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Nova colunista de Ecoa leva literatura indígena a milhares de seguidores

A acadêmica e escritora indígena Julie Dorrico, nova colunista de Ecoa - Julie Dorrico/Acervo Pessoal
A acadêmica e escritora indígena Julie Dorrico, nova colunista de Ecoa Imagem: Julie Dorrico/Acervo Pessoal

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

09/03/2021 15h40

A escritora e acadêmica Julie Dorrico, 30, tinha dificuldade em encontrar obras escritas por indígenas, especialmente mulheres, enquanto desenvolvia sua tese de mestrado. Por quatro anos, ela decidiu fazer este trabalho por si só. Pesquisou, entrevistou, escreveu e divulgou sobre escritores e educação indígena nas redes sociais.

Assim se tornou criadora e uma das administradoras da página "Leia mulheres indígenas" no Instagram, onde tem cerca de 10 mil seguidores.

Nesta quarta (10), Dorrico também estreia uma coluna em Ecoa. "Estou muito empenhada em falar sobre educação e culturas indígenas e mostrar iniciativas pelo Brasil neste sentido", diz. "São formas de fortalecimento de culturas que são correlatas às lutas diárias dos povos indígena no país".

Coluna no maior portal do país e ativismo nas redes. Falar das duas iniciativas, somadas, ainda não dá conta de tudo o que ela fez nos últimos anos pelo conhecimento indígena.

Educação libertadora

Com a coluna, Dorrico pretende desmistificar estereótipos, aproximar e mostrar como a influência cultural e os indígenas estão presentes. O ponto de partida são iniciativas de ensino indígena a partir da educação. Seja para inclusão dos povos da floresta no currículo convencional, seja por atividades extracurriculares e aulas originais das aldeias e territórios indígenas.

Dorrico está prestes a se tornar doutora em Letras e defenderá sua tese na próxima segunda (15), na PUC do Rio Grande do Sul. Seu estudo trata da sobre a obra do líder yanomami Davi Kopenawa, "a autoria individual e a poética do eu-nós". A graduação e o mestrado foram na Universidade Federal de Rondônia, estado onde Julie nasceu.

Mais especificamente, Julie é de Guajará-Mirim (RO), município com cerca de 40 mil moradores e a 328 quilômetros da capital Porto Velho. Aos nove anos, se mudou para Roraima para morar com a bisavó na cidade de Bonfim, na fronteira com a Guiana.

Bisavó - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
O avô de Julie, que está na casa dos 80 anos, e sua bisavó macuxi que morreu com mais de 100
Imagem: Acervo Pessoal

Somente quando Dorrico tinha 26 anos, sua mãe revelou que a bisavó pertencia ao povo Macuxi. Centenária, ela costumava cantar músicas ancestrais que precisavam de tradução para o português, mas Dorrico precisou de duas décadas para se compreender como indígena.

Filhos de Macunaíma

A cosmogonia afirma que os Macuxi são descendentes do herói mítico Macunaíma (interpretado à maneira própria por Mário de Andrade e bem diferente da narrativa oral indígena). Hoje, os Macuxi se concentram na Terra Indígena Raposa da Serra do Sol, em Roraima.

A dedicação de Dorrico a unir e propagar sua ancestralidade virou livro. Ela é organizadora de "Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção" e de um segundo volume sobre "autoria, autonomia e ativismo" (Ed. Fi, 2018 e 2010). As obras ganharam destaque por fazer uma historiografia da literatura indígena e expansão do número e da análise de autores nativos publicados no país.

Eu sou macuxi - Divulgação/Caos e Letras - Divulgação/Caos e Letras
O livro "Eu sou Macuxi e outras histórias", de Julie Dorrico
Imagem: Divulgação/Caos e Letras

Em 2019, Dorrico também lançou "Eu sou Macuxi e outras histórias" (Caos e Letras). Em um dos contos, ela "vira o jogo": transforma o Deus dos homens brancos em um caçula dos deuses dos povos da floresta. Um troco a Mário de Andrade, que transformou o deus dela em um herói peculiar.

O esforço de divulgar as criações indígenas, especialmente na mídia, funciona como uma espécie de corrida contra o tempo para Dorrico. Segundo ela, os indígenas têm direitos e são considerados cidadãos somente desde a Constituição de 1988. Apesar disso, nem sempre o racismo contra o indígena é reconhecido pela sociedade brasileira.

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