PUBLICIDADE
Topo

Diversidade

Chavoso da USP: "Quero que a periferia possa seguir trajetória que quiser"

Thiago Torres ficou conhecido nas redes como Chavoso da USP - Jefferson Delgado/@chavosodausp
Thiago Torres ficou conhecido nas redes como Chavoso da USP Imagem: Jefferson Delgado/@chavosodausp

Cleberson Santos

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

28/09/2020 04h00

Despertar o interesse em política e estudos para o pessoal da periferia é o objetivo principal do estudante de Ciências Sociais Thiago Torres. "Cria" da Brasilândia, zona norte de São Paulo, ele ficou conhecido pela internet como o Chavoso da USP, por conta do seu estilo ligado ao funk.

Tudo começou com um "textão" no Facebook, em que ele refletia sobre as diferenças entre o mundo acadêmico e a região em que mora. Com a repercussão da postagem, Thiago decidiu fazer vídeos e hoje já conta com mais de 100 mil inscritos em seu canal no Youtube.

Amanhã (29), ele estreia no canal MOV o programa Mandrakes no Pedaço, ao lado de outros dois influencers que também buscam quebrar o elitismo de obras clássicas por meio de gírias típicas da periferia: o youtuber Audino Vilão (ou Marcelo Marques, para os íntimos) e Dayrel Teixeira, responsável pelo perfil "Funkeiros Cults" no Instagram.

A Ecoa, Thiago falou sobre a sua expectativa com a estreia do programa e também sobre a entrada da periferia na universidade, acesso à educação e ataques à ciência.

Ecoa: Há cerca de um ano, você lançou seu canal no Youtube, se apresentou e falou como é sua vida, tudo o que você faz de estudo, trabalho, militância. Como está sendo a sua rotina atualmente?

Thiago Torres: Por conta da pandemia, eu só estou em casa mesmo. Eu trabalhava como jovem aprendiz até poucos meses, mas assim que começou a quarentena eu fui afastado do trabalho. Nesse meio tempo meu canal explodiu, eu estava com cinco mil inscritos, agora eu estou com 100 mil. E aí eu fiquei mais conhecido, passei a ser chamado para lives. Até me chamaram para voltar ao trabalho, em meio a pandemia ainda, mas não fazia mais sentido, estou trabalhando só com o canal mesmo.

Muitas vezes a USP é tida como algo "inalcançável" para quem vem de periferia. Como que surgiu teu interesse em estudar lá?

É até estranho falar isso, mas eu nunca tive esse interesse. Não estava nos meus planos entrar na USP. Eu tinha pretensão de entrar em universidade pública mais por não ter condição de pagar uma [universidade] particular do que por saber que a pública era melhor.

Eu não tinha essa autoconfiança de me imaginar estudando na USP, eu só pensava em fazer faculdade mesmo. Hoje em dia, já estando lá dentro, eu sei porque que eu não tinha essa autoconfiança, porque a USP parecia estar tão distante, porque nunca foi apresentada para mim como uma possibilidade. Antes de entrar lá eu não tinha essa noção.

Quando você passou no vestibular e começou a frequentar a Cidade Universitária, foi um choque de realidade muito grande para você?

Com certeza, antes mesmo de começar a ter aula presencialmente. Assim que saiu a lista de chamada, o pessoal me achou no Facebook, pediu meu WhatsApp para colocar em grupos. Ali mesmo eu comecei a perceber uma diferença gigantesca no perfil dos alunos, que é uma maioria branca, o que as pessoas falam, como elas falam. Até o sotaque você repara que é diferente.

Depois veio o choque presencial, quando fui lá fazer a matrícula. Ali você já tem contato com o pessoal do centro acadêmico, com os veteranos. Como eu entrei no primeiro ano de cotas raciais na USP, a maioria que estava nos recebendo era branca. E tem o choque com o espaço em si, porque é muito grande. Eu não sabia que tinha que pegar um ônibus só para andar lá dentro.

Até o fato de as pessoas prestarem atenção nas aulas e não ficar conversando foi uma coisa que me chocou. Na escola pública isso não existe. E isso foi uma coisa de que eu gostei muito, porque eu sempre fui uma pessoa muito participativa, que gosta de fazer perguntas, comentários, e lá você tem muito espaço para isso.

Ainda assim, apesar da abertura, eu não tinha coragem. A maioria que está participando são homens, brancos, que falam bonito, que estão bem vestidos. Você fica muito acuado. Pensava que as pessoas podiam me olhar e pensar "meu deus, quem é esse que tá aqui desse jeito", então sempre fiquei muito paranoico em relação a isso.

Por que você escolheu Ciências Sociais? Você já se interessava por sociologia e política antes de entrar?

Eu sempre fui uma pessoa muito questionadora, tá ligado? Eu era aquela criança insuportável que pergunta demais, que quer saber o porquê de tudo. Quando eu entrei na adolescência, eu comecei a me interessar muito por ciências naturais, mas ao mesmo tempo foi um momento de muitas descobertas, foi um momento que eu comecei a descobrir minha sexualidade, a entender a minha raça, a entender minha posição na sociedade como pessoa pobre.

Num primeiro momento, eu comecei a me informar em páginas no Facebook, canais no Youtube, que me deram informações muito importantes, mas que eram insuficientes. Só depois que eu entrei no ensino médio, quando a gente começa a ter aula de sociologia, que eu entendi que você podia se especializar nisso. Até então, eu achava que era só um passatempo ou militância mesmo. Aí eu falei "mano, é isso que eu quero pra minha vida".

Tem outros jovens periféricos na sua turma?

Sim, antes de eu entrar já tinha, mas eram muito poucos. Eu acho que principalmente com as cotas sociais e raciais aumentou radicalmente essa quantidade. Como eu falei, quem recepcionou a gente foi o pessoal do Centro Acadêmico e entre eles tinham duas ou três pessoas negras, de periferia. Foi justamente com essas pessoas que eu me enturmei num primeiro momento. A USP é um espaço hostil pra caralho, mas eu precisava me fortalecer com essas pessoas para conseguir sobreviver lá dentro.

Você, o Audino Vilão, o perfil Funkeiros Cults, têm um trampo de falar de assuntos acadêmicos de uma forma acessível, para quem é da quebrada. Por que você considera isso tão importante?

Falando por mim, meu trabalho é de falar de assuntos que eu considero importantes para a periferia, e eu uso a minha própria vivência, uso elementos da própria vida da periferia, como o rap, o funk, a religiosidade, mas também uso teorias acadêmicas.

Eu e o Audino recebemos alguns ataques recentemente por pessoas que interpretaram errado o nosso trabalho, que acham que a gente quer, sei lá, "levar conhecimento para os ignorantes", de um jeito missionário, jesuíta. E não é nada disso que a gente faz. Nenhum de nós se vê fazendo esse tipo de trabalho.

Eu sou contra o academicismo, achar que só o conhecimento produzido academicamente é válido, mas sou sim defensor da academia, da ciência, da produção de conhecimento. Por ser um cientista social em formação, eu entendo que as coisas que eu falo precisam ter um fundamento, eu não quero ser um palpiteiro.

Eu quero tentar fazer essa ponte, mas, ao mesmo tempo, dar para os meus seguidores as ferramentas para que eles possam fazer isso também. É a pedagogia da autonomia do Paulo Freire. É eu ajudando como alguém me ajudou antes.

Você costuma dizer que o objetivo do seu trabalho é "emancipar a periferia". O que significa isso?

Thiago Torres, estudante de Ciências Sociais, o "Chavoso da USP" - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Thiago Torres e obra de Angela Davis
Imagem: Reprodução/Instagram

Educação é emancipação, ela liberta, destrói mitos, faz você ver o mundo de uma forma totalmente diferente. Não é do interesse de quem tá no poder que as pessoas se libertem dessas amarras e vejam o mundo de outro jeito. Elas vão questionar mais, cobrar mais. Por isso tudo que a educação para a população periférica não é de qualidade.

