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Julio Gomes


Flamengo e Benfica são gigantes. Por que o espanto se Jesus decidir voltar?

Allan Carvalho/AGIF
Imagem: Allan Carvalho/AGIF
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

08/07/2020 04h00

Jorge Jesus ainda não decidiu se vai ou não vai voltar ao Benfica. Ou melhor, talvez já tenha decidido, só ele sabe. Mas não publicamente.

Em Portugal, a volta é dada como certa por muitos meios de comunicação, ainda que haja alguma cautela por parte de outros. No Brasil, especialmente no Rio, a "informação" é que Jesus não sai. Só saberemos nos próximos dias.

O que me espanta, no entanto, é o espanto. O espanto de quem não consegue passar perto de entender a eventual decisão de deixar o Flamengo para voltar ao Benfica. O Flamengo é maior, dizem. O Flamengo tem mais time. O Flamengo tem mais torcida. O Flamengo tem mais tudo.

Ou não conhecem o Benfica ou não conhecem os números.

Não perderei muito tempo com a história do Benfica. É claro que o clube ocupa, hoje, um segundo escalão europeu. Mas não é a ausência de títulos ou finais europeias que "provam" isso. O Monaco estava outro dia aí em uma semifinal de Champions League e não faz parte nem do segundo escalão.

Aliás, o Flamengo ficou quase quatro décadas dando vexame na Libertadores. Então não era primeiro escalão do continente?

Precisamos tomar cuidado com esse olhar exclusivo para resultados. O Benfica está inserido na elite do futebol europeu, ou seja, mundial. Tem uma estratégia interessantíssima de compra e venda de jogadores e monta times para ganhar em casa e estar na Europa, não para ser top continental. É, há 20 anos, uma sociedade anônima, transparente, com gestão profissional. Está na capital de um dos países que crescem e apresentam mais potencial na Europa.

Só para esta temporada, teve um superávit com venda de jogadores de quase 160 milhões de euros, puxado pela venda de João Félix ao Atlético de Madrid. O Flamengo acaba de fazer, com as vendas de Vinícius Júnior, Paquetá, Reinier e Léo Duarte, quatro das maiores vendas de sua história. Somados, os quatro não chegaram ao valor de João Félix.

Segundo o Transfermarkt, a melhor referência para mercado da bola, o elenco do Benfica, tão ridicularizado por muitos nos últimos dias nas redes sociais, vale mais do que o dobro do elenco do Flamengo. No ano passado, o mais lucrativo da história do clube, o Flamengo teve superávit de pouco mais de 100 milhões de reais. É dinheiro de pinga no mercado europeu.

Aliás, o Benfica há anos joga para uma média de público superior a 50 mil torcedores (pagando em euros e sem comprar produtos piratas). O Flamengo tem uma média histórica de 30 mil pessoas, seja no Brasileiro, seja na Libertadores. No estratosférico ano de 2019, chegou aos 52 mil. Ou seja, em um dos maiores anos de sua história, conseguiu, afinal, empatar com o Benfica e sua média somente da Liga portuguesa. Se contar Champions, a média sobe.

Então qual a surpresa quando o Benfica oferece 7 milhões de euros anuais a Jorge Jesus, praticamente o dobro do que ele ganha no Flamengo?

Atenção, ele não estaria nem entre os 20 técnicos mais bem pagos da Europa. Gente como Guardiola, Klopp e Mourinho ganha mais do que o triplo disso.

Estamos falando de outra realidade financeira. Achar que o Flamengo, só porque, afinal, ajustou suas contas, está no mesmo nível dos primeiros escalões europeus é uma loucura. Aliás, um dia cairá a ficha para o Flamengo - talvez ainda seja cedo - e o clube, seus dirigentes e torcedores entenderão que serve para pouco ser o único rico em uma terra arrasada. O Flamengo precisa de meia dúzia de rivais ganhando e faturando como ele, precisa fazer o bolo crescer, em vez de querer comer sozinho os maiores e melhores pedaços.

Depois de toda essa numeralha, há ainda o aspecto pessoal. Quem não entende por que Jesus pode voltar, não entenderá também por que Romário, melhor do mundo, deixou o Barcelona para jogar no próprio Flamengo. Jorge Jesus não é mercenário. É português. Gosta de seu país, de estar perto dos amigos, das conversas, da vila, dos vizinhos. O cara não tem direito de querer estar em casa?

Esse fator pesa. O dinheiro pesa. E, claro, o desafio esportivo pesa. E esta é a peça que falta ao Benfica para convencê-lo de vez. Para Jesus, voltar ao Benfica passa por acreditar em um clube com mais ambição europeia. Ambição esta que, a meu ver, falta a Benfica e Porto.

O Flamengo é enorme. Mas está inserido em um futebol que importa muito menos do que o respirado pelo Benfica.

Julio Gomes