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Devendo salários como dirigente, Ricardinho volta ao vôlei aos 44 anos

Ricardinho volta a treinar com o time de Maringá - Thaís Pismel/ Resenha Comunicação
Ricardinho volta a treinar com o time de Maringá Imagem: Thaís Pismel/ Resenha Comunicação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

05/02/2020 04h00

Um ano e meio depois de se aposentar como jogador de vôlei, o levantador Ricardinho voltou a treinar no fim da tarde de ontem (4) para ficar à disposição da equipe de Maringá (PR). O retorno às quadras aos 44 anos, porém, é por um motivo nada nobre. O clube, do qual é presidente, não paga salários há três meses, está sofrendo uma debandada de jogadores, e corre risco de não ter elenco para terminar a Superliga Masculina. "Você imagina o estado que eu estou emocional, de tristeza, era uma das coisas que prezo muito", contou, ao telefone, ao Olhar Olímpico.

Os problemas financeiros começaram quando a Denk Academy, que havia firmado contrato como patrocinadora exclusiva do time na temporada, parou de pagar as parcelas mensais do acordo. Sem sua única fonte de renda, o Maringá Vôlei não pagou os salários de novembro, dezembro e janeiro. Também não há previsão de pagar fevereiro. A dívida, pelo que apurou o blog, já supera meio milhão de reais. Além do time, há um projeto social com 400 crianças e adolescentes que está paralisado e com chances de não prosseguir

"Nós explicamos a situação e deixamos os jogadores à vontade para fazer o que achassem melhor, porque cada um sabe onde o copo transborda. Conversamos muito, com cada jogador, sobre as situações particulares deles. Já perdemos sete atletas. Alguns porque conseguiram outras equipes, outros porque não conseguiam se sustentar. Eu sou fiador do apartamento de todos eles. São 40 pessoas envolvidas efetivamente", conta Ricardinho.

A situação do clube, que existe há sete temporadas, é especialmente delicada porque os cofres estão vazios e, por recomendação dos advogados, o Maringá não pode fechar com novos patrocinadores, sob risco de desrespeitar o contrato com a Denk. Assim, as soluções encontradas enquanto o patrocinador não quita a dívida foram recorrer a uma vaquinha online (link aqui), passar o chapéu entre amigos e familiares, e colocar a imagem de Ricardinho à disposição de empresas interessadas em ajudar, sem contrapartida de exposição no uniforme.

"Eu não tenho vergonha alguma de pedir ajuda, seja de torcedores de arquibancada, amigos, vizinhos de prédio, familiares. Todos sabem da seriedade do nosso projeto. A gente tem que tem que expor, não pode acontecer isso, um patrocinador não pagar. Não pode deixar assim. Não é outdoor que você cancela o contrato e ele tira a propaganda. São famílias passando necessidade. Tem que expor, falar, pedir ajuda, tem que estar do lado dessas pessoas", diz o levantador.

Enquanto jogador, só uma vez ele ficou sem receber salários. No final do ano, fez um acordo com o clube, recebeu o que devia em diversas parcelas, e ficou tudo bem. Agora Ricardinho espera que a Denk pague o que deve para que o Maringá possa arcar com suas responsabilidades junto a jogadores e funcionários.

Uma regra da Superliga diz que um time só pode se inscrever para uma temporada se apresentar certidão assinada por todo seu elenco de que quitou os salários da temporada anterior. O descumprimento dessa regra por parte de Guarulhos, sem punição por parte da CBV, fez a comissão de atletas da confederação, presidida por André Heller, renunciar em massa.

Ricardinho concorda com a norma e diz que, independente dela, não volta a montar um time até que todos os salários desta temporada sejam quitados ou que sejam firmados acordos com todos os atletas. "Não vou participar enquanto eu não estiver completamente quitado ou acertado com todos os jogadores da temporada. Não vou permanecer na Superliga enquanto eu não estiver com a situação resolvida."

Apesar de todos esses problemas, a situação esportiva do Marigná não e tão ruim. A equipe ocupa o sétimo lugar na Superliga e, hoje, estaria classificada aos playoffs. É improvável que a classificação se mantenha em meio à debandada, que deixou o elenco com somente 11 atletas, mas escapar do rebaixamento é um sonho viável. Nas duas últimas posições, América Vôlei (também em crise financeira) e Ponta Grossa só ganharam um jogo cada. O Maringá tem cinco vitórias, faltando oito rodadas para o fim da temporada.

Por ter Ricardinho por perto o tempo todo, o clube não contratou um terceiro levantador para a temporada e inscreveu o veterano para o caso de uma emergência - na temporada passada, ele chegou a jogar uma partida nessas condições. Nesta semana, o levantador reserva Lucas abandonou o barco e Ricardinho decidiu se juntar de vez ao elenco, para completar o time e para demonstrar solidariedade.

"Eu sei o que eles tão sentindo lá dentro. Minha volta a quadra é mais por esse sentido, para dar um apoio moral, mostrar que estou com eles fora da quadra e dentro também. Os caras sabem que eu estou do lado deles", avalia o jogador, que chegou a treinar com o elenco no início da temporada e que segue, segundo ele, "muito ativo" fisicamente depois do expediente. Para poder estrear, porém, Ricardinho ainda precisa se submeter a exames físicos obrigatórios. Por isso, ele não viaja para jogos complicados fora de casa contra Sesi e Sada.

Olhar Olímpico