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Olhar Olímpico

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Tifanny não fez mal a ninguém no vôlei, mas ainda sofre preconceito

Tifanny Abreu, jogadora de vôlei - Paulo Camilo/UOL
Tifanny Abreu, jogadora de vôlei Imagem: Paulo Camilo/UOL
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

11/05/2021 13h45

Três anos e meio após sua primeira partida como jogadora da equipe do Vôlei Bauru, Tifanny só fez bem ao vôlei nacional. Então um time de investimento mediano, o clube do interior de São Paulo se tornou parceiro do gigante Sesi-SP e se consolidou como um dos grandes do país, ainda que não tenha conquistado títulos expressivos. Como prêmio, Bauru vai ganhar dois ginásios nos próximos meses, graças a investimentos de mais de R$ 40 milhões. Fundamental para isso, Tifanny derrubou o preconceito de suas rivais de quadra, mas ainda precisa encarar o transfobia de quem só enxerga o invisível: os seus cromossomos.

Dentro do universo do vôlei feminino, Tifanny deixou de ser a mulher transgênero e se tornou uma jogadora como todas as outras. Uma ponteira melhor que a média, sim, mas não a ponto de ser titular da seleção brasileira. Um perfil de atleta que chega todos os anos à Superliga. A dominicana Brayelin Martinez (Praia Clube), a azeri Polina Rahimova, a búlgara Rabadzieva Dobriana (Sesi) e as norte-americanas Megan Hodge e Danielle Cuttino (ambas do Minas) estão aí como exemplos.

Há duas formas de ver a presença dessas estrangeiras na Superliga. Uma, amplamente superada faz muitos anos, a de que elas "roubam" o espaço de jogadoras brasileiras. Outra, narrativa com a qual Giba com certeza concorda, de que elas ajudam a desenvolver o vôlei brasileiro, à medida que tornam a Superliga mais forte, atraindo investimentos que beneficiam toda o ecossistema do vôlei.

Tifanny também veio do exterior (morou na Holanda) e ajudou a desenvolver o vôlei brasileiro. Antes dela, o Vôlei Bauru tinha um orçamento modesto e havia ficado em 10º na Superliga 2015/16, na sua temporada de estreia. Depois dela, se tornou uma das cinco forças do vôlei nacional, reforçado com investimento do Sesi-SP, que abriu mão de um time próprio no feminino e se somou ao Bauru muito por causa de Tifanny — tanto que no mesmo ano ela saiu candidata a deputada federal pelo MDB, a convite de Paulo Skaff, presidente do Sesi e então candidato a governador pelo partido.

O Bauru cresceu tanto desde a chegada de Tifanny que o governo federal resolveu assinar um projeto antigo e investir R$ 14,3 milhões para construir um centro esportivo, na maior obra contratada pela Secretaria Especial do Esporte na gestão Jair Bolsonaro (sem partido) até aqui. Foi convencido pelo secretário Alexandre Zwicker, que justificou (leia texto da assessoria de imprensa do Ministério da Cidadania) que Bauru tem duas equipes referências em suas modalidades: no basquete masculino e no vôlei feminino. Não era assim antes de Tifanny.

E o time de vôlei nem vai jogar lá. Até o fim deste ano o Sesi inaugura um ginásio próprio para a equipe de vôlei, no SESI Horto, ao custo de R$ 25 milhões. Ou seja: Tifanny não só não "roubou" o lugar de ninguém no vôlei como ajudou a desenvolver a modalidade em Bauru, a ponto de a cidade ganhar os dois ginásios mais caros em construção no país atualmente. Na Bauru de Tifanny, centenas, milhares de meninas terão a oportunidade de aprender a jogar vôlei nos próximos anos.

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Tudo isso sem Tifanny "sobrar" dentro de quadra, como acusam, falsamente, seus antagonistas. Os números falam por si. Mesmo mais alta que a média e mais forte que a média, a jogadora foi só a 14ª maior pontuadora da Superliga passada. Com mão maior que a média e braços mais largos que a média (ocupando mais espaço, portanto), não ficou nem entre as 30 melhores bloqueadoras.

Conforme a jogadora vem afirmando desde o início de sua trajetória na Superliga, ela é, sim, mais alta, forte, uma consequência direta de ter tido uma puberdade masculina, mas também tem reflexos mais lentos e cansa muito mais fácil que as companheiras porque faz um pesado tratamento hormonal. Balanceando as duas coisas, é só mais uma boa jogadora da Superliga. Desequilibra muito menos do que Giba desequilibrou quando jogou na Argentina e em Dubai, por exemplo. Nem por isso se disse que Giba tirava o emprego de alguém nessas ligas.

Giba só tem razão em um ponto nos argumentos exibidos em "entrevista" a Eduardo Bolsonaro: é preciso fazer exames, estudos, para medir o impacto da testosterona fazendo parte por tantos anos da vida de uma jogadora trans. E ninguém quer esses testes mais do que as mulheres trans, mulheres como Tifanny. Acontece que a realização desses estudos nunca passou de promessa.

Ninguém nunca chegou em Tifanny e a submeteu a uma bateria de exames. Como o UOL Esporte já mostrou, existem também outras jogadoras trans de vôlei, amadoras, que poderiam ser observadas.

Esse papel deveria caber à Federação Internacional de Vôlei (FIVB), que vem adiando as discussões. É da FIVB que Giba deveria reclamar. Mas ele, até outro dia, era assalariado da FIVB como "presidente da Comissão de Atletas". Escolhido pelos atletas? Não. Pelo presidente da FIVB, o brasileiro Ary Graça. Recentemente, depois da gravação da entrevista com Eduardo Bolsonaro, ele foi substituído no cargo, por uma holandesa, essa sim eleita.

Como presidente da Comissão de Atletas, Giba disse a Eduardo Bolsonaro que sugeriu um período de carência maior para uma jogadora trans em tratamento hormonal antes da estreia no vôlei feminino. Hoje, esse período é de 12 meses, mesmo tempo previsto nos regulamentos de federações que estudaram o tema a fundo: atletismo e ciclismo.

Ele não apresentou evidências para essa proposta, apenas uma comparação esdrúxula e preconceituosa com o doping por testosterona, que tem pena de até quatro anos. Giba esquece que o combate ao doping envolve o dolo, a iniciativa do atleta de trapacear, de ir contra as regras. O corpo de Tifanny não produziu testosterona porque ela queria tirar vantagem no vôlei feminino.

Aliás, por falar em doping, achei curioso que o "jornalista" Eduardo Bolsonaro não tenha perguntado a Giba nada sobre o assunto. O ex-jogador chegou a ser suspenso por doping por maconha e, segundo relato de Bernardinho, fumava maconha escondido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL