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Julio Gomes


Jogadores podem e devem ajudar, mas quem precisa financiar o caos é a CBF

Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

01/04/2020 11h23

O Ceará anunciou um acordo com os jogadores para reduzir em 25% a folha salarial durante o período de crise. Funcionários de salários mais baixos não terão vencimentos cortados. Na Europa, Messi liderou um movimento de redução de 70% nos vencimentos dos jogadores, para que funcionários do Barcelona não fossem afetados - o fez lançando dardos no peito de uma diretoria inoperante.

Outros clubes farão o mesmo ou algo parecido, no Brasil e na Europa.

No mês passado, quando a crise já explodia, começou a rodar na Internet uma frase de uma bióloga espanhola, dizendo: "Vocês dão um milhão de euros por mês para um jogador de futebol e 1800 para uma pesquisadora científica. Agora querem tratamento. Vocês podem pedir a cura para o Cristiano Ronaldo ou o Messi".

Eu não gostei quando li. Acho populista. É fácil apontar o dedo para jogadores de futebol e isso, na minha opinião, tem um pano de fundo mundial: o preconceito. Sim, o preconceito por vermos pessoas "despreparadas, que nunca estudaram", ganhando tanto dinheiro. Claro que o mesmo desdém não se dá quando falamos de artistas ou apresentadores de TV, por exemplo.

A pesquisadora talvez tenha apenas tido a intenção de "causar", chamar a atenção para um problema que é real. Governos investem de menos em algo que merecia muito mais investimento e atenção: a pesquisa. Aqui no Brasil, o governo atual cortou bolsas, não cansa de acusar as universidades públicas de serem chupins do Estado e patrocina o desmonte completo da pesquisa. Estamos vendo como na Espanha e na Itália, países que vivem no meio de confusões eleitorais e que funcionavam no piloto automático do bem estar europeu, sofrem mais do que outros no meio da pandemia do coronavírus. Faltam estrutura e conhecimento.

Sim, é preciso investir mais em pesquisa e ciência. O que não quer dizer que jogadores de futebol ganhem muito. É misturar laranja com abacaxi.

Dito tudo isso, os jogadores de futebol, os poucos que ganham realmente MUITO, devem, sim, tomar a linha de frente na escada da solidariedade e abrir mão de boa parte de seus vencimentos. Devem fazer o mesmo grandes empresários, industriais, executivos e banqueiros. Como disse alguém em uma coluna recente na Folha, "o que 1 bilhão compra que 500 milhões não podem comprar?".

É um momento do mundo em que os multimilionários devem tomar à frente. Palmas para Messi. Uma pena que não vejo os grandes executivos de empresas brasileiras e estrangeiras fazendo o mesmo. Abrindo mão de parte de seus dividendos de 200, 300, 400 paus por mês. Se fizerem, baterei palmas também.

Voltando ao futebol, precisamos nos lembrar que a grande massa de jogadores, especialmente aqui no Brasil, ganha salários ridículos, de dar pena. Aliás, a imensa maioria ficaria desempregada em duas ou três semanas, com o fim dos estaduais. Mais um aliás: isso sem falar nos tantos que, na real, nem salário recebem, porque os clubes não pagam.

Então é muito fácil convencer as pessoas de que jogadores devem reduzir seus salários. É um discurso que pega. Mas lembremos que, o fazendo, eles estarão ajudando clubes mal administrados e que deveriam cuidar melhor do dinheiro. São os jogadores que precisam salvar os clubes? São mesmo os jogadores que precisam cortar na carne?

Quem tem que salvar os clubes, os salários dos jogadores e o futebol brasileiro como um todo é uma instituição podre de rica chamada Confederação Brasileira de Futebol.

A CBF tem orçamento na escala de grandes clubes europeus, mas sem gastar com salários de jogadores, por exemplo. Em 2019, o balanço oficial mostrou receita acima de quase UM BILHÃO de reais, superávit de quase 200 milhões. O ativo total da CBF ao final de 2019 foi de R$ 1,248 bilhão, segundo o site da própria entidade.

Sobra dinheiro. Dinheiro acumulado essencialmente com uma instituição que insistem em chamar de privada, a seleção brasileira de futebol. Mas que não é (ou não deveria ser) privada porcaria nenhuma.

É um dinheiro que deveria ser gasto no fomento do esporte no Brasil, etc, etc, etc. Não é. E nem é hora de debater isso. É hora de a CBF lançar um Proer dos clubes. Garantir o pagamento de funcionários e de jogadores, garantir as folhas, garantir que os clubes de futebol no Brasil continuem existindo pelos próximos dois, três, seis meses. Daria até para aproveitar e exigir metas e compliance. Salva hoje, desde que todos cumpram certas regrinhas de boa gestão. Mas salva.

Todos precisamos ajudar, todos precisam fazer a própria parte. Mas a escada da solidariedade precisa começar lá de cima. Exigimos demais dos que estão lá embaixo, de menos de quem está no topo, sentado no dinheiro acumulado ao longo de tantos anos.

Julio Gomes