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Lula pede união e fala em 'defesa da soberania' ao lançar chapa com Alckmin

Herculano Barreto Filho, Lucas Borges Teixeira e Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

07/05/2022 11h10Atualizada em 07/05/2022 19h49

Bandeiras, filas enormes e gritos de apoio. O evento de lançamento da pré-candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Planalto começou em clima de festa. Entre militantes e deputados, o tom era de confiança na disputa pela Presidência da República. No ato, foi lançada a chapa com o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSB), pré-candidato a vice-presidente. Lula aparece na liderança das pesquisas de intenção de voto.

Em seu discurso, o ex-presidente adotou um tom mais moderado —mais ameno que o de Alckmin—, dizendo que o país precisa de calma. "Nós vamos vencer essa disputa pela democracia distribuindo sorriso, caminho, amor, paz e criando harmonia."

Lula fez elogios a Alckmin, falando que o prato lula com chuchu será o "da moda". Chuchu é um apelido dado ao ex-governador, antigo adversário de Lula. "Somos de partidos diferentes, fomos adversários. Estou feliz por tê-lo na condição de aliado", disse.

O petista citou a sintonia entre seu discurso e o de Alckmin, dizendo que "estão pensando muito parecido". Ele não citou o nome do presidente Jair Bolsonaro (PL), mas fez críticas à atual gestão, citando inflação, desemprego e cortes na educação, entre outros temas.

Lula pediu união dos "democratas de todas as origens" para vencer a "ameaça totalitária". "É preciso unir os divergentes para poder enfrentar os antagônicos."

O grave momento que o país atravessa, um dos mais graves da nossa história, nos obriga a superar eventuais divergências para construirmos juntos uma via alternativa à incompetência e ao autoritarismo que nos governam."
Lula (PT), ex-presidente da República

"Até dia 2 de outubro, se Deus quiser", disse o petista ao final de seu pronunciamento, indicando que vai "percorrer o país".

Legado e soberania

Ao começar sua fala, o ex-presidente disse que, "em vez de promessas", apresentaria "o imenso legado de nossos governos", citando programas como Minha Casa, Minha Vida, Luz Para Todos, Bolsa Família, entre outros. Lula também fez uma aposta na "defesa da soberania" em diversas ocasiões ao longo do discurso.

"É mais do que urgente restaurar a soberania. Mas isso não se resume à importantíssima missão de resguardar nossas fronteiras. É também defender nossas riquezas minerais, nossas florestas, nossos rios, nossos mares, nossa biodiversidade", disse. Na opinião do ex-presidente, "nossa soberania e democracia são constantemente atacadas pela política irresponsável e criminosa do atual governo".

Também ao falar de soberania, citou a Eletrobras e Petrobras —esta última, empresa que, segundo investigações, foi afetada por esquemas de corrupção durante os governos do PT, investigados pela Operação Lava Jato.

"Nós precisamos fazer com que a Petrobras volte a ser uma grande empresa nacional, uma das maiores do mundo", disse, falando que ela deve ficar "a serviço do povo brasileiro", e não dos acionistas.

Ele também fez acenos aos indígenas, aos negros, às mulheres e à população LGBTQIA+ —grupos em que tem mais apoio do que Bolsonaro. "Nunca um governo como este que aí está estimulou tanto o preconceito, a discriminação e a violência."

O pronunciamento do petista foi feito em frente a uma bandeira do Brasil, que, nos últimos anos, ficou associada ao bolsonarismo e à direita. O PT fez uma aposta no verde e amarelo no evento de lançamento da pré-candidatura.

Ao contrário do que geralmente acontece em seus pronunciamentos públicos, Lula leu praticamente todo o discurso, com improvisos no final e ao fazer a referência a chuchu.

Nas últimas semanas, o ex-presidente tem feito declarações que geram polêmicas, como a em que considerou o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tão culpado quanto o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pela invasão russa ao território ucraniano. Conforme o UOL mostrou, aliados sugeriram ajustes no discurso do petista, para evitar gafes e cancelamento nas redes sociais, que podem afastar possíveis eleitores.

Constituição

Lula ainda fez a defesa da Constituição brasileira em seu discurso. "Não somos a terra do faroeste, onde cada um impõe a sua própria lei", disse.

Temos a lei maior --a Constituição--, que rege a nossa existência coletiva. E ninguém, absolutamente ninguém, está acima dela, ninguém tem o direito de ignorá-la ou de afrontá-la."
Lula (PT), ex-presidente da República

Para o ex-presidente, "a normalidade democrática está consagrada na Constituição". "É ela que estabelece os direitos e obrigações de cada poder, de cada instituição, de cada um de nós."

O evento, que aconteceu no Expo Center Norte, na zona norte de São Paulo, marcou também a formalização da aliança das federações PT-PCdoB-PV e PSOL-Rede com os partidos PSB e Solidariedade, criando a frente Vamos Juntos Pelo Brasil, a maior formação em torno do ex-presidente desde 1994.

lula - Herculano Barreto Filho/UOL - Herculano Barreto Filho/UOL
Com uma bandeira do Brasil ao fundo, Lula discursou no evento de lançamento de sua pré-candidatura ao Planalto
Imagem: Herculano Barreto Filho/UOL

O objetivo do PT, neste evento, era formar uma espécie de "Novas Diretas", com figurões de diferentes estados e diversos partidos no mesmo palanque "unidos pela democracia". O partido queria evidenciar, ao mesmo tempo, as forças política e popular do ex-presidente.

Assim que acabou de discursar, Lula deu as mãos a aliados para cumprimentar o público. Nesse momento, duas mulheres invadiram o palco e tiraram fotos com o ex-presidente.

Defesa da chapa

Com covid-19, Alckmin não esteve presente no local, mas participou por meio de vídeo. Em discurso, ele defendeu sua parceria com Lula, de quem era adversário, citando que o governo atual, de Jair Bolsonaro, é o mais "desastroso e cruel" da história do Brasil. Alckmin disse que será um "parceiro leal" de Lula.

"Sem Lula, não haverá alternância de poder. E sem alternância, não haverá garantias para a nossa democracia. Lula é a única via da esperança para o Brasil. O futuro do Brasil também está em jogo", disse o ex-governador.

Jingle renovado

O evento também ressuscitou o jingle "Sem Medo de Ser Feliz", da campanha presidencial de 1989, e mais marcante peça de suas candidaturas. Apresentada como surpresa pela noiva do ex-presidente, Janja, a música ganhou nova gravação, com Martinho da Vila, Pabllo Vittar, Zélia Duncan, Chico César e outros.

Entre os artistas, estavam presentes no evento a sambista Teresa Cristina, que cantou o hino, a cantora Lia de Itamaracá, a apresentadora Bela Gil e o roqueiro Paulo Miklos, ex-Titãs.

"Sentimento positivo"

A fila para entrar no centro de eventos quase virava a esquina por volta das 10h —horário marcado para o início do ato.

Diferentemente do clima abatido de 2018, quando o ex-presidente foi preso, os petistas falam em esperança. "Neste ano vai ser tudo diferente, estamos com sentimento muito positivo, de esperança. Vai dar certo", diz a deputada estadual Professora Bebel (PT-SP).

A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) também esteve no ato. Quando subiu ao palco, os presentes levantaram das cadeiras e aplaudiram enquanto os militantes gritavam "Dilma, guerreira da pátria brasileira".

No fim do discurso, Lula se dirigiu a Dilma, que estava na lateral do palco. "Que bom que você está aqui. Você não vai ser minha ministra, mas vai ser a minha companheira de todas as horas." Segundo o ex-presidente, Dilma não caberia em um ministério porque ela tem a grandeza de ter sido a primeira mulher a presidir o país, sendo ovacionada em seguida.

O anúncio dos ex-prefeitos paulistanos Fernando Haddad (PT) e Luiza Erundina (PSOL) —atual deputada federal— também causou fortes aplausos do público. Haddad e o pré-candidato ao governo de São Paulo Márcio França (PSB) ficaram em lados opostos no palco. Quando o nome de França foi anunciado, um grupo menor, ao fundo, gritou "Retira! Retira [a pré-candidatura ao governo]!".

O palco concentrava todo o alto escalão do PT e dos partidos da aliança progressista —além de Dilma, Haddad, Erundina e França, estavam os governadores Rui Costa (PT-BA), Paulo Câmara (PSB-PE) e Fátima Bezerra (PT-RN) e os ex-governadores Flávio Dino (PSB-MA), Jaques Wagner (PT-BA) e Wellington Dias (PT-PI).

Na mesma estrutura, também foram chamados dois ex-BBBs que já declararam apoio público a Lula: Gleici Damasceno e Arthur Picoli. João Pedrosa também estava nos bastidores. Segundo a campanha, os convites são parte da estratégia de aproximar a candidatura de um público mais jovem, por meio das redes socais.

O PT esperava reunir 4 mil pessoas estiveram no local. Militantes de todo o país foram convocados e parte teve de ser barrada por falta de espaço.

Estrada até o evento

Deitado em cima de uma toalha estendida no chão, o professor de Geografia Iago Reis, 30, fazia a própria mochila de travesseiro para descansar enquanto aguardava pelo ato de anúncio da pré-candidatura da chapa Lula-Alckmin hoje de manhã no Expo Center Norte, em São Paulo. Ele integra uma delegação do diretório do PT do Rio de Janeiro, que encarou oito horas de estrada até chegar na capital paulista por volta das 6h.

sono - Lucas Borges Teixeira/UOL - Lucas Borges Teixeira/UOL
O professor de Geografia Iago Reis, 30, dormiu no chão enquanto aguardava pelo ato de anúncio da pré-candidatura da chapa Lula-Alckmin
Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL

"Vim porque é um momento importante para o país. O Lula representa a esperança para um povo que está desempregado e que passa fome", disse, após ser despertado pela reportagem do UOL para contar a sua história. "Falei para um amigo me acordar assim que começar o evento."

ademário - Suamy Beydoun/Estadão Conteúdo - Suamy Beydoun/Estadão Conteúdo
Ademário Nogueira, de 58 anos, veio de Brasília para o lançamento da pré-candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Planalto, no Expo Center Norte, em São Paulo
Imagem: Suamy Beydoun/Estadão Conteúdo

O servidor público Ademário Nogueira, 58, erguia um quadro exibindo o rosto do ex-presidente Lula. Ele veio de Brasília com uma comitiva formada por três ônibus com cerca de 120 integrantes de movimentos sociais, em uma viagem que durou 18 horas. "Esse quadro simboliza a devoção que tenho pelo Lula e pelo que ele fez pelo povo brasileiro".