi uma das entidades que mais teve investimentos realizados pelo COB em suas modalidades no ano de 2021, num total de R$ 10.3 milhões.

O problema em questão aconteceu por conta de erros significativos no planejamento técnico-orçamentário apresentado pela CBDA, que incluem estimativas de custo irreais, indefinições nos projetos, atrasos na entrega de relatórios e informações, erros de procedimento de inscrição de atletas em competições, entre outros.

Ao longo dos últimos anos, o COB tem trabalhado incansavelmente para corrigir as falhas de gestão esportiva da CBDA e minimizar os impactos para os atletas e treinadores.

Em ofício datado do dia 6 de outubro, o COB alertou a CBDA sobre a falha na previsão orçamentária de R$ 330 mil para o envio da delegação de 162 integrantes para o Campeonato Sul-Americano de Desportos Aquáticos em Lima, no Peru, recomendando que a entidade buscasse uma solução para adequação dos custos de forma a viabilizar as ações prioritárias. Na ocasião, a CBDA não foi capaz de apresentar uma proposta para solucionar a questão.

Vale ressaltar que a CBDA está impedida de receber repasses dos recursos das Loterias em virtude do atraso no envio de documentos legais e falhas de prestação de contas, o que faz com que o COB tenha que mobilizar seus funcionários e executar diretamente os projetos em prol dos atletas e equipes das modalidades.

Diferentemente de outras Confederações que passaram por momentos de impedimento ou dificuldades financeiras, a CBDA não trouxe soluções para a gestão esportiva de suas modalidades, colocando sobre o COB a responsabilidade exclusiva do custeio das necessidades de seus atletas, não tendo gerado qualquer receita própria nos últimos anos.

Especificamente nas categorias juvenil e júnior do nado artístico, o COB investiu, em 2021, cerca de R$ 400 mil em oito períodos de treinamentos.

Infelizmente a falta de planejamento da CBDA coloca em risco não apenas os projetos do nado artístico como outras ações e eventos de suas modalidades previstos até o final deste ano.

Desde que assumiu, a atual gestão do COB tem como marcas o rigoroso respeito ao orçamento, o cumprimento dos prazos e políticas internas e a intransigente defesa dos pilares de meritocracia, transparência, austeridade, competência e excelência.

Lamentavelmente a CBDA parece não ter entendido tais conceitos.