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Da vigília ao altar: como Janja ganhou destaque na campanha de Lula

Juliana Arreguy e Lucas Borges Teixeira

Do UOL, em São Paulo

14/05/2022 04h00

Rosângela da Silva, 55, pega o microfone e com desenvoltura assume o centro do palco no lançamento da pré-candidatura do ex-presidente Lula (PT) ao Planalto no último sábado (7). "Vou pedir licença para virar um pouquinho para ele e para chamá-lo de 'amor', porque é assim que a gente fala", disse a socióloga, com segurança, antes de anunciar o vídeo da campanha — um presente dela para Lula.

Formada em Sociologia pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) e filiada ao PT desde o início dos anos 1980, Janja, como é conhecida, é amiga de Lula há anos. Os dois iniciaram o relacionamento ao fim de 2017, mas só o tornaram público em 2019, quando o petista estava preso em Curitiba.

A socióloga foi uma das pessoas mais presentes na vigília em frente à Polícia Federal da capital paranaense. Ajudou a coordená-la e era uma das poucas autorizadas a visitar Lula. Hoje, é figura central da campanha. Os dois irão se casar na próxima quarta (18). A reportagem tentou contato com Janja por meio da assessoria do PT, mas não obteve retorno.

No vídeo apresentado no sábado, uma regravação do jingle "Sem Medo de Ser Feliz", da campanha de 1989, Janja canta entre artistas de diferentes gerações, como Francis Hime, Chico César, Duda Beat e Flor Gil. "Eu e o [fotógrafo Ricardo] Stuckert vamos compartilhar com vocês o meu presente de casamento. Te amo", disse, sob aplausos dos 4 mil presentes.

Nos eventos seguintes, como na viagem a Minas Gerais na última semana, também é ela a empunhar o microfone enquanto o jingle toca, sempre antes da fala de Lula. Proativa e participativa, Janja é um dos rostos mais presentes nos atos.

janja - Nelson Almeida/AFP - Nelson Almeida/AFP
7.mai.2022 - Janja esteve no palanque de Lula durante o lançamento da pré-candidatura do petista ao Palácio do Planalto
Imagem: Nelson Almeida/AFP

"Na vigília, enquanto uma das organizadoras, ela já cantava junto com o pessoal da cultura. Sempre gostou de estar entre as pessoas", relata Neudicléia Oliveira, do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens).

Neudicléia, a Neudi, conheceu Janja em 2018 na própria vigília. "Ela era muito solidária, ficava muito preocupada se a coordenação e as pessoas tinham comida, onde estavam alojadas", conta. Unidas pela militância e pela preocupação com as pautas sociais, as duas se tornaram amigas.

De longa data

Nascida no interior do Paraná e petista desde 1983, o envolvimento de Janja com movimentos sociais e de esquerda vem de outros carnavais. Socióloga de formação, sempre trabalhou no setor de energia, em áreas de responsabilidade social.

O currículo inclui passagens pela Baesa (Usina Hidrelétrica Barra Grande), no Rio Grande do Sul, e pela Itaipu Binacional, no Paraná —onde começou em 2003, quando Lula era presidente. Foi cedida à Eletrobrás, no Rio de Janeiro, para atuar na área de sustentabilidade entre 2012 e 2017.

Na Itaipu, onde passou a maior parte da carreira, desenvolveu ações de voluntariado empresarial e de equidade de gênero. As amigas de Janja afirmam que ela é feminista e militante pelos direitos das mulheres.

Ela tem um processo histórico de trabalho social. Ela gosta de empoderar outras mulheres e trazer essas outras mulheres para dentro do próprio debate político."
Neudicléia Oliveira

"É uma mulher feminista e empoderada", diz Karina Marx Macêdo, mulher do deputado federal Marcio Macêdo (PT-SE).

Karina e Janja se conheceram em dezembro de 2017, na inauguração de um campo de futebol do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) em Guararema, na Grande São Paulo. Lula e outras personalidades, como o cantor Chico Buarque, jogaram bola no gramado batizado em homenagem ao ex-jogador Sócrates.