Nesse sistema a gente é mão de obra barata, não precisa ter conhecimento sobre filosofia, sociologia, história. Você precisa ter o conhecimento do serviço manual que você está fazendo. Eu quero quebrar com essa lógica, eu quero que todo mundo tenha acesso a todo conhecimento e tenha a possibilidade de seguir a trajetória que quiser. A educação é fundamental para isso, ela ajuda para que as próprias pessoas transformem suas vidas e das comunidades onde estão inseridas.

Sobre o programa que vocês vão apresentar juntos, como está sendo a experiência e qual a expectativa que vocês têm com a estreia?

Eu estou achando a experiência incrível. Quando eu comecei a fazer vídeo, em setembro do ano passado, não tinha ninguém fazendo, eu acho, parecido. Não estou dizendo isso para falar "ah eu fui o pioneiro", mas porque infelizmente é um tipo de trabalho que ainda está engatinhando, de ver pessoas periféricas na internet, falando para a periferia, da periferia.

Eu fiquei muito feliz quando comecei a ver outras pessoas fazendo esse trabalho. A gente poder se juntar — alguns de nós, porque tem outros — e fazer isso juntos, eu achei sensacional.

Estou bastante animado, acho que vai ser um trabalho bem legal, a gente tá falando de lugares diferentes geograficamente, mas também de posições diferentes. Nós três somos pobres, somos da periferia, mas a gente tem vivências particulares, coisas a agregar em comum. Até nossas áreas de estudo são diferentes, apesar de ser em ciências humanas.

A gente vive um momento de questionamento do conhecimento, da academia, da ciência... Como você vê esse cenário?

Péssimo, péssimo, péssimo. A gente tem que aprender a valorizar todas as formas de conhecimento, inclusive o científico. É uma coisa que foi estudada profundamente, que teve várias pessoas envolvidas, que passou por um processo de coleta de dados, de teste, de comprovação de hipóteses. O foda é que isso não está sendo acessível, é algo muito restrito ainda.

O que a gente está vendo, infelizmente, é a desvalorização do conhecimento científico, o crescimento de teorias da conspiração e os ataques às universidades públicas, o desmonte, a retirada de investimentos. É muito triste, mano, é muito triste esse cenário. É isso que torna esse trabalho de divulgação científica ainda mais importante.

Qual você acha que é a maior dificuldade que o jovem periférico enfrenta ao querer ampliar horizontes, ler, estudar?

São muitas, infelizmente é um problema sistêmico, está ligado com muitos outros. Esse jovem, ou adulto, está dentro de um sistema em que as regiões periféricas são propositadamente menos assistidas pelo Estado, mesmo sendo as regiões da cidade onde está a maioria da população, as pessoas que mantém a cidade em funcionamento.

Claro que tem uma coisinha aqui ou ali, não é como se a gente não tivesse absolutamente nenhuma presença do Estado na periferia, mas as instituições, como as escolas por exemplo, que estão presentes são instituições sucateadas, precarizadas, sem uma estrutura adequada.

Se na sala de aula você não consegue estudar, você procura a biblioteca da escola. Se ela existir e se estiver aberta não tem todos os livros. Ou vai ter um exemplar do livro para mil alunos. Você não tem nenhum terreno fértil, favorável para estudar. Para você conseguir estudar de fato, você tem que subverter toda essa lógica.

Como você acha que a pandemia vai prejudicar os planos de outros jovens de quebrada que estão tentando entrar na faculdade ano que vem?

A pandemia aprofundou todos os problemas sociais que a gente já tinha. O vestibular sempre foi um filtro econômico e racial para impedir a entrada da periferia na universidade.

Eu não tenho dúvida de que na hora que chegar o vestibular, uma quantidade gigante de pessoas vai ficar de fora. Só não vai ser uma maioria absoluta de classe média alta por causa das cotas, isso que vai impedir. Mesmo os que vão entrar entre negros e escola pública, vai ser ainda de uma outra camada, aluno de ETEC e Instituto Federal. Todos os vestibulares deveriam ser adiados, mas infelizmente não vai rolar porque o Estado está fingindo uma normalidade que não existe.

É mais difícil ser um intelectual na periferia ou ser um periférico na universidade pública?

Com certeza por ser periférico e estar na universidade pública. Eu sou admirado pelos meus amigos da quebrada, nunca fui tirado de nerd nem nada. Eu não entrei na universidade e me transformei naquele estereótipo do acadêmico, que coloca um suéter, um óculos redondo, um cachecol no pescoço e começa a falar difícil, frequenta só orquestra, teatro.

Muitas vezes eles [amigos] nem lembram que eu estudo na USP. Tem muito amigo que está tentando carreira musical, seja no rap, no funk ou até no gospel, e eles me pedem muita opinião, pra eu achar alguma coisa na letra que seja racismo, machismo, se está escrevendo direito. Pessoal me pergunta demais o que é fascismo, por exemplo.

Na universidade é justamente o contrário, é um espaço muito elitista. Além de ter muita gente da elite, elas querem manter esse padrão segregador e eurocêntrico. É complicado para a gente estar lá dentro principalmente mantendo os elementos da periferia no nosso corpo, na nossa aparência, na nossa fala, nos nossos gostos.

O que você aprendeu na quebrada que você nunca aprenderia dentro da faculdade?

Sem sombra de dúvida é sobreviver, ser forte, resistir. Não romantizando isso, mas a periferia é um treinamento de sobrevivência, um teste de resistência diário. Acho lamentável a gente ter que passar por tudo isso, mas só a gente sabe o que é ter sete anos de idade e ir para a feira com seus pais carregando tabuleiro na cabeça pra montar barraca, vender, saber se comunicar. Você é obrigado a aprender a se virar, a resolver seus problemas.

Além disso, você aprende a ter um senso de coletividade muito maior, uma empatia pelo próximo. A palavra comunidade não é aleatória, você precisa estar minimamente unido com as pessoas ao seu redor para vocês resistirem juntos.

Na universidade eu também aprendi a desenvolver essa união, com as pessoas pretas e periféricas. É a mesma coisa da periferia, a gente precisa dessa coletividade, se unir para sobreviver.

Semana passada rolou um "exposed" no Twitter por você ter sido gótico quando era mais novo, falavam que você não era funkeiro de verdade. O Chavoso da USP é um personagem do Thiago?

Essa discussão eu tive que levar muito na zueira para não ficar maluco. É uma necessidade de odiar gratuitamente e sem fundamento nenhum. Nenhuma daquelas pessoas que me acusam de ser um personagem me acompanham ou assistem meus vídeos, além de não conviverem comigo no dia a dia.

O pessoal acha que eu vou ser a mesma coisa que que eu era quando eu tinha 16 anos. Eu mudei tudo, posicionamento político, conhecimento, religiosidade, estilo, gosto musical.

O mais foda daquilo é que essa discussão rolou no Twitter e eu nem tinha a possibilidade de marcar meus amigos que moram na minha quebrada pra falar alguma coisa porque eles não usam Twitter. A gente que passou por todo tipo de violência física, psicológica, verbal na vida real, não vai ser tweet de um bando de tuiteiro de classe média que vai afetar.

Nos seus vídeos, você costuma falar sobre marxismo. O Audino fala mais sobre os filósofos clássicos. Quais são as obras ou os autores que você gostaria que todo jovem periférico tivesse acesso?

Marx em primeiro lugar, Marx e Engels. Eles vão dar uma boa base para você entender o funcionamento do sistema. Muito mais do que teorizar o comunismo ou o socialismo, eles explicaram o funcionamento do capitalismo. Eu acho que é fundamental para todos nós.

A gente tem que conhecer Frantz Fanon, que vai focar muito nessa questão dos países colonizados e não brancos. O Silvio Almeida, um cara fantástico que explica como o racismo estrutura nossa sociedade. Angela Davis, que contribui demais para entender tanto o capitalismo, o racismo, o patriarcado e vários outros sistemas de opressão.

Vou citar uma literatura também, Carolina Maria de Jesus. "Quarto de Despejo" é um livro fantástico, assim como Capitães da Areia também é da hora de conhecer.

Diversidade