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REPORTAGEM

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Atletas terão de pagar para treinar em grupo no Parque do Ibirapuera

25.abr.2021 - Parque do Ibirapuera, em São Paulo, voltou a registrar movimentação intensa neste domingo (25), no segundo dia da reabertura dos parques no estado - Renato S. Cerqueira/Estadão Conteúdo
25.abr.2021 - Parque do Ibirapuera, em São Paulo, voltou a registrar movimentação intensa neste domingo (25), no segundo dia da reabertura dos parques no estado Imagem: Renato S. Cerqueira/Estadão Conteúdo
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

15/10/2021 04h00

Um dos principais locais de prática esportiva da cidade de São Paulo, o Parque do Ibirapuera vai passar a cobrar para permitir que professores e treinadores esportivos trabalhem com grupos de atletas no local. Quem quiser correr com assessoria ou fazer uma aula semanal de yoga, por exemplo, terá de pagar uma tarifa para a empresa privada que ganhou a concessão do espaço. A discussão é como será feita essa cobrança, e qual será o valor.

Cerca de 60 integrantes da Associação dos Treinadores de Corrida do Estado de São Paulo (ATC) que dão treinos no Parque do Ibirapuera se reúnem hoje (15) para discutir quanto aceitam pagar à concessionária para utilizar o local. A entidade calcula que pelo menos 6 mil pessoas correm lá regulamente sob a orientação de treinadores —ou, como se diz no meio da corrida, de assessorias.

"Tem grupos que utilizam o Ibira para prática esportiva remunerada. Isso precisa ser reequacionado. Você pode ir correr com seu personal sem pagar nada, ou um dia levar sua turma de yoga para usar o parque. Mas se dá aula toda sexta-feira, às 18 horas, em um mesmo espaço específico, que precisa ser desocupado, esse professor usa o Ibirapuera comercialmente. A gente está falando de empresas que utilizam o parque como sede dos seus negócios", justifica Samuel Lloyd, diretor da concessionária Urbia Parques.

A empresa argumenta que o Plano Diretor do parque, discutido pela sociedade e aprovado antes da concessão, coloca a reorganização do parque como um dever da concessionária. E a cobrança de tarifa para quem usa seus espaços para vender um serviço esportivo, que deve gerar uma receita entre R$ 100 mil e R$ 200 mil ao mês para a Urbia, permitiria à empresa bancar a estrutura necessária para essa reorganização.

"Tem atividades que colocam cones para marcação, fazem cercamento dessas áreas, mobilizam bancos como ponto de apoio. Os frequentadores deixam de usar bancos, marquises, pontos de encontro, por causa das atividades. Além disso, há disputa por pontos entre assessorias. Então o arrecadado vai ajudar a pagar o profissional que vai ajudar a controlar o uso dessas áreas e evitar possíveis conflitos", argumenta Lloyd. A cobrança deve começar em março do ano que vem.

De acordo com Alessandra Othechar, presidente da ATC, na primeira reunião com a Urbia, no ano passado, a empresa sugeriu uma cobrança pelo tempo de trabalho dos treinadores no parque, algo entre R$ 80 e R$ 150 por hora. Lloyd nega que os valores apresentados tenham sido nesse montante. O modelo, de qualquer forma, foi considerado inviável, porque poderia até servir a assessorias que têm centenas de atletas, mas seria impraticável para grupos pequenos.

Em um segundo momento, já este ano, a oferta da Urbia foi cobrar R$ 30 por atleta. Ainda assim, o valor foi considerado alto. As assessorias de corrida cobram entre R$ 100 e R$ 300 por mês, e essa tarifa faria o valor do serviço subir de 10% a 30%, impactando as assessorias menores. Na conversa mais recente, segundo a ATC, a Urbia sugeriu ficar com 10% do faturamento bruto de cada profissional.

"Dez por cento é eles quererem ser sócios majoritários da assessoria. A gente tem 15% de lucro e se der 10%, eles se tornam sócios majoritários. Então a gente não entrou em acordo", explica Alessandra Othechar. À coluna, Lloyd disse que a empresa discute uma tarifa de 3% a 5%.

"Funcionaria por auto declaração. Eu tenho 10 alunos, cobro R$ 100, então minha receita é R$ 1 mil. E vou pagar 3% disso como tarifa para o parque", explica o diretor da Urbia. A empresa oferece como contrapartida um banco de dados no qual as assessorias e treinadores autorizados a trabalhar no parque poderiam ser encontrados por potenciais novos clientes.

Além da cobrança, também se discute como seria feita a fiscalização. "Se for referente ao faturamento, eu vou ter que abrir o meu faturamento? Se for cobrar por aluno, como eles vão saber quantos alunos eu tenho? Eu não posso fazer cadastro em nome do meu aluno, o aluno que vai ter que fazer o cadastro. A discussão está nesse sentido. Eles jogaram um valor muito alto, e agora a gente está tentando abaixar", conta Othechar.

As discussões vão além da tarifa. O parque também quer colocar todas as mais de 100 assessorias em apenas três pontos do Ibirapuera, o que Othechar diz ser inviável. "Se colocar as duas maiores assessorias na Serraria (próximo ao portão 7, com saída na avenida República do Líbano) já não cabe." As maiores assessorias têm grupos de mais de 300 pessoas correndo ao mesmo tempo.

A tendência, para a presidente da associação dos corredores, é que outros parques também passem a cobrar de atletas e treinadores à medida que sejam concedidos à iniciativa privada. A própria Urbia já administra outros parques menores e tem grande interesse no Villa Lobos, que tem perfil mais parecido com o Ibirapuera.

A empresa pretende, além de organizar o uso comercial do parque pelas assessorias, oferecer serviços pagos como armários para guardar objetos pessoais como celulares, chaves, mochilas, e vestiários com chuveiro —os banheiros vão continuar públicos, Lloyd garante.