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Julio Gomes


As autoridades e dirigentes esportivos estão brincando com nossa sociedade

Coronavírus: Campeonato Paulista terá jogos com portões fechados na capital - GettyImages
Coronavírus: Campeonato Paulista terá jogos com portões fechados na capital Imagem: GettyImages
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

13/03/2020 15h39

Qual o sentido do jogo entre Portuguesa e Rio Claro, pela segunda divisão do Paulista, ser disputado com portões fechados, e as partidas entre Inter de Limeira e Palmeiras e Guarani e Ponte Preta com portões abertos?

As autoridades brasileiras, como já sabemos, estão mais preocupadas em ficar no Twitter do que em governar. Tanto é assim que a Conmebol, que inicialmente havia jogado o abacaxi para os países, teve de agir e resolveu adiar a Copa Libertadores ao perceber que nove países sul-americanos já haviam proibido eventos e aglomerações. Mas faltava o Brasil...

Os dirigentes esportivos seguem na mesma toada, brincando com fogo, brincando com a população, brincando com a sociedade.

Este blog ficou sabendo que na semana passada o presidente da CBF, Rogério Caboclo, estava indignado com a possibilidade de cancelamento do jogo entre Brasil e Bolívia, que abriria as eliminatórias. Deve viver em outro mundo. O mundo dos negócios e interesses, possivelmente - por interesses, não entendam interesses públicos, mas sim privados.

A Uefa demorou, os ingleses demoraram, mas finalmente entenderam que não dá para colocar acordos comerciais com TVs e patrocinadores acima da saúde pública.

Calendários se ajeitam, tudo se ajeita. Menos a morte. É uma temeridade absurda, é a contramão do mundo, manter eventos esportivos aqui no Brasil.

E ainda mais com esse critério bisonho de fechar portões apenas na Capital aqui em São Paulo.

O Canindé está a 20 minutos de Guarulhos. Se a Portuguesa transferisse seu jogo para Guarulhos, então os torcedores poderiam ir? Garanto que os mesmos mil que iriam a um, iriam a outro. A Arena Corinthians também está pertinho de Guarulhos - mas em Itaquera, portões fechados..

E o jogo entre Oeste x Botafogo, em Barueri, por que não será com portões fechados? A Arena Barueri está a 30km do Morumbi, onde o São Paulo x Santos será sem público. Se o clássico fosse em Barueri, tudo bem botar gente?

É tudo bem o estádio de Limeira cheio para Inter e Palmeiras? É tudo bem o Brinco cheio para o dérbi de Campinas?

É uma piada.

Critico jogos com portões fechados desde o início, pois matam a alma do esporte e geram prejuízo esportivo. Mas, neste momento, nem isso poderia acontecer. Os Estaduais precisam parar, o futebol no Brasil precisa parar, assim como parou no mundo inteiro. Jogadores estão passando o vírus uns para os outros.

Se extrapolarmos para outros esportes, veremos que uma prova de triatlo marcada para este fim de semana em Santos está mantida, e a maratona de São Paulo é a única não adiada no mundo.

O Brasil tem a sorte de ser um dos últimos destinos do coronavírus. Estamos no verão, o que nos ajuda, e já temos os dados dos quatro países em que a coisa explodiu: China, Coreia, Irã e Itália. Já sabemos o que uns fizeram bem (conter, isolar, não deixar o número de casos explodir) e o que outros fizeram mal (minimizar, fechar os olhos, não proibir circulação).

Quando o Brasil vai virar um país sério?

Julio Gomes