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Suspensão de Rafaela faz Brasil apostar em judoca também punida por doping

Jéssica Pereira, revelação do judô brasieliro - Divulgação/CBJ
Jéssica Pereira, revelação do judô brasieliro Imagem: Divulgação/CBJ
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

06/02/2020 04h00

Sai uma judoca suspensa por doping, entra uma judoca que acabou de cumprir suspensão por doping. A situação constrangedora é o caminho para o Brasil superar a ausência de Rafaela Silva e tentar classificar outra atleta na categoria até 57kg aos Jogos Olímpicos de Tóquio. Jéssica Pereira, também do Instituto Reação, recém-liberada de uma suspensão, é a nova aposta da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).

Gestor de alto-rendimento da CBJ, Ney Wilson deixa claro que poder contar com Rafaela em Tóquio não é apenas o plano A da confederação, mas também o plano B. A campeã olímpica recebeu na semana retrasada uma suspensão de dois anos e vai gastar mais de R$ 250 mil só em taxas para recorrer à Corte Arbitral do Esporte (CAS). Mas seria imprudente o judô brasileiro não ter um plano C e um plano D.

Esses planos começam a ser executados no fim de semana, quando Jéssica Pereira ocupará a vaga antes reservada a Rafaela na chave do Grand Slam de Paris, um dos torneios mais tradicionais e importantes do Circuito Mundial. Jéssica, também do Instituto Reação, acabou de cumprir uma suspensão por doping. Em setembro do ano passado, logo depois de ser quinta colocada no Campeonato Mundial, ela testou positivo para furosemida, um diurético.

Naquele momento, Jéssica era a grande revelação do judô brasileiro, mas na categoria até 52kg, a mesma de Erika Miranda, para quem perdeu na decisão do bronze no Mundial de 2018. Erika logo em seguida se aposentou e deixou o caminho livre para Jessica ir à Olimpíada. Mas aí veio o doping e o fenômeno Larissa Pimenta, que já é a 10ª do ranking olímpico e não para de evoluir. Feitas as contas, a comissão técnica notou que, voltando de suspensão, Jéssica dificilmente superaria Larissa.

Aí foi juntar a fome com a vontade de comer. "A Jéssica tem as características para lutar no 57kg. Ela é alta, mais alta que a Rafaela inclusive, canhota, tem o porte físico, já sofria em perder peso. Ela não vai ter dificuldade de chegar no limite de peso rapidamente", explica Ney Wilson.

Como ninguém achava que Rafaela poderia ficar fora da Olimpíada, a CBJ não se preocupou em aprontar alguém para competir em alto nível em Tóquio. O foco estava em preparar o terreno para 2024, lapidando com calma a jovem Ketelyn Nascimento, 21 anos, que estreou com prata no Grand Slam de Brasília, vencendo a própria Rafaela na semifinal.

Agora, porém, não há tempo a perder, porque tanto Ketelyn quanto Jéssica têm apenas até 30 de maio para somar pontos o suficiente para entrar na zona de classificação olímpica, que oferece vagas a judocas de 22 países. Ketelyn já tem 825 pontos (700 só de Brasília), enquanto Jéssica começa zerada. Para a estratégia dar certo, as duas vão competir em boa parte dos finais de semana dos próximos quatro meses.

Nesse período há previsão de o Brasil participar de quatro Grand Slam's (Ketelyn não foi inscrita em Paris) e três Grand Prix's. Além disso, serão realizados Open's continentais, que valem menos pontos, o Campeonato Pan-Americano e o Masters, torneios que dão pontuação extra no ranking olímpico.

"Mas nós já conversamos com as duas e elas sabem que, a Rafaela pegando até oito meses, ela volta e vai à Olimpíada e quem tá brigando pela vaga vai perder a vaga mesmo dentro do ranqueamento olímpico. Isso está muito claro para as duas", diz Ney Wilson. A campeã olímpica, mesmo suspensa, é ainda a quarta do ranking olímpico.

Se o ranking olímpico fechasse hoje, o Brasil iria à Olimpíada com: Eric Takabatake (60kg), Daniel Cargnin (66kg), Eduardo Barbosa (73kg), Eduardo Yudi (81kg), Rafael Macedo (90kg), Rafael Buzacarini (100kg), David Moura (+100kg, está três posições à frente de Rafael Silva), Gabriela Chibana (48kg, favorita, Nathalia Brígida está voltando de lesão), Larissa Pimenta (52kg), Ketleyn Quadros ou Alexia Castilhos (uma é 11ª, outra 14ª, e assim a decisão fica com a comissão técnica), Maria Portela (70kg), Mayra Aguiar (78kg) e Maria Suelen Altheman ou Bia Souza (+78kg, uma é terceira, a outra quarta).

Ketleyn e Jéssica também podem se classificar à Olimpíada mesmo não ficando na zona de classificação, formada por atletas de 22 nações. Cada país pode classificar um atleta por cota continental, contando todas as 14 categorias do judô e hoje o Brasil tem uma única categoria precisando dessa cota: a até 73kg masculina. Nela, Eduardo Barbosa é só o 37º. Em Paris, Marcelo Contini e Michael Marcelino serão testados. Se um deles entrar na zona de classificação, aí a cota automaticamente passa para a categoria até 57kg.