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Com doença rara, estrela do basquete tem de escolher entre salário e risco

Elena Delle Donne, atleta da WNBA, tem a doença de Lyma - G Fiume/Getty Images
Elena Delle Donne, atleta da WNBA, tem a doença de Lyma Imagem: G Fiume/Getty Images

Beatriz Cesarini

Do UOL, em São Paulo

17/07/2020 04h00Atualizada em 17/07/2020 08h34

Atual MVP (jogadora mais valiosa) da WNBA, Elena Delle Donne vive em uma encruzilhada. A estrela do Washington Mystics sofre com a doença de Lyme e pediu dispensa da temporada 2020 por causa da pandemia causada pelo novo coronavírus. Apesar disso, o corpo médico da maior liga de basquete do mundo negou a solicitação e Donne terá que escolher entre ficar sem salário ou colocar a saúde em risco.

De acordo com o médico infectologista Guilherme Spaziani, Lyme é uma infecção causada pela picada de carrapato e essa transmissão é mais comum nos Estados Unidos e na Europa. Em casos raros, a doença pode afetar órgãos como o coração, baço, fígado e o sistema nervoso.

"Se não for diagnosticada e tratada, em mais da metade dos casos, ela se torna crônica e afeta articulações que ficam inchadas e dolorosas e podendo durar anos. A doença é tratada na sua fase inicial ou aguda com antibióticos geralmente em forma de comprimidos. Na forma crônica os pacientes, às vezes, precisam utilizar analgésicos e anti-inflamatórios por muito tempo", explicou Spanziani, que é médico do Instituto de infectologia Emílio Ribas.

Para se tratar da doença que ficou ativa em seu corpo, Elena Delle Donne toma 64 comprimidos por dia há pouco mais de 10 anos. Segundo a atleta, essa é a única maneira de manter suas condições de saúde sob controle, já que ela convive com a patologia. Apesar disso, essa quantidade de remédios e, principalmente, a comorbidade afetam o sistema imunológico da jogadora.

"Me disseram várias vezes ao longo dos anos que minha condição deixa meu sistema imunológico comprometido. Eu tive um resfriado comum que levou o meu sistema imunológico a uma recaída séria. Recaí com uma simples vacina contra a gripe. Existem muitos casos em que contraí algo que não deveria ser tão grave, mas isso explodiu com a minha saúde e se transformou em algo assustador", explicou Elena em relato à revista "The Players Tribune".

A temporada de 2020 da WNBA será realizada em uma espécie de 'bolha' na qual apenas os envolvidos nos jogos poderão entrar. Apesar disso, os médicos que tratam Elena consideraram que esse não seria um ambiente seguro para ela e por isso solicitaram a dispensa.

Um comitê de profissionais de saúde da WNBA negou a licença e alegaram que a doença de Lyme não está inclusa na lista de doenças que a colocam no grupo de risco da Covid-19. Agora tudo está nas mãos de Elena.

A jogadora ainda não foi para a Flórida, onde a delegação do Mystic e o restante dos times da WNBA estão. Se decidir não jogar por causa de sua doença, ela ficará sem salário, porque está sem liberação médica.

"Agora me restam duas opções: posso arriscar minha vida ou perder meu salário. Honestamente? Isso machuca. Machuca muito. E talvez ser machucado me torne ingênua. E sei que, como atletas, não devemos falar sobre nossos sentimentos. Mas os sentimentos são praticamente tudo o que me resta agora. Eu não tenho dinheiro como os jogadores da NBA. Não tenho o desejo de entrar em guerra com a liga. E eu não posso apelar", declarou Elena.

Elena é considerada a maior estrela da WNBA. Além de ser a atual MVP, ela já conquistou esse título em 2015. A atleta também foi rookie do ano na temporada 2013-14, melhor marcadora em 2015, seis vezes WNBA All Star e ajudou o Washington Mystics a alcançar o troféu de campeãs da última temporada.

"O que ouvi na decisão deles é que eu sou uma tola por acreditar no meu médico. Que estou fingindo uma deficiência. Estou tentando deixar o trabalho e ainda receber um salário. (...) Acho que depois de tudo o que passamos neste ano, o melhor a fazer é ouvir um ao outro e aprender um com o outro - com o máximo de humildade possível. Espero que no futuro a WNBA possa aspirar a fazer o mesmo", afirmou a atleta.

Washington Mystics manterá Elena no elenco

As regras da WNBA para essa temporada preveem que as atletas que forem liberadas pelo corpo médico da entidade não jogam, mas continuam a ter salário. Porém as que escolherem deixar a liga neste ano sem autorização não recebem salário, porque é visto como um 'tempo do trabalho'.

Apesar disso, o técnico do Washington Mystics, Mike Thibault, declarou que se Elena optar por não jogar, o clube manterá o nome dela no elenco para que a atleta continue a receber.

Com isso, o Washington Mystics deixaria de contratar uma jogar para o lugar de Elena.

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