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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Cretinice de Luiz Adriano é a cara de um país sem informação nem rumo

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

08/04/2021 16h40

Sabem o que mais me espanta no "caso Luiz Adriano"? O cidadão testa positivo para Covid e entra em um carro com a mãe. Como pode? O cara quer matar a própria mãe?

Talvez ela esteja vacinada? Pode ser. Mas a vacina, qualquer que seja, diminui pela metade (não elimina) a chance de ser infectado pelo vírus. O que sim, faz a vacina, em quase 100% dos casos, é impedir que, caso infectado, você morra de Covid. Então se a mãe de Luiz Adriano tomou vacina (e não sabemos disso), ela tinha mais ou menos 50% de chances de ser infectada pelo filho. E, com tudo isso de informação em mãos, ainda sabemos que ela foi ao supermercado.

Será que Luiz Adriano sabe de tudo isso? Deveria. Trabalha em um clube de futebol que deve tê-lo informado (assim esperamos). Tem acesso a médicos de várias áreas e meios de comunicação. Se ele sabe, podemos chamar de criminoso? Soa exagerado. Mas é o que é. Uma pessoa que sabe que tem uma doença mortal e sai na rua, colocando os outros em risco, é um criminoso.

Será que Luiz Adriano não sabia de nada disso? Pode ser. Afinal, muitos jogadores de futebol são verdadeiros alienados. Vivem em um mundo à parte, em suas bolhas. Se ele não sabia que poderia matar a mãe e outras pessoas no supermercado ou o ciclista que atropelou ou as pessoas que estavam em volta ajudando, é um grande ignorante.

Criminoso ou ignorante. Difícil Luiz Adriano escapar de uma destas definições.

Dito isso, é necessário observar que a maioria esmagadora das pessoas não sabe muito sobre o Covid. E isso é inadmissível, um ano após o início da pandemia. Já se sabe muito. Mas parece que só no Brasil que não se sabe nada.

Não há campanhas, não há protocolos, não há informação disseminada.

O máximo que temos é uma instrução para lavar bem as mãos, usar álcool em gel, usar máscaras e evitar aglomerações. As últimas duas aqui foram boicotadas pelo presidente da República ao longo de todo este tempo. O discurso só mudou agora, em março. O que já gera bastante confusão.

Mas vai muito além disso. Porque estados, municípios, empresas do setor da saúde e mesmo meios de comunicação poderiam estar fazendo um serviço bem melhor que o governo federal.

O que devemos fazer se tivermos uma febre ou um resfriado ou algum sintoma de "algo estranho"? Por quanto tempo devemos nos isolar? E as pessoas que tiveram contato conosco? E se uma pessoa testar positivo e não tiver sintomas, o que deve fazer? Que tipo de máscara funciona ou não funciona? Qual a diferença entre elas? Como o vírus realmente é espalhado? Precisa limpar embalagens com álcool? Qual a diferença de encontrar familiares em espaço aberto ou dentro de casa?

Enquanto eu escrevo as perguntas, penso nas respostas. Nas respostas que EU DARIA. Seguramente cada leitor ou leitora tem respostas diferentes para as perguntas. Assim como nosso futebol tem um protocolo diferente da NBA, por exemplo.

Somos uma sociedade sem respostas, em que cada um faz o que quer. E é até natural que tenha acontecido assim, pois o governo que centraliza as ações de combate a pandemia resolveu caminhar para o lado oposto do mundo inteiro. Aí o presidente fala uma coisa, o ministro da saúde da vez fala outra, um governador fala outra, outro fala outra, um prefeito fala outra, o âncora do rádio fala outra, o âncora da TV outra... e assim vamos.

Não há informação. Não há protocolos.

Me recuso a acreditar que as pessoas queiram matar umas às outras. É óbvio que ninguém quer matar um familiar e nem outra pessoa dentro de um trem. Mas estão matando. Se você considera o "ter que levar comida para a mesa" um argumento forte o suficiente para matar o outro, então precisamos repensar alguns conceitos sobre "saques a supermercados", por exemplo. Afinal, se a fome justifica tudo...

Como eu disse, ninguém quer matar ninguém. Tenho certeza absoluta de que se estivéssemos sendo massacrados com informações corretas e não contraditórias, todos respeitariam. Mas o que ocorre aqui é o contrário, no meio de uma briga política inexplicável e que se aproveita de um individualismo que, sim, marca nossa sociedade. É fácil insuflar o "cada um por si" por aqui, porque já tendemos a viver em uma espécie de "cada um por si" independente da pandemia.

Gabigol e Luiz Adriano são péssimos exemplos (em níveis diferentes, claro, já que o que o palmeirense fez é muito mais grave). Mas e a manicure que estava dando umas tossidas e se sentindo indisposta e, no dia seguinte de se sentir bem, já está trabalhando? E o operário que tem um amigo internado com Covid e que havia encontrado esse amigo dois dias atrás, mas mesmo assim entra no ônibus e vai para o trabalho no dia seguinte? E o grande empresário que não faz nada para proteger seus empregados?

Quando o Flamengo permite a Gabigol chegar da aglomeração do cassino clandestino e logo treinar, que mensagem ele está passando para a manicure, o operário e o empresário?

Quando Luiz Adriano faz o que faz e não é duramente multado (não pelo Palmeiras, mas pela prefeitura) ou talvez até preso em algum lugar para ficar isolado sem colocar outros em risco, que mensagem o poder público passa para a manicure, o operário e o empresário?

Quando o Corinthians demite um médico que queria que os jogadores que apresentassem sintomas esperassem mais dias antes de voltar aos treinos, que mensagem está passando para a sociedade?

Quando alguns péssimos médicos insistem com a falácia do tratamento precoce e destas porcarias destes remédios que não curam nem previnem Covid, que tipo de punição recebem?

Aliás, eu conheço vários (não um ou dois, mas vários) casos de pessoas que procuraram postos de saúde e foram mandados para casa sem instruções específicas e que foram até autorizados a trabalhar. Um caso que eu conheço, e estamos falando de atendimento privado: cidadão deu negativo no PCR, mas tinha todos os sintomas de Covid. Como sabemos, falsos negativos são frequentes. Diagnóstico: "você deve estar com algum problema neurológico". Instrução para não sair de casa? Nada. Para quê?

Quando governos e prefeituras decretam lockdowns de mentira, em que uma série de atividades não-essenciais são consideradas essenciais e sem que haja qualquer tipo de fiscalização para que só estejam nas ruas os trabalhadores que podem estar nas ruas, como podemos achar que eles estão mesmo preocupados em nos proteger?

A ordem da fila de vacinação respeita lobbies corporativos e não o interesse coletivo. Agora queremos que empresas também furem a fila e comprem vacinas. Não temos insumos. Temos a maior rede de vacinação do mundo e não nos aproveitamos disso quando mais precisávamos.

Em suma, está tudo errado. As vacinas não irão nos salvar. A desinformação e a falta de protocolos reinam. Estamos largados e nos matando. Enquanto o planeta inteiro consegue dar, mais ou menos rapidamente, passos em direção à retomada, nós estamos perpetuando a pandemia. Daqui a pouco receberemos nosso maior castigo: seremos completamente proibidos de sair da porcaria que criamos.

Luiz Adriano é apenas o rostinho famoso de nosso fracasso completo como sociedade. Uma sociedade em que o cara mata a mãe, a avó, o vizinho e é incapaz de perceber o que está fazendo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL