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REPORTAGEM

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Brasileira fura quarentena e é punida perdendo chance de ir à Olimpíada

Paola Reis foi prata no Pan - Abelardo Mendes Jr/Rede do Esporte
Paola Reis foi prata no Pan Imagem: Abelardo Mendes Jr/Rede do Esporte
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

30/04/2021 04h00

A ciclista brasileira Paôla Reis decidiu, por conta própria, que não precisava cumprir os 14 dias de quarentena que o Comitê Olímpico do Brasil (COB) determina como obrigatórios para os brasileiros que chegam a Portugal, abandonou a concentração da equipe de BMX que se prepara para a reta final da corrida pela vaga olímpica e viajou mais de 2 mil quilômetros de carro até a Itália. Ao fazer isso, ela foi punida pela Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) com sua exclusão de competições classificatórias, dando adeus ao sonho olímpico. Paôla, porém, alega que tinha autorização para viajar se conseguisse um jeito de chegar a Verona sozinha.

A primeira etapa da Copa do Mundo de BMX está programada para acontecer na cidade italiana na próxima semana. O COB e a CBC conseguiram que os atletas entrassem na Europa por Portugal, com a condição que todos cumprissem 14 dias de quarentena obrigatórios em Sangalhos, quase no extremo oeste do país. Parte do grupo chegou antes, fazendo escala na Suíça. Paôla manteve a programação do COB e chegou a Portugal dias depois.

A ciclista estava rompida com o técnico que a formou em Salvador, Leonardo Gonçalves, que está treinando o português Renato Silva. Esta semana, porém, o treinador se hospedou no mesmo hotel da delegação brasileira em Sangalhos e, no dia seguinte, Paôla anunciou que iria viajar de carro com Leonardo, Renato e o pai do ciclista português até Verona. O grupo percorreria mais de 2 mil quilômetros, cruzando Portugal, Espanha, França e parte da Itália. Para poder sair, a ciclista, prata no Pan de Lima e número 65 do ranking mundial, assinou um termo informando que abria mão de fazer parte da delegação brasileira.

Paôla alegou que por estar sem competir há mais de um ano, seria muito arriscado disputar a Copa do Mundo direto. Por isso, queria chegar à cidade italiana a tempo de disputar a Copa Europeia, neste fim de semana, também em Verona. Outros atletas da seleção brasileira, que foram liberados da quarentena em Portugal ontem (29) porque chegaram antes à Europa, farão o mesmo. Paôla também argumentou ter informado sobre a viagem às autoridades sanitárias da região de Algarve e que a Itália tem autorizado a entrada de atletas que participam de competições relevantes indicadas pelo Comitê Olímpico Italiano (CONI), sem a necessidade de quarentena.

No ciclismo, o ato foi considerado de indisciplina e o entendimento é que Paôla só tomou essa atitude por influência de Leonardo. Ao blog, o treinar negou responsabilidade pelo episódio, afirmando que a atleta pediu ajuda à família do ciclista português para chegar a Verona depois de escutar do superintendente da CBC, Fernando Fermino, que ela até poderia antecipar a viagem, mas teria que pagar pelo cancelamento da passagem, o que seria impossível para as finanças dela.

"O problema de ela participar do Europeu eram o transporte e os custos. Ela teria que pagar do bolso. Ela achou uma janela, não saiu fugida nem escondida. Comunicou e pediu autorização", diz Leonardo.

Mas a postura de abandonar a seleção enquanto seus companheiros seguiam em quarentena e deixar o treinador francês Thomas Alier, que vinha se dedicando a ela nos últimos meses, revoltou os dirigentes brasileiros. Considerando que Paôla desertou da seleção, a confederação decidiu não inscrevê-la na competição europeia, como ela pleiteava, nem na Copa do Mundo de Verona, na semana que vem.

De acordo com a CBC, o episódio será julgado pela instância competente. "O caso foi encaminhado ao Comitê de Ética e Integridade da CBC que deverá deliberar sobre o caso até a próxima semana, quando deve ouvir a atleta dentre outras providências. A CBC comunicou em tempo as autoridades locais sobre o grave potencial de risco sanitário e incidente internacional devido a quebra da quarentena", afirmou a confederação. Se for suspensa por um mês, que seja, Paôla fora da Olimpíada pois, sem ir a Verona e à Copa do Mundo da Colômbia, no fim do mês, ela não conseguirá ultrapassar Priscilla Stevaux e Julia Alves no ranking mundial.

No Instagram, Paola culpou a CBC: "A CBC está tirando minha oportunidade de classificar para os Jogos de Tóquio. Estou fora do Europeu e fora das etapas da Copa do Mundo, mesmo pagando por conta própria. A confederação se recusou a enviar uma autorização para eu competir esse evento", ela explicou. A reportagem procurou Paôla, mas ela não retornou o contato.

O Olhar Olímpico já havia publicado reportagem, em agosto do ano passado, sobre o complexo caso de Paôla, um dos maiores talentos do ciclismo brasileiro, mas que não se entende com a confederação. À época, o blog escreveu: "A CBC diz que dá oportunidades para Paôla, que ela não aproveita porque não se compromete com os treinamentos. Já ela alega que vira e mexe desiste do esporte porque não recebe mais oportunidades" e que, no meio do caminho, ficava o técnico Leonardo Gonçalves.