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Medalhista olímpica é acusada de inventar mentira para explicar doping

María Guadalupe González desmaia ao cruzar a linha de chegada na prova de 20km na marcha atlética - Jorge Arciga/Xinhua
María Guadalupe González desmaia ao cruzar a linha de chegada na prova de 20km na marcha atlética Imagem: Jorge Arciga/Xinhua
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

14/07/2020 18h31

Uma das principais estrelas do esporte mexicano, a marchadora Guadalupe González, prata na Olimpíada do Rio e no Mundial de Atletismo de 2017, está sendo investigada por ter deliberadamente mentido para tentar justificar um caso de doping que a suspendeu por quatro anos. Ela acusa o equivalente ao Ministério do Esporte do México de estar por trás da mentira. Rival da brasileira Erica Sena, a mexicana está fora da Olimpíada de Tóquio.

Guadalupe testou positivo para um esteroide proibido em novembro de 2018 e recebeu suspensão de quatro anos em maio do ano passado, em punição imposta pela Unidade de Integridade de Atletismo (AIU, na sigla em inglês), órgão responsável pelo combate ao doping nesta modalidade. Ela recorreu à Corte Arbitral do Esporte (CAS), na Suíça, e ontem (13) a AIU revelou que a apelação foi rejeitada.

Na sentença, a CAS explica que, no painel da World Athletics (ainda não existia AIU), Guadalupe alegou que consumiu a substância proibida, trembolona, a partir de carne contaminada, servida em um taco, prato típico mexicano. De fato essa substância costuma estar presente na carne no México, mas não em quantidade suficiente para aparecer como um resultado positivo em um exame antidoping, exceto em fígado de boi.

O painel investigou o que foi servido para Guadalupe no centro de treinamento do governo mexicano nos dias anteriores ao exame e descobriu que não foi servido fígado, apenas carne comum. Logo, a tese apresentada por Guadalupe era falsa. Na corte suíça, a marchadora confirmou que tinha conhecimento que as evidências apresentadas na primeira instância eram falsas. Mais do que isso: a investigação descobriu que falsos documentos foram produzidos para sua defesa.

Com base nessas informações, a AIU abriu um novo processo, acusando Guadalupe de enviar documentos falsificados e provas fabricadas. À imprensa mexicana, a marchadora acusou o Conade, conselho que atua como Ministério do Esporte do México, de tê-la forçado a mentir. Segundo ela, a mentira foi inventada pelos advogados, que não são especialistas em doping, e que foram indicados por um funcionário do órgão. Guadalupe está processando esses advogados, que por sua vez também processam a atleta.

O imbróglio por trás do caso mexicano pode refletir no caso Rafaela Silva. Orientada pelo biquímico L.C. Cameron, a judoca brasileira alegou que a substância proibida fenoterol, usado em tratamento para doenças respiratórias, poderia ter entrado no corpo dela ao dar seu nariz para uma bebê que usa esse tipo de medicamento chupar.

A tese, defendida por Cameron no painel da Federação Internacional de Judô (IJF), foi duramente rebatida, tida como inverossímil. Tanto que, antes mesmo da suspensão de dois anos a ela ser anunciada, Rafaela já havia procurado outro advogado para defendê-la na Corte Arbitral. Como contou o Olhar Olímpico, esse novo profissional, o especialista Marcelo Franklin, não deve manter a tese do nariz chupado por um bebê.