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Como trabalhadores conseguiram fazer greve de sete anos em plena ditadura?

Greve dos Queixadas, trabalhadores da indústria de cimento Portland - Casa da Memória/Prefeitura do Município de Cajamar
Greve dos Queixadas, trabalhadores da indústria de cimento Portland Imagem: Casa da Memória/Prefeitura do Município de Cajamar

Jéssica Moreira

Colaboração para Ecoa, do Nós, Mulheres da Periferia

30/09/2020 04h00

Você já imaginou uma greve de sete anos em plena ditadura militar? Pois, é. Foi o que aconteceu em Perus, na região noroeste da periferia de São Paulo, de 1962 a 1969, quando operários da Companhia de Cimento Portland Perus paralisaram os fornos da fábrica utilizando a filosofia da não-violência-ativa.

O conceito, conhecido mundialmente, que se utiliza de técnicas não agressivas — greves de fome, abaixo-assinados e manifestações — já havia sido usado por Mahatma Gandhi na Índia, em 1947, para combater os ingleses, e também por Martin Luther King Jr. na luta pelos direitos civis da população negra nos Estados Unidos.

A prática ajudou mais de 500 trabalhadores que se autodenominavam Queixadas, a conquistar seus direitos mesmo após o fim da longa reivindicação que pedia, entre outras coisas, melhores salários e condições de trabalho.

Passados mais de 50 anos do fim da greve, a população de Perus vem criando estratégias para guardar essa memória e repassá-la para as gerações seguintes.

Um exemplo disso é um grupo de mulheres, entre elas moradoras, netas de operários, professoras, artistas e militantes, que se reuniram e lançaram em agosto deste ano o Centro de Memória Queixadas - Sebastião Silva, em homenagem a um dos trabalhadores da fábrica falecido em 2019, aos 86 anos.

Sebastião Silva foi um dos grevistas e, mesmo aposentado, vinha se dedicando a contar a história em escolas e eventos sociais e culturais no bairro.

Neta do operário, a jornalista Sheila Moreira faz parte do grupo e comenta a homenagem. "É uma felicidade que não cabe em mim o centro receber o nome de meu avô. O Tião era um cara firme permanentemente. Sempre pensou no coletivo, seja alguma luta no bairro ou na família. Sempre acreditou em justiça social e em um mundo mais igualitário. Desistir ou recuar nunca estava em seus planos."

Trem Maria Fumaça na fábrica da Portland em Perus - Humberto Muller - Humberto Muller
Trem Maria Fumaça na fábrica da Portland em Perus
Imagem: Humberto Muller

Patrimônio histórico de SP

O projeto já vinha sendo gestado há muitos anos, já que, desde o fechamento definitivo da companhia, em 1987, ex-trabalhadores e população local desejam transformar o espaço em um centro de cultura e memória.

Desde 1991 a indústria é tombada como patrimônio histórico da cidade de São Paulo, por meio de decreto da então prefeita no período, Luiza Erundina. No ano seguinte, ela também decretou a utilidade pública de uma parte do local para a implantação de um Centro Cultural do Trabalhador. O prédio e arredores, porém, continuaram nas mãos da família proprietária, os Abdalla, e nada foi feito em prol do local, hoje em ruínas e abandonado.

A população do bairro, coletivos sociais e culturais lançaram, em 2013, o Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento. Com reuniões mensais, o grupo organizou uma série de atos artísticos trazendo a história da greve, mobilizações comunitárias, trilhas educativas na antiga indústria e espetáculos teatrais a fim de não deixar as memórias se perderem, mesmo não conseguindo o espaço físico.

Para as mulheres que formam o centro, o grande objetivo com o lançamento desse projeto é continuar esse processo, preservar e difundir o legado deixado pelos Queixadas como um grupo que se utilizou dos princípios da não-violência para lutar por seus direitos.

Dentre as iniciativas, está a coleta de entrevistas com quem viveu o período ou trabalhou na fábrica, coleta e organização de documentos, realização de bate-papos virtuais, disseminação dos materiais nas redes sociais, organização e produção de uma cartilha com todo o acervo a ser disponibilizado em um site para a comunidade local e demais interessados.

"Souberam como poucos grupos organizados estabelecer articulações com lideranças religiosas, com outras fábricas, sindicatos e, principalmente, com as famílias dos trabalhadores e a comunidade local", explica Regina Bortoto, professora aposentada e militante no bairro há mais de 30 anos.

"Queixada que enfrenta o tubarão"

Fundada em 1926, a Companhia de Cimento Portland Perus foi a primeira fábrica de grande porte do setor no Brasil, resultado de um consórcio entre comerciantes canadenses da Drysdale y Pease (Montreal) e brasileiros ligados à Companhia Industrial e de Estrada de Ferro Perus- Pirapora.

Até 1933, foi a principal fonte de matéria prima para a construção de edificações em todo o país, inclusive de construções paulistas, como o Viaduto do Chá e a Biblioteca Mário de Andrade, como bem mostra Élcio Pereira, em sua dissertação pela Uniamp "Melhores que o Patrão: a luta pela cogestão operária da Companhia de Cimento Portland Perus".

A indústria foi um impulsionador ao crescimento do bairro, já que boa parte da população trabalhava na produção de cimento. Em 1951, no entanto, a troca de gestão dos canadenses para as mãos de João José Abdalla (J.J Abdalla) ampliaram as más condições de trabalho, impulsionando a organização dos trabalhadores, que agora contavam também com o conceito da "Não-Violência-Ativa", reforçado pelo advogado do Sindicato, Mário Carvalho de Jesus.

Em 1958, organizaram uma greve de 46 dias para pedir reajuste salarial de 40%. Aceitariam 30% caso o preço do cimento baixasse. Foi quando o sindicato passou a ser conhecido como "Queixadas", em referência a um porco do mato que, ao se sentir em perigo, se une em grupo e bate o queixo, tamanha era a união dos trabalhadores.

Greve dos Queixadas em Perus, São Paulo - Arquivo/Sindicato do Cimento - Arquivo/Sindicato do Cimento
Imagem: Arquivo/Sindicato do Cimento

Os sete anos de greve

Era 14 de março de 1962 quando os trabalhadores da fábrica de Perus e de outras três indústrias do Grupo Abdalla entram em greve, no intuito de reivindicar melhores condições de trabalho e o pagamento dos salários atrasados. Após 32 dias, os colegas fizeram um acordo e voltaram ao batente, enquanto os trabalhadores de Perus mantiveram a paralisação.

Durante esses sete anos, foram realizadas greves de fome, abaixo-assinados, manifestações pelo bairro ou pelas ruas do centro de São Paulo, além de incidência política e entrega de comunicados à imprensa de diversas redações paulistas.

Em entrevista para o livro Queixadas - por trás dos 7 anos de greve, Sebastião da Silva conta que, à época, os comerciantes do bairro pararam até mesmo de fornecer alimentos aos grevistas, com receio deles não pagarem.
Uma das mais marcantes características da greve dos sete anos é que os trabalhadores também envolviam seus familiares no entorno das reivindicações. Mesmo não havendo operárias na fábrica, as mulheres, muitas companheiras, mães ou irmãs dos trabalhadores "Queixadas", tiveram papel fundamental na manutenção da paralisação.

Como os homens não podiam trabalhar ou estavam em mobilização, muitas passaram a atuar como ajudantes de limpeza, lavadeiras ou passadeiras, para ajudar na sobrevivência das famílias.

"As mulheres os apoiaram nas greves, nos piquetes, formando uma rede de colaboração para as famílias que precisavam de alimentos. Muitas buscaram formas de ajudar em casa financeiramente, costurando roupas, lavando ou passando", conta Patrícia Barbosa, arquiteta, moradora de Perus e uma das integrantes do centro de memória.

Mesmo depois do fim da greve, as mulheres foram linha de frente na luta contra o pó de cimento que era jorrado por todo o bairro diariamente. "Conta-se que não tinha quem vencesse varrer; plantações também não davam, pois o pó não permitia. Diante disso, as mulheres reivindicaram a diminuição da emissão dos poluentes", conta Patrícia.

O pó caía também sobre as roupas lavadas no quintal e resultava em doenças respiratórias e de pele em toda a população. A campanha "O pó de cimento esmaga a vida" é, segundo os moradores, um dos primeiros movimentos ecológicos levantados nas periferias nesse período. "A mulherada do território sempre esteve à frente do seu tempo e ao lado dos
homens nas lutas em defesa de uma sociedade melhor", diz ainda.

A não-violência vira firmeza-permanente na periferia

A reação quando se fala em não-violência-ativa costuma ser mista. Muita gente se sente próximo ao termo, mas vários sentem resistência com receio de que denote algum tipo de covardia perante os conflitos.

Isso não foi diferente entre os trabalhadores da fábrica de cimento quando o termo chegou à região pouco antes da greve. "O João Breno, que era o presidente do sindicato, ficou bravo quando falaram sobre a não-violência para ele. [De princípio], a não-violência para ele era covardia. Ele dizia 'eu, pessoalmente, fiquei nervoso. Não queria aceitar porque não-violência era nome de peleguismo", conta o estudioso no assunto Diego Caldas, também mestrando em Mudança Social e Participação política da EACH-USP Leste, em referência aos estudos sobre a greve de Perus.

Com a repulsa dos trabalhadores ao conceito, o nome se transformou em Firmeza-Permanente (em sânscrito, Satya significa "verdade" e agraha significa "firmeza"), que logo virou o lema dos Queixadas e até hoje está estampado entre os grafites e demais letreiros de praças e muros do bairro.

O advogado Mario Carvalho de Jesus, um dos expoentes mais importantes no uso da filosofia entre os operários peruenses, dizia que "o importante não é a gente ser valente ou violento de vez em quando, mas firme o tempo todo, a vida toda, em todas as atitudes, quer na família, na fábrica ou na sociedade."

Naquele tempo, caso eles entrassem em conflito agressivo, acreditavam que poderiam perder seus direitos, por isso aceitaram e foram compreendendo, ao longo dos anos, a importância do termo, que como explicava Sebastião não poderia nunca ser confundido com covardia.
"A gente já vinha fazendo um trabalho junto à base para não entrar no campo que os homens queriam, que era o da pancadaria e o do quebra-quebra. Estávamos compenetrados que não aguentaríamos o tranco", é o que afirmou João Breno Pinto, hoje já falecido, no livro "Cimento Perus - 40 anos de ação sindical transformam velha fábrica em centro de cultura municipal", publicado em 1992.

A chegada da luta não-violenta

Segundo o Dicionário da Paz, da UmaPaz, o termo não-violência significa "filosofia de orientação de formas pacíficas de expressão, oposição a injustiças e situações, sem nenhum modo de agressão às pessoas envolvidas, mesmo aos agressores. Uso do diálogo para chegar a acordos, ou de resistência pacífica quando a outra parte não quer dialogar".

Caldas explica que a não-violência tem uma origem muito antiga, muitas vezes, até ligada às histórias das religiões. Na segunda metade do século 20, já vinha sendo adotada na Europa e já tinha também outras experiências bem-sucedidas nos Estados Unidos, quando começa a chegar na América Latina.

"Em Perus, o conceito da não-violência-ativa chegou por meio da socióloga austríaca Hildegard Goss Mayr, presidente do Mir (Movimento Internacional da Reconciliação). Ela veio para as Américas para tornar o Mir um movimento global. Chegando ao Rio de Janeiro, conheceu Dom Helder Câmara, que indicou as greves de Perus.

Aqui, teve contato com o sindicato, que já tinha estratégias de luta não-violenta, muitas delas trazidas pelo advogado Carvalho de Jesus por conta da vivência na França junto ao Padre Lebret, do Movimento Economia e Humanismo.

Mas Caldas explica que, se alguns a chamam de filosofia, outros a utilizam como estratégia de luta política, ou seja, é usada apenas em alguns momentos específicos. "Dentro do conceito, há grupos que rejeitam completamente a violência e não se envolvem em questões políticas, algo mais conhecido como pacifismo. Já a não-violência-ativa é uma postura política, uma luta política adotada diante de um conflito, que é o de não usar a violência. Uma pessoa covarde não consegue não ser não-violenta porque vai fugir do conflito. O não-violento-ativo enfrenta o conflito".

O fim da greve de sete anos

Em 1967, o advogado do sindicato na época, Mario Carvalho de Jesus, elaborou um memorial de 164 páginas sobre o processo e os trabalhadores, finalmente, passaram a ter o direito de voltar ao trabalho.

O Grupo Abdalla foi obrigado a pagar os salários com reajustes de juros e correção monetária, que contava do início da greve em 1962, até a reintegração. Mas foi só em 1969 que 309 empregados grevistas voltaram ao trabalho, já que outros já haviam até mesmo morrido nesse meio tempo.

Somente em 1975 os trabalhadores receberam a indenização, em um valor de 18 milhões de cruzeiros (moeda brasileira da época), que equivale em média a 65 mil reais (moeda atual). O pagamento foi feito a luz de velas na sede do sindicato que, no período estava sob intervenção militar.

Sujeitos da própria história

Ao olhar para toda essa história, Regina tem ainda mais certeza do propósito do centro de memórias. "Nossa principal motivação foi a necessidade de reunir e preservar registros de variados gêneros sobre a história da Fábrica e das lutas operárias, organizadas pelos Queixadas, que reverberam até hoje", diz.

Com a divulgação dessas lembranças, elas esperam alcançar e inspirar o maior número de pessoas da região, para que se percebam como sujeitos da história, não mais como objetos.

"Trabalhar com memória é estar imerso em um processo de apropriação e (re)conhecimento das nossas identidades, histórias e, também, do território onde vivemos. Não deixemos que digam que as nossas memórias não valem a pena, que calem mais uma vez as vozes da periferia", afirma Sheila Moreira.