PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Opinião


Opinião

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando Grajaú (SP) e Lajedo de Pai Mateus (PB) dividem suas dores

Carol Pires

14/02/2021 04h00

2020 foi o ano em que filmes, séries, música, livros e lives me acolheram para passar por tudo de uma maneira menos dolorida. Num desses dias longos e incertos conheci Por Trás do Céu, produção brasileira dirigida por Caio Sóh. E o que mais me prendeu foi o cenário, o lugar em que a história foi contada.

Lajeado - Divulgação - Divulgação
Lajeado do Pai Mateus, a 'Roliúde Nordestina?
Imagem: Divulgação

Umas das pessoas responsáveis pelo filme me explicou que a locação era o Lajedo de Pai Mateus, em Cabaceiras, no Sertão da Paraíba. O município é conhecido como a 'Roliúde Nordestina' e muitos filmes e séries foram gravadas ali, inclusive O Auto da Compadecida, clássico do início dos anos 2000.

Na chegada, além do espanto com a beleza do lugar, as primeiras conversas me fizeram sentir em casa. Romero Farias, Gerson Lima e Ribamar Farias, são alguns dos guias locais que levam os visitantes pelas trilhas ao encontro das formações rochosas da região, que mesmo sendo uma propriedade privada, é uma Área de Proteção Ambiental.
Mais que conduzir, estes sertanejos dão aula de história, geografia, política e coletivismo em cada passo que seguimos. Com brilho nos olhos, o orgulho de ter nascido e pertencer àquele lugar transborda pelas falas, expressões e piadas.

No primeiro roteiro, fomos ao Lajedo Manoel de Sousa, com Romero guiando. Ele nos contou o quanto, ainda hoje, muitos sudestinos continuam a generalizar o Nordeste, se achando melhores, simplesmente, por morarem em outra região do país. Pedi desculpas pelos meus conterrâneos e expliquei que de onde venho, periferia de São Paulo, a realidade é outra. Somos uma maioria de famílias nordestinas, somos muito mais acolhedores e cientes de que é preciso conhecer o território antes de sair falando besteiras por aí. Foi ali, naquela conversa, que passei a me identificar com aquilo tudo.

Nasci no bairro do Jordanópolis, distrito do Grajaú, extremo sul de São Paulo. Da adolescência até a fase dos primeiros empregos eu morria de vergonha de falar de onde eu vinha, porque se seguiam comentários pejorativos como: "que longe", "credo", "nossa, deve ser muito perigoso".

Morei por lá por 35 anos e, só ali pelos 21 anos, passei a entender que meu bairro, minha região, além de trazer toda minha trajetória de criança à vida adulta, era riquíssimo em belezas naturais. Por exemplo, ele tem duas áreas de proteção ambiental, cachoeiras e uma produção cultural absurda. Mariana Belmont sempre fala sobre isso em suas colunas.

Guiados pelo Gerson, no segundo dia fomos ao Lajedo de Pai Mateus, conhecido pelo seu pôr do sol. Nos contaram a história do curandeiro que deu nome ao local, mais sobre suas formações rochosas e todos os tipos de planta que vivem ali. A caatinga é muito rica, tem de planta medicinal a cacto que serve como tocha para ajudar no escuro.

Meu último passeio inédito foi com Ribamar. Ele nos levou a Pedra do Cálice, no meio de duas serras, onde conversamos um pouco sobre estereótipos e representação.

"Muitos escritores de histórias do sertão não nasceram e nem moravam aqui. Por isso, relatam muito da miséria, da parte triste. Mas o sertão é incrível, é rico em beleza natural e, depois de 2003, tivemos muitas melhorias para combater a seca", explicou o guia, que também é graduado em geografia, letras e turismo. Orgulhoso, Ribamar conta que ter acesso à educação na época de seus pais era um sonho muito distante, mas depois dos anos 2000 muita coisa mudou por lá, para melhor.

Ribamar trouxe relatos de preconceito gratuito, especialmente de pessoas do sul e sudeste, que enxergam o sertão como um lugar de precariedade. Falei do meu bairro como exemplo novamente, contando que São Paulo também tem um lado que sofre com o esquecimento, mas onde existem também Ribamares, Romeros e Gersons que fazem das periferias um caldeirão cultural, que formam cada dia mais mestres, doutores, rappers, dançarinos, jornalistas, escritores. Boa parte dessas histórias estão na Periferia em Movimento, Alma Preta, Nós Mulheres da Periferia e Desenrola e Não Me Enrola, coletivos de comunicação que contaram a história a partir da margem das cidades.

Voltei para casa com uma bagagem lotada de histórias, lindas fotografias e ainda mais ciente de que, como conta a banda Flicts: "Enquanto houver vida haverá um motivo para lutar".

Opinião