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Tandara: ação contra clube que me dispensou grávida mostra força da mulher

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Imagem: AP
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

21/06/2020 04h00

Quase cinco anos depois de dar a luz à filha Maria Clara, a campeã olímpica de vôlei Tandara comemorou na semana passada o direito de continuar recebendo seu salário enquanto estava grávida. Em decisão de última instância, o Tribunal Superior do Trabalho (TRT) reconheceu que o contrato de direitos de imagem firmado entre ela e o Praia Clube, de Uberlândia (MG), não poderia ser rompido durante a gravidez.

A decisão é inédita no esporte brasileiro, onde atletas costumam ficar sem emprego depois de informarem a seus clubes que estão grávidas. "A gente vivia entre a cruz e a espada. É uma vitória para a gente. É mais uma demostração de força. A gente tem que ser valorizada pelo nosso trabalho. O clube tem que ter um respaldo e nós também precisamos ter", disse a jogadora, hoje no Osasco, ao Olhar Olímpico.

Tandara engravidou, de forma inesperada, no final de 2014. Depois de fazer os exames necessários, avisou o Praia Clube da gravidez. Sonhando com a Olimpíada do Rio, continuou jogando até a equipe ser eliminada nas quartas de final da Superliga 2014/2015, no final de março, pelo Minas Tênis Clube.

Quando o contrato venceu em 31 de maio, porém, o Praia decidiu que não queria continuar contando com a jogadora e não aceitou acordos propostos pelo advogado da oposta. A legislação trabalhista não permite a baixa na carteira de trabalho durante a gravidez, então Tandara seguiu registrada pelo clube, recebendo, de acordo com a ação trabalhista, apenas 0,5% do seu salário regular, que incluía também os direitos de imagem.

O modelo é usual no vôlei, com contratos anuais formalizados com valores baixos na carteira e o restante pago como direito de imagem. Quando venceu esse contrato, o Praia não quis manter a jogadora grávida em seu elenco. E outras equipes não quiseram contratá-la. "Mantive meu treinamento, fazendo natação, fazia exercício na academia, tive um cuidado. Como eu queria que meu parto fosse normal, eu me cuidei para voltar rápida. O parto foi em 13 de setembro e, em 21 de outubro, eu já estava começando a fazer exercício, começando a treinar", conta Tandara.

Figurinha carimbada na seleção, o esperado seria ela ser convocada pelo técnico José Roberto Guimarães em abril e ficar jogando pelo Brasil até o final de setembro, retornando ao clube apenas em outubro. Grávida, ela foi dispensada por Zé Roberto e, mesmo assim, conseguiu voltar a treinar em outubro, participando da Superliga 2015/2016 desde a primeira rodada. A diferença é que, por estar grávida, ela não recebeu salário.

Já no fim da gravidez, o Minas ofereceu a Tandara a possibilidade de tê-la no elenco quando fosse possível. Assim que Maria Clara nasceu saudável, a campeã olímpica pediu demissão do Praia e se transferiu para o rival. Mas não esqueceu o que passou. "Tive essa coragem principalmente pela minha filha. Era um direito nosso. Eu queria um respaldo do clube para que tivesse uma gestação tranquila até minha filha nascer. Para ter a tranquilidade de cuidar dela, para que eu chegasse ao meu ponto físico bem, para que eu retornasse bem, porque foi muito rápido, foi de uma temporada para outra", diz.

O valor a ser pago pelo Praia à jogadora ainda não foi calculado, mas em tese é equivalente a quatro meses de salário. Um valor significativo no mercado atual. Tandara sabe que processos trabalhistas podem fechar portas, mas não se arrepende do caminho que escolheu.

"Eu estou sendo pioneira no processo, mas corro risco de fecharem as portas para mim. Eu deixo muito bem claro que em nenhum omento foi pelo lado financeiro. Eu não tenho raiva do Praia, não tenho ódio. Minha filha é de Uberlândia, meu marido é de lá, eu amei morar lá, não é nada pessoal, eu só fui buscar o que eu acho que como funcionária a gente tem direito sim. É um direito da mulher, não só meu como atleta", defende.

"A gente tem que ter um respaldo, não ser julgada por ser mulher, correr o risco. Eu não engravidei de propósito. Eu não fiz de caso pensado, eu almejava uma Olimpíada, poderia me prejudicar no meu sonho. Justamente por isso, sabendo que estava grávida, me cuidei, lutei pelo meu espaço dentro da seleção. Todo cuidado foi feito e a gente sabe que gravidez não é doença", continua.