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Pais querem skatista de 12 anos fora da Vila Olímpica em Tóquio

A skatista Rayssa Leal, 12, a Fadinha, posa ao lado de Ocean Brown, 8, durante evento Laureus for Good, em Berlim - Getty Images/Laureus
A skatista Rayssa Leal, 12, a Fadinha, posa ao lado de Ocean Brown, 8, durante evento Laureus for Good, em Berlim Imagem: Getty Images/Laureus
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

16/02/2020 18h11

A provável mais jovem brasileira nos Jogos Olímpicos de Tóquio não deverá frequentar a Vila Olímpica. Ao menos essa é a vontade dos seus pais. Número 2 do ranking mundial do skate na modalidade street, Rayssa Leal, de recém-completados 12 anos, muito provavelmente vai conseguir a classificação para brigar por medalha na estreia do skate como esporte olímpico. Indicada ao prêmio de melhor atleta de esportes radicais de 2019 no Laureus, o Oscar do esporte, Fadinha, porém, deve passar longe dos maiores esportistas da atualidade em Tóquio.

"A gente é um pouco contra [Rayssa ficar na vila], porque na minha opinião é um local que vai ter pessoas muito mais idade que ela, a não ser que esteja com as meninas da seleção. Mas a gente nunca deixou a Rayssa longe, a gente não sabe como vai organizar, se ela vai ficar na Vila ou ficar conosco no hotel e só ir no dia da prova", diz a mãe, Lilian.

O Comitê Olímpico do Brasil (COB) chegou a cogitar a possibilidade de credenciar Lilian ou o marido, Haroldo, como membro da comissão técnica do skate, para que um dos pais pudesse ficar hospedado dentro da Vila, também, acompanhando Rayssa. Mas só há credencial para o treinador da seleção, Rogério Mancha, e essa opção já foi descartada.

A maior parte dos esportes olímpicos em que atletas pequenos se destacam, como saltos ornamentais e ginástica, tem limites mínimos de idade para participar dos Jogos Olímpicos e torneios internacionais. Ao chegar ao programa olímpico, o skate não impôs esse tipo de restrição entre os critérios de elegibilidade, permitindo que jovens como Rayssa e a britânica Sky Brown, de 11 anos, briguem por medalha em Tóquio. Como comparação, quem tem 11 anos não pode sequer competir nos Jogos Escolares no Brasil, porque não é recomendável a iniciação competitiva tão cedo

Assim, equacionar a carreira de uma atleta profissional com a de uma criança tem sido um desafio para os pais tanto de Rayssa quanto de Brown - que não concedem entrevistas. A brasileira, por exemplo, é patrocinada, como quase todo mundo no circuito, por uma marca de bebidas energéticas, a Monster. Só que esse tipo de bebida não é indicado para crianças.

"Criança não pode ser patrocinada por energético no Brasil. Nos EUA eles entenderam que têm como provar que ela é uma criança prodígio, e por isso ela é patrocinada pela Monster dos EUA. Mas ela não pode beber energético, ela não pode segurar uma latinha, nem se você só pedir para ela pegar na geladeira. Ela só pode ter adesivo no skate e segurar uma garrafinha só no pódio", explica a mãe.

Criança prodígio, competindo entre adultas desde os 8 anos, Rayssa é diferente de outras meninas e meninos da idade dela. Neste domingo (16), em evento do Laureus for Good em Berlim (Alemanha), ela se encontrou com jovens de um projeto de desenvolvimento do skate na capital alemã. Enquanto todas as crianças, algumas maiores, outras menores que ela, usavam capacete, tornozeleira e joelheira para fazer movimentos dos mais simples, ela corria a pista sem nenhuma proteção. Nem ela, nem Brown (de quem é bastante amiga), nem o pequeno Ocean Brown, irmão de Sky, de apenas 8 anos, outro fenômeno, a quem Rayssa trata como um adulto trata uma criança.

As idades se misturam. Em determinado momento do evento, Rayssa estava ensinando uma jovem maior que ela a fazer um movimento simples, enquanto Ocean a puxava para que, juntos, subissem uma rampa bem mais difícil. Minutos depois, a brasileira saltava um corrimão sendo filmada de perto por ninguém menos que o Tony Hawk do jogo de vídeo game preferido dela.

Lilian e Haroldo tentam que Rayssa não se afaste completamente da vida de uma criança comum. Quando está em Imperatriz (MA), sua cidade natal, os pais a incentivam a brincar com as colegas da mesma idade, não ficando restrita ao treinamento de três horas. Para estar em Berlim, ela trouxe um notebook com o material das aulas que vai perder. É assim sempre que viaja, para não perder conteúdo.

Os pais, ao mesmo tempo, têm se dedicado cada vez mais à filha prodígio. Lilian, que tem apenas 28 anos, saiu do emprego de atendente de caixa e entrou em uma faculdade de administração para cuidar da carreira da filha de forma mais profissional. O marido, vidraceiro, também está abandonando a profissão para poder ficar mais perto do outro filho do casal e acompanhar Rayssa sempre que possível.

Olhar Olímpico