Na época da partida, meses após Lula ficar viúvo, ele e Janja já viviam um romance —desconhecido, ainda, até para amigos próximos do casal.

"Eu a conheci como militante, não como namorada do Lula", recorda Karina. A boa relação de Lula com Marcio Macêdo, que já foi vice-presidente nacional do PT, as aproximou nos anos seguintes.

janja - CRISTIANE MATTOS/ESTADÃO CONTEÚDO - CRISTIANE MATTOS/ESTADÃO CONTEÚDO
Janja também acompanhou Lula durante evento "Lula abraça Minas", em Belo Horizonte (MG)
Imagem: CRISTIANE MATTOS/ESTADÃO CONTEÚDO

Karina afirma ter se encantado com o "papo politizado" de Janja e diz que a participação da socióloga na pré-campanha de Lula, hoje, é "algo natural".

"Isso é espontâneo dela, da forma como ela se insere nos espaços. Não acho que seja um movimento invasivo. Ela é participativa e sempre batalhou pela participação da mulher na política", observa.

Da liberdade à campanha

Das caravanas de 1989, onde conheceu Lula, até a vigília em Curitiba, Janja sempre teve atuação forte junto à militância do ex-presidente.

Não à toa, o aguardava na porta da PF, em novembro de 2019, depois de 580 dias de reclusão. Em frente ao local, recebeu um beijo de Lula — o primeiro em frente às câmeras — e ouviu ele declarar: "Eu consegui a proeza de, preso, arrumar uma namorada".

lula_janja - Reprodução - Reprodução
Lula beija Janja em discurso após sua saída da prisão em Curitiba
Imagem: Reprodução

Desde então, os dois moram juntos em São Paulo. O casal cuida da cachorrinha Resistência, adotada por Janja durante a vigília em Curitiba, e hoje mascote da campanha.

Considerada por pessoas próximas como uma pessoa bem articulada, Janja integra as reuniões sobre a pré-campanha de Lula. Assertiva, apresenta ideias e insere novas pautas sociais, incluindo temas em torno da sustentabilidade e do direito dos animais.

Nos eventos, Lula não tem deixado de citar a noiva, sempre de forma afirmativa e terna. "Nós não podemos ficar transmitindo ódio. É amor que a gente tem que dar, tem que ter de sobra neste país", afirmou, em Minas Gerais, dirigindo-se a ela.

Desde o início da relação, o casal opta pela discrição — exceção aberta para algumas declarações de amor em redes sociais e postagem de fotos de viagem.

Mesmo participativa, ela consegue ser uma pessoa muito discreta."
Karina Macêdo

Casamento discreto

O próprio casamento, marcado para a próxima quarta (18) em São Paulo, foi programado para ser o mais discreto possível. A reportagem apurou que a quantidade de convidados será de cem a 150 pessoas, entre políticos e artistas, mas que ninguém foi informado, ainda, sobre o local exato do evento.

Os convites foram impressos por QRCode e os convidados só devem receber mais detalhes a partir de terça (17), véspera da celebração. De acordo com o colunista Alberto Bombig, do UOL, o objetivo é que a cerimônia não vire um ato político e seja voltada apenas às pessoas mais próximas.

Com o consentimento da noiva, Universa, do UOL, conseguiu alguns detalhes sobre o vestido de Janja, assinado pela estilista Helô Rocha. Bombig afirmou que Lula e Janja planejam passar a noite anterior ao casamento separados. O petista dormirá em um hotel da zona sul de São Paulo e verá a companheira apenas no altar.

Karina Macêdo, que encontrou a noiva no lançamento da pré-candidatura de Lula, também na capital paulista, disse que Janja transpareceu muita tranquilidade em relação aos preparativos.

"Acho que nós estamos mais ansiosos do que ela", brinca. "De qualquer forma, nenhum de nós fala por ela. É melhor perguntar à própria Janja como ela está se sentindo", acrescenta.

Lula não fala sobre e muito menos em nome de Janja. Em entrevista à revista norte-americana "Time", quando questionado sobre a noiva, disse que "ela mesma poderia falar por si".