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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Neymar não cansa de ser boboca

Neymar durante jogo suspenso das Eliminatórias contra a Argentina - Marcello Zambrana/AGIF
Neymar durante jogo suspenso das Eliminatórias contra a Argentina Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

10/09/2021 00h06

Neymar voltou a mostrar aquela faceta do injustiçado, perseguido, do coitadinho, de quem joga "contra tudo e contra todos". Disse, ao final da vitória da seleção brasileira contra o Peru, que "não sabe mais o que fazer para ser respeitado".

O ótimo repórter Eric Faria fez o que bons jornalistas devem fazer: deu sequência à entrevista. Mas vem cá, Neymar, do que você está falando? E o questionamento mostrou que Neymar tinha mesmo somente uma frasesinha pronta para "lacrar" junto a seu público fiel. A falta de argumentos sólidos não resiste a uma simples pergunta. "Mas do que você está falando? Que tipo de desrespeito?".

Ele gaguejou, disse algo do tipo "vocês sabem bem, vocês repórteres, comentaristas, todo mundo....". Neymar passou um jogo que estava uma moleza tentando arrumar encrenca com os peruanos, batendo boca, em vez de brilhar.

Quem desrespeita quem?

Neymar é um dos maiores jogadores de futebol do mundo. Talvez acabe a carreira como o maior artilheiro da história da seleção brasileira. Se vai ganhar uma Copa ou não, à essa altura, nem é a coisa mais relevante. Não podemos simplificar análises sobre carreiras com "ganhou isso", "não ganhou aquilo".

Como um dos maiores jogadores do esporte mais popular do mundo, o mais caro até hoje, ele sempre será avaliado. Cada passo, cada passe, cada gol, cada jogo brilhante, cada jogo ruim, cada posicionamento diferente. É parte do ofício. O mesmo ofício que faz Messi, Cristiano Ronaldo, Mbappé, Griezmann, Pogba, Haaland, Lewandowski, etc, etc, etc, serem também elogiados, criticados, debatidos.

Talvez ele acha que seja respeitado lá fora, ao contrário daqui. Bem, talvez ele não fale tantos idiomas assim ou não perca tempo lendo o que se fala dele. As críticas feitas aqui são as mesmas que são feitas em outros países.

Neymar vive em duas bolhas. A bolha da vida física, em que seu entorno e parças alimentam a ideia de gênio injustiçado. Nesta bolha, não há críticas ou conversas francas. Há somente bajulação e um ódio que vai sendo nutrido por quem não tem as mesmas visões e opiniões. A outra bolha é a da vida virtual. A das redes sociais, em que ele também é só bajulado e idolatrado.

Quem vive em bolhas se assusta quando ouve ou lê algo que não agrada, que não faz parte das mesmas linhas de bajulação citadas acima.

Neymar respeita seus colegas de profissão? Há muitos relatos, declarações e imagens que mostram que este não é o forte dele. No próprio jogo contra o Peru, há bate bocas que indicam aquele velho desdém pelo adversário ( "joga onde? ganhou o quê?"). Basta olhar para as votações para prêmios, realizadas com os atletas do mundo todo, para entender que Neymar não é exatamente adorado por muitos de seus pares.

Ele tem muitos amigos. E muitos inimigos. E não são todos os craques que colecionam inimigos e desafetos por onde passam. Para querer respeito, é preciso respeitar.

Já a relação com a imprensa é mais complexa, porque há muitas imprensas - ainda que a maior parte do público tenda a colocar todos os jornalistas, repórteres, comentaristas, ex-jogadores, etc, no mesmo saco.

Eu não tenho dúvidas de que haja críticas que beirem, sim, o desrespeito. Assim como não tenho dúvidas de que, nos principais meios, as críticas são técnicas e/ou comportamentais. Lícitas. Só podem ser consideradas desrespeitosas por quem não admite nenhum tipo de contraditório.

É desrespeitoso dizer que Neymar exagerou nos teatros na Copa da Rússia? É desrespeitoso falar que Neymar jogou mal contra o Chile porque estava fora de forma? É desrespeitoso falar que Neymar foi infantil ao tomar o amarelo no fim da partida contra o Peru? Não, não é. É analisar os fatos. Aliás, esta sobre a forma dele é uma crítica que nem pode se considerada uma crítica. É quase um elogio. É uma análise que justifica o mau desempenho de um jogador em início de temporada.

Neymar teve apenas mais um episódio de menino mimado, que é colocado no centro do universo desde que tinha, sei lá, 12 ou 13 anos de idade, e que nunca lidou bem com o contraditório. Quantas mãos já passaram e seguem sendo passadas nessa cabeça? Neymar é uma figura controversa pela atitude em campo e pelo que fala e faz fora dele.

Jogando bola, não vejo polêmica alguma. É um craque. Na minha opinião, um gênio. É, sim, um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. Mas, como homem, é muitas vezes um boboca. Ou pelo menos alguém com atitudes bobocas. Reclamar da maneira vaga e generalista, sem saber nem explicar do que reclama, como fez depois do jogo, foi apenas mais uma para a lista. Me ajude a te ajudar, Neymar!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL