PUBLICIDADE
Topo

Plural é um projeto colaborativo do UOL com coletivos independentes, de periferias e favelas para a produção de conteúdo original


Ação regenerativa das periferias questiona paradoxo entre saúde e economia

Rede Nóis por Nóis durante o Festival Amaphiko, na zona sul de São Paulo - Cortesia Nóis por Nóis
Rede Nóis por Nóis durante o Festival Amaphiko, na zona sul de São Paulo Imagem: Cortesia Nóis por Nóis

Laís Diogo e Thiago Borges, da Periferia em Movimento*

Colaboração para Ecoa, em São Paulo

03/08/2020 04h00

A crise acompanha Barbara Terra, assim como todo o povo preto no Brasil. Mulher negra e moradora de uma periferia, a jovem empreendedora de 28 anos nunca se viu no modelo econômico vigente e, por isso, é fundadora e articuladora da Rede Nóis por Nóis, que atua na região do Grajaú, extremo sul da capital paulista. Formada majoritariamente por mulheres negras que estão iniciando microempresas em artesanato, moda, cosméticos e alimentação, a Nóis por Nóis promove consultoria em marca, gestão financeira, networking e muitas feiras para que os produtos circulem. Com o distanciamento social, essas vendas presenciais paralisaram.

Por isso, o suporte agora inclui também a assistência a 100 famílias com um kit de cesta básica, alimentos orgânicos, álcool em gel, máscara e guia de autocuidado. A rede desenvolveu ainda um núcleo de apoio à saúde mental com terapeutas locais, e já conta com 40 participantes. "Temos uma questão muito forte de afetividade", diz. "A gente é especialista em se regenerar, se transformar, é PhD nisso. A gente vive em crise e usou essa oportunidade para criar em cima disso, mais uma vez", conta Barbara.

A ação liderada por ela é uma entre muitos exemplos frequentes e diversos de auto-organização da população mais pobre. Alguns deles veremos mais à frente. Todos ampliam os olhares para o debate que ganhou força com a pandemia de coronavírus: é mais importante preservar a saúde ou a economia?

Bárbara Terra, da Rede Nóis por Nóis, da zona sul de São Paulo - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Bárbara Terra, da Rede Nóis por Nóis: "A gente é especialista em se regenerar"
Imagem: Arquivo Pessoal

Para Ítala Herta, esse é um falso paradoxo. "A maneira como o Brasil constrói a narrativa da economia na pandemia é muito perversa. Não trata saúde pública como prioridade, sendo que isso também é pensar em economia", diz ela, que é uma das co-fundadoras da Vale do Dendê, aceleradora de negócios localizada em Salvador e focada no Nordeste. "É importante diferenciar 'interesses econômicos' de 'economia'".

"Os olhares para o dinheiro são sempre os mesmos. As definições são pautadas por homens brancos e privilegiados, que esquecem que o dinheiro passa pelas margens", continua Ítala. Ela lembra que, antes de falar em "nova economia", é necessário olhar para outras economias que já existem no contexto de populações periféricas, indígenas, mulheres, comunidade LGBTQIA+.

A partir desse entendimento, ela criou a Diver.SSA, focada em promover o empreendedorismo feminino de impacto social nas regiões Norte e Nordeste. "A economia das mulheres é a economia do cuidado, de manter um país de pé. De redução de danos em relação a todos os caos que a gente tem, desenvolvendo crianças na creche, dentro de casa... E agora são as mulheres que se veem mais prejudicadas", ressalta.

Ítala complementa que a população que hoje está se virando para sobreviver vai demorar mais tempo para se recolocar no mercado. Por isso, uma medida que deveria ser adotada é o acesso a crédito a essas pessoas, muitas delas na informalidade e no empreendedorismo por necessidade.

Ítala Herta, da Vale do Dendê - Divulgação - Divulgação
Ítala Herta, da Vale do Dendê: Antes de falar em 'nova economia', é necessário olhar para outras economias
Imagem: Divulgação

"Quando a gente fala em investir em mulheres, pessoas negras, LGBTs, pessoas idosas, a gente está falando de vantagem competitiva também, porque isso reduz a possibilidade de as empresas errarem. O lugar da inovação é sempre lado a lado com a diversidade", acrescenta.

Base para sobrevivência

Para o cientista social Diego Veiga, educador e coordenador de projetos e formações na área de desenvolvimento territorial e autogestão no Núcleo de Estudos de Economia Solidária da USP, ações como as citadas acima podem ser pensadas, nesse momento, junto a uma base de sobrevivência. Um exemplo de contenção de danos na pandemia é o auxílio emergencial destinado a trabalhadores autônomos, informais ou que recebem o Bolsa Família. "Uma renda básica estimula o consumo e o trabalho de maneira a se retroalimentarem constantemente. E tudo isso gera impostos que retornam aos cofres públicos, além de reduzir a desigualdade", explica ele, que faz parte do Núcleo de Apoio às Atividades de Cultura e Extensão em Economia Solidária (NESOL), da Universidade de São Paulo (USP).

Dividido em 5 parcelas de R$ 600, o auxílio beneficiou mais de 65,2 milhões de pessoas e deve injetar ao todo R$ 254 bilhões na economia. Um estudo do programa de Pós-graduação em Economia Regional e Desenvolvimento da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (PPGER/UFRRJ), divulgado no início de julho, aponta que esses recursos devem amenizar o tombo do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020. Isso porque, além de garantir a demanda das famílias (64,5% do PIB), a manutenção da renda de pessoas em situação de vulnerabilidade gera retorno às empresas e arrecadação ao governo. Os valores já pagos frearam a queda do PIB em dois pontos percentuais. Se todo o montante previsto for utilizado, a diminuição da economia deve ser de 4,21% este ano.

Mesmo assim, há críticas à forma como o governo está conduzindo o programa. Primeiro, pela demora em implementar a medida - que aconteceu após pressão da sociedade civil. Segundo, pela execução: filas nas agências bancárias e lotéricas da Caixa já fazem parte do imaginário coletivo, ao mesmo tempo em que o aplicativo digital dá bugs e gera protestos. Terceiro, pela continuidade dos erros: pessoas nascidas em junho, por exemplo, só poderão sacar a terceira parcela de R$ 600 no final de agosto, daqui a quase um mês.

"Muito se fala sobre o custo alto para o país do auxílio emergencial, mas o custo é mais ideológico e político do que financeiro", explica Veiga, referindo-se aos obstáculos colocados pelo próprio governo federal para conceder o benefício.

Ser humano no centro

Os territórios populares têm se mobilizado para garantir o dia após o outro — seja economicamente, com ações como da Rede Nóis por Nóis na zona sul paulistana, seja em termos de direitos. Veiga cita o caso de Paraisópolis, favela de São Paulo com mais de 70 mil habitantes que contratou ambulâncias, equipes médicas, treinou mais de 240 socorristas comunitários e elegeu "presidentes de rua" a cada 50 casas para prestar assistência a moradores em tempos de crise.

Como efeito, um estudo do Instituto Polis apontou que o impacto do coronavírus é mais controlado na favela: em 18 de maio, a taxa de mortalidade por covid-19 na comunidade era de 21,7 pessoas por 100 mil habitantes, enquanto a Vila Andrade