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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Caso Jô é recheado de covardia e falta de empatia

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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

08/06/2022 04h00

Jô estava com os amigos em um pagode (ou um samba, sei lá) enquanto o Corinthians perdia para o Cuiabá, ontem à noite, pelo Brasileiro. A primeira pergunta que me faço é: o vídeo teria sido gravado e divulgado se o Corinthians estivesse vencendo por 3 a 0? Se sim, a reação seria a mesma da que vimos nas últimas horas?

O "caso Jô" não é o primeiro nem o último que vemos no futebol. Jogador machucado (ou suspenso, sei lá) e "curtindo a vida" enquanto o time joga.

Em primeiro lugar, considero uma covardia o que o rapaz que gravou o vídeo fez. E também considero uma covardia que a "análise", ou melhor, o julgamento, se dê com tão poucas informações disponíveis.

Está na moda malhar o jornalismo, como se fosse a pior profissão do mundo, responsável por todos os males do universo. Mas vamos lá, pouca gente sabe o que é jornalismo. Neste caso específico de ontem à noite, jornalismo seria apurar e trazer todas as informações necessárias para podermos falar do caso.

O que Jô estava fazendo lá? Era somente uma noite como qualquer outra ou talvez ele estivesse reencontrando um amigo que quase morreu de Covid e que ele não via havia dois anos? Quanto tempo ficou? Parece ter sido irresponsável com a perna esquerda, lesionada, que lhe tirou do jogo de Cuiabá e outros? Ele comeu oito pedaços de pizza e saiu bêbado da festa? O clube sabia? O técnico sabia? Havia sido dada a ele uma "lição de casa" que exigia assistir ao vivo a partida pelo Brasileiro? Ele desrespeitou algum regulamento do clube, que proíbe jogadores de saírem com amigos?

Todas estas são informações importantes. E é claro que o cidadão com o celular, puto porque o time está perdendo, não está preocupado com nada disso. Ele não é jornalista, afinal. E o cidadão com o celular tampouco está preocupado em filmar Jô na fisioterapia, tentando se recuperar fisicamente para estar pronto para o próximo jogo.

Vejam, eu não acho um absurdo que Jô seja criticado. Acho que este é um caso clássico de falta de empatia. Falta empatia a Jô, que não se coloca no lugar do torcedor e de seus superiores no clube, que deram voto de confiança nele. Sabendo que é pessoa pública e alvo fácil, por que se expor? Mas falta muita empatia também a quem vai detonar Jô e que não se coloca no lugar do atleta. O cara não pode ter vida fora do futebol?

Se Jô faltar na fisioterapia hoje ou se estiver descompromissado no processo de recuperação, aí definitivamente pode-se falar em "falta de profissionalismo". Mas a simples ida a um bar não denota isso, de forma alguma.

E se ele estivesse em casa, brincando com o cachorro e nem aí para o jogo? E se ele deixou a partida sendo gravada e se programou para assisti-la com calma no dia seguinte, enquanto faz exercícios na academia? Não sabemos, simplesmente não sabemos e é uma covardia chegar a tantas conclusões com tão pouca informação.

Repito: entendo a crítica. Mas entendo também que jogadores de futebol não precisam viver como escravos do fanatismo.

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