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"Vacina é ato simbólico para amenizar genocídio", diz 1a indígena vacinada

Vanuzia Costa Santos Kaimbé, 50 anos, moradora da aldeia multiética Filhos dessa Terra, em Cabuçu Guarulhos, é a primeira indígena do Brasil a se vacinar contra a covid-19 - Divulgação
Vanuzia Costa Santos Kaimbé, 50 anos, moradora da aldeia multiética Filhos dessa Terra, em Cabuçu Guarulhos, é a primeira indígena do Brasil a se vacinar contra a covid-19 Imagem: Divulgação

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo

17/01/2021 18h15

A primeira indígena vacinada oficialmente no Brasil se chama Vanuza Kaimbé, 50, é assistente social, técnica em enfermagem e se dedica a promover assistência médica e social em uma aldeia que é lar para indígenas vindos de todo o país. A Aldeia Filhos Dessa Terra fica em Guarulhos, na Grande São Paulo.

Assim que recebeu a vacina Coronavac hoje (17), Vanuza se lembrou dos dois primos que morreram de Covid-19 nos primeiros meses da pandemia. Mas não só. Ela afirma ter pensado nos milhares de parentes indígenas de todo o país que foram contaminados ou morreram pelo novo coronavírus.

Vanuza é líder indígena há vinte anos. Desde o início da pandemia, dedica-se ao trabalho voluntário, como encontrar financiamento para a doação de testes de detecção do vírus e a encaminhar indígenas infectados para hospitais. Tudo voluntariamente.

O trabalho é parte de uma missão antiga de Vanuza. Até os 12 anos, ela viveu em uma aldeia no município de Euclides da Cunha, no sertão da Bahia. Saiu de lá com a família para ter uma vida melhor em São Paulo. A ideia era juntar dinheiro, estudar e voltar para ajudá-los.

A profissão já sabia desde a adolescência. Queria ser como um daqueles médicos que ajudavam na cura de seus parentes indígenas. "Eu pensava: um dia serei como eles", diz. Em São Paulo, viu que precisava ir ainda além. Não só a saúde, mas o território e a diminuição da pobreza era uma das batalhas dos indígenas da cidade.

Vanuza mudou de área e decidiu ser assistente social. No início dos anos 2000, ajudou grupos indígenas na criação do Projeto Pindorama, que financia bolsas de estudos para indígenas pobres entrarem na universidade. "Queria ser assistente social para levar mais humanidade e carinho para meu povo", diz.

Em entrevista à Ecoa, ela lembra que um dos primos a telefonou antes de ser intubado, em abril de 2020. "Ele me ligou para dizer que iria morrer", relembra. Segundo ela, meses depois um tio morreu devido às sequelas causadas pelo novo coronavírus. "Foi um ano de muitas perdas para mim", diz. No ano passado, ela mesma contraiu o vírus. "Eu sofri muito", diz.

"Quando batemos 100 mil, tive uma tristeza muito grande. Quando viramos 200 mil, pensei que não sobrariam mais pessoas no país"

Formação de uma aldeia multiétnica

Há vinte anos, ela também se envolveu com o movimento indígena e hoje lidera a associação da etnia Kaimbé no estado paulista. O grupo foi um dos que ajudou a criar a aldeia de Guarulhos em 2002. O local era diferente de uma aldeia convencional: recebia indígenas pobres, que ainda hoje vivem com o trabalho informal ou na construção civil, vindos de etnias diferentes. A ideia é que cada etnia tivesse espaço para conectar-se com a própria ancestralidade.

Hoje são cerca de 20 famílias de etnias diferentes, com cerca de 70 indígenas que vivem na aldeia em Guarulhos. "Indígena é indígena vindo de qualquer lugar", diz.

Segundo ela, a comunidade sofre com problemas sociais agravados pela cidade, como a desigualdade, dificuldade de acesso a serviços públicos e violência. Nos próximos meses, espera que as dificuldades sejam amenizadas com a vacina. "É uma esperança para nós", diz.

Não se sabe ao certo o número de indígenas mortos e infectados pela Covid-19 no Brasil. Além da subnotificação e do número baixo de testes, grupos de movimentos indígenas e órgãos oficiais divergem sobre os dados. De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), 45.807 indígenas foram infectados e 923 morreram em 161 povos no país.

Vanuza pretende continuar estudando por meio de uma residência em serviço social. Eventualmente e por toda a vida, retorna para ajudar a população da aldeia onde nasceu na Bahia. Agora, voltará vacinada.

"A vacina foi um ato simbólico para amenizar e compensar o genocídio que historicamente foi promovido contra a população indígena", conclui.

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