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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Choro de Messi é o melhor recado a quem quer a morte do futebol de seleções

Messi chora durante festa com torcida por conquista da Copa América - Reprodução/Twitter
Messi chora durante festa com torcida por conquista da Copa América Imagem: Reprodução/Twitter
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

10/09/2021 04h00

A cada data Fifa, a mesma história. Os clubes brasileiros reclamam - e com razão, porque costumam perder jogadores sem que o campeonato pare (vamos torcer para a CBF mantenha o que fez desta vez, adiando jogos de clubes prejudicados). Muitos torcedores esbravejam. E muitos colegas - que respeito - bradam contra o futebol de seleções.

Não é só aqui. Na Espanha, apelidaram de "vírus Fifa". Na Europa, convenhamos, há clubes que perdem 12, 15, 20 jogadores.

Eu respeito, repito, quem fica indignado com os jogos entre seleções "atrapalhando" os clubes. Quando um Bayern fica sem Lewandowski na hora H da Champions League porque se machucou jogando contra Andorra, é claro que fica reforçado o argumento de quem acha que as seleções jogam demais. Mas Lewandowski poderia ter se machucado em um treino ou subindo uma escada, e nem por isso iremos abolir treinos e escadas.

Fatalidades acontecem. Imputar ao futebol de seleções todas as lesões que acontecem no esporte é uma distorção.

O fato é que o futebol de seleções é fundamental para o esporte ser o que é. O jogo não é feito somente para fanáticos que respiram seus clubes do coração diariamente ou para jornalistas que precisam de jogos e mais jogos para comentar e debater.

O jogo é feito para todo mundo. E é importante, sim, atingir outros públicos que não sejam só os dos clubes. Não estou aqui dizendo que a Fifa é a entidade santificada e coitadinha que precisa proteger o futebol da ganância dos clubes e corporações que os controlam. Mas o fato é que Fifa e Uefa, principalmente, são representantes legítimas do futebol em escala global e com a função de olhar para o esporte de forma mais abrangente.

Precisamos ter cuidado para não ignorar o que pensam e sentem os próprios atores, os que fazem o jogo acontecer: os jogadores. O choro de Messi ontem, mostrando a sonhada taça que a Argentina não conquistava havia 28 anos para seu público, é muito emblemático.

Com tudo o que Messi já ganhou no Barcelona ou no plano individual, eu nunca havia visto "La Pulga" tão emocionado. Eu já convivi muito com o ambiente de seleção brasileira e de outras seleções. Não há nada igual. Os caras amam jogar por seus países, realizam sonhos de infância deles, de amigos e de familiares quando estão em ação por suas seleções. É o ápice. Não dá para simplesmente tirar isso da equação futebol.

Assim como é preciso proteger os clubes pequenos, de bairros, de menor expressão. Eles também estão sendo empurrados para fora do teatro. Tem muita gente adotando um discurso ou comprando uma versão que interessa a meia dúzia de corporações do futebol, seja na Europa, seja no Brasil.

Os clubes são os que pagam salários, é o que dizem. E daí? Quer dizer que trabalhadores agora são escravos de quem paga seus salários? Os clubes pagam altos salários justamente para jogadores de destaque, com capacidade para defender as seleções deles e que geram enormes receitas. É assim desde que o mundo é mundo. É um fato dado deste negócio chamado futebol.

Eu entendo que possam haver menos datas para seleções ao longo de um ano. Sim, eliminatórias para os torneios de seleções podem ser diminuídas. É justo.

Os jogadores são bastante prejudicados e gostariam de jogar menos. O que não quer dizer que queiram jogar menos por suas seleções, importante frisar. Esta é uma premissa equivocada.

Mas enfim, eu concedo que possa ser feito um calendário diferente e com menos jogos de seleções ou jogos que sejam mais concentrados. Detesto a ideia que vai amadurecendo, de Copa do Mundo a cada dois anos. Tudo o que se repete com frequência perde peso. Acho que há outros caminhos.

Mas espero que o futebol de seleções não seja jogado para segundo, terceiro, quinto plano. Os caras adoram, o futebol precisa deste público rotativo, global e que se renova e o encontro de nacionalidades segue sendo algo atrativo e apaixonante. O futebol de clubes não existe sozinho. É preciso olhar um pouquinho menos para apenas este lado do negócio e mais para o jogo como um todo. Vida longa ao futebol de seleções!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL