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Como a imprensa negra brasileira atua desde 1833 na luta antirracista

Página do jornal "O Homem de Cor", fundado por Francisco de Paula Brito, pioneiro da imprensa negra, de 14 de setembro de 1833 - Reprodução / Hemeroteca Biblioteca Nacional
Página do jornal "O Homem de Cor", fundado por Francisco de Paula Brito, pioneiro da imprensa negra, de 14 de setembro de 1833 Imagem: Reprodução / Hemeroteca Biblioteca Nacional

Juca Guimarães

Do Alma Preta, colaboração para Ecoa

27/06/2020 04h00

Foi na tipografia de um pioneiro da imprensa negra que um dos maiores romancistas brasileiros, Machado de Assis, também negro, iniciou sua trajetória editorial, como revisor. Francisco de Paula Brito (1809-1861) fundou "O Homem de Cor", em 1833, no Rio de Janeiro. Desde então, jornalistas negros têm desenvolvido projetos de comunicação, permitindo que seja feito um diálogo mais estreito com esse grupo racial. Em 1876 surgiu o pasquim "O Homem", em Recife; em 1889, "A Pátria", em São Paulo; em 1892, o jornal "O Exemplo", em Porto Alegre.

Diante do assassinato de George Floyd, nos EUA, e dos adolescentes João Pedro Mattos, João Vitor da Rocha e Guilherme Silva, no Brasil, os dois países foram tomados por manifestações antirracistas. Os grandes protestos atraíram os olhares da imprensa brasileira, que apresentou dificuldade para utilizar palavras como "racismo" durante a cobertura.

Para o professor de jornalismo da UNESP (Universidade Estadual de São Paulo), Juarez Xavier, "a mídia fez a cobertura da violência racial nos EUA sem tentar aplicar as mesmas ideias e conceitos no Brasil. Lá há o racismo estrutural, aqui é a desigualdade. Ela foi criando mecanismos de diferenciação, de tentar criar conceitos de acordo com a perspectiva de persuasão determinada pelo Estado brasileiro", diz ele.

A falta de enunciado aos problemas raciais existentes no Brasil é regra. "Recentemente, uma repórter televisiva estava cobrindo um caso de racismo e passou boa parte da matéria dando voltas sem explicar direito ou falar a palavra racismo. No fim, ela disse que a vítima ficou 'muito chateada'. Pera lá, não é isso. Ela sofreu foi racismo e a matéria não chegava nesse ponto. A repórter ficou com medo de falar que uma pessoa negra sofreu racismo", comenta a jornalista Cinthia Gomes, fundadora da AfroEducação, primeira consultoria de estratégias para equidade racial no Brasil.

É nesse contexto que a historiadora e professora da Universidade de Brasília (UnB), Ana Flávia Magalhães Pinto, ressalta a importância da imprensa negra no cotidiano dos afrodescendentes, e destaca a participação desses canais nos processos de consolidação político e social do país.

"Antes mesmo da proclamação da República, o jornal 'A Pátria' se posicionava entre as fileiras republicanas e manifestava expectativas nutridas entre grupos negros de que a queda da monarquia pudesse significar o complemento dos entraves legais à cidadania derrubados pela abolição da escravidão", diz a historiadora, responsável pelo livro "Escritos de liberdade: literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista" (Ed. Unicamp, 2018).

"É extraordinário como a imprensa negra, surgida ainda no período da escravidão, consegue retratar com lealdade e profundidade o que somos e a nossa cidadania", opina o jornalista, escritor e poeta Edson Lopes Cardoso, responsável pelo jornal do Movimento Negro Unificado, nos anos 1970 e 1980, e pelo jornal Irohin, sobre a memória e a comunicação afro-brasileira, que circulou entre 1996 e 2010 pelo país.

Além de jornais, durante e pós abolição da escravatura, a comunidade afrodescendente produziu centenas de informes, circulares, anúncios e folhetos. "É um material pouquíssimo estudado e muito rico em informações. Eles [jornalistas negros] contribuíram imensamente para a democracia no Brasil e, por isso, foram perseguidos", diz Cardoso.

Letras negras

A industrialização brasileira e o crescimento dos centros urbanos, a partir do século 18, contribuíram para o desenvolvimento da imprensa negra em cidades como Florianópolis (SC), Bagé (RS), Santa Maria (RS), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Salvador (BA), Campinas (SP), entre outras, de acordo com as pesquisas da professora Ana Flávia Magalhães Pinto.

"As bandeiras desses jornais em muito se aproximam do que já encontramos para o século 19: valorização do indivíduo por seus talentos e virtudes, e não pela cor da pele, nos diversos espaços da sociedade; valorização das redes de sociabilidade e associativismo negro; acesso à educação como estratégia de superação do preconceito de cor; afirmação do pertencimento à nacionalidade brasileira", conta a pesquisadora.

A exigência de integração à sociedade brasileira e a denúncia do preconceito e da discriminação foram pautas da imprensa negra, bem como bandeira do movimento antirracista no país. Esse interesse comum fez esses dois setores sociais, movimento social e mídia, caminharem em conjunto desde o período dos primeiros cadernos.

"Desde os 1870, não há uma década em que já não tenhamos encontrado pelo menos um jornal da imprensa negra. Os anos de não publicação, com efeito, não devem ser lidos como interrupção do ativismo ou inexistência de ativistas. Os jornais, via de regra, são criados para potencializar redes de associativismo político-cultural preexistentes", diz Ana Flávia Magalhães Pinto.

Nos anos 1970, o movimento negro brasileiro se fortaleceu bastante e deu fôlego para a produção jornalística.

Uma pista disso [expansão da imprensa negra] está na letra de 'Sampa', do Caetano [Veloso], quando ele narra a região central de São Paulo e fala sobre 'possíveis novos quilombos de Zumbi'. Era no centro, nos bares do centro, que as organizações negras divulgavam seus boletins

Edson Lopes Cardoso, responsável pelo jornal do Movimento Negro Unificado nos anos 1970 e 1980

Outros canais

A partir dos século 21, a imprensa negra também se espalhou por meios além do impresso. De 2000 a 2005, por exemplo, a "Revista Afirma" foi a primeira publicação digital da imprensa negra, que surgiu a partir dos debates sobre políticas de ações afirmativas, como as cotas raciais em universidades públicas.

Entre 2005 e 2007, a jornalista Cinthia Gomes, ainda na faculdade, criou o programa de rádio "Dandaras", transmitido pela Gazeta AM, de São Paulo, com as colegas Paola Watson e Paola Prandini. "A gente fazia edições sobre saúde da população negra, música, política. O leque era amplo, desde que abordasse a questão da negritude e do combate ao racismo. O programa começou com cinco minutos, dentro do jornal. Depois ganhou um espaço próprio na grade de meia hora e, depois, de uma hora por semana. Tinha entrevistas, matérias e até um DJ ao vivo. Tínhamos também o fanzine 'Dandaras', que circulou no mesmo período", lembra.

Nos últimos anos, a ampliação do acesso à internet contribuiu para o crescimento das mídias negras. "Melhorou muito com a estrutura online e as redes sociais, principalmente porque está chegando nas pessoas. A gente sempre fez uma boa produção de conteúdo sobre as nossas coisas, mas o principal desafio enfrentado era a questão econômica para produzir e distribuir notícia. E empregar pessoas para fazer isso", diz Cinthia.

Criada em meados dos anos 90, a revista "Raça" está completando 25 anos de existência e se consolidou em diversas plataformas, como publicação impressa, site, canal no YouTube e redes sociais, apesar da crise do setor editorial. "Chegamos em um público de mais de meio milhão de pessoas por mês. Só a revista tem 80 páginas e é de circulação nacional, mesmo com a pandemia do coronavírus, e com apenas 40% das bancas abertas, a revista saiu nos últimos dois meses. Foi uma decisão corajosa, porque muitas revistas suspenderam suas edições impressas e diversas outras fecharam", diz Maurício Pestana, dono da publicação.

Pestana diz que uma das capas mais emblemáticas da revista, e que simboliza a importância da imprensa negra, foi sobre as investigações após um ano do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco. "Era uma foto da família dela e uma cadeira vazia no centro", disse Pestana.

Com o objetivo de ajudar nas discussões sobre negritude dentro de cursos de jornalismo, a agência de notícias Alma Preta, criada em 2015, prepara para 2021 o primeiro manual de redação da imprensa negra. "Me deparo muitas vezes com um conteúdo feito por pessoas brancas que não encaram as pautas raciais como importantes. Um manual pode orientar jornalistas negros e não-negros e estudantes que queiram saber sobre um pensar antirracista, de representatividade negra e representação das desigualdades raciais", diz a estudante de comunicação Fernanda Rosário, da Unesp.

O Alma Preta é uma agência de jornalismo especializado na temática racial do Brasil, cujo objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos por meio do jornalismo qualificado e independente.