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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: O Corinthians e seu "respeito às minas"da boca para fora

Movimento Alvinegras, de torcedoras do Corinthians - Divulgação
Movimento Alvinegras, de torcedoras do Corinthians Imagem: Divulgação
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

20/11/2021 08h47

Essa semana saí de casa disposta a comprar a camisa do Corinthians que é aquela feita em homenagem à luta feminista das mulheres que nos antecederam. Comprar camisa oficial não pode ser ação impulsiva: o preço - mais de 300 reais - é um teste da nossa paixão e entrega. Pensei, pensei e lá fui eu.

Mas, já na loja, peguei a camisa não mão (lindíssima, por sinal) e vi a frase que está inscrita nela: "Respeita as minas". Naquele instante, alguma coisa não caiu bem.

Me veio à cabeça o trabalho corajoso que vem fazendo minha amiga Marilia Ruiz, que acaba de revelar mais um absurdo dito pelo conselheiro corintiano que atende pelo nome de Mané da Carne: "Agora colocaram uma lei da Penha (sic), que qualquer coisa que você fala é mimimi, machismo. Elas podem tudo, e nós não podemos nada. Mas comigo não tem esse negócio não. Se uma mulher me ofender, eu vou pra cima e dou-lhe murro mesmo".

Devolvi a camisa à vendedora e voltei de mãos vazias para casa.

Se o alinhamento ao feminismo é apenas para efeito de sair bem na foto, ele não interessa. Ser aliado na luta das mulheres seria expulsar o conselheiro misógino e violento de suas funções. Estar compactuado às causas feministas seria fazer nota de repúdio contundente explicando os motivos da expulsão. Feminismo que vira slogan e nada mais do que isso é apenas marketing barato, covarde e indecente.

Um time que se orgulha de dizer que é o time do povo não pode aceitar entre seus conselheiros alguém de caráter tão rastejante. Ou nós, mulheres, não fazemos parte desse "povo"?

Um time que se orgulha de sua luta pela democracia não pode escutar a violência contida na frase dita pelo tal Mané e dar os ombros sabendo dos números grotescos que as pesquisas mostram a respeito da violência diária praticada contra corpos femininos. A violência física é sempre precedida da verbal; esse é um caminho sem volta.

Grudar uma frase de efeito em camisas oficiais para que a gente saia comprando, orgulhosas do manto, é a coisa mais fácil do mundo. O difícil é ser suficientemente valente para agir de modo a nos ajudar a sair da situação de opressão em que nos encontramos: uma mulher assassinada a cada dia, uma mulher estuprada a cada dez minutos, 30 mulheres agredidas a cada hora. Os dados da violência contra a mulher são números de uma guerra.

Se o Corinthians quiser entrar de verdade nessa luta com a gente, estaremos felizes em receber esse que é o time da Democracia e do povo. Mas se for para fingir que luta junto só para ganhar um dinheirinho e alguma moral, melhor guardar as camisas roxas na gaveta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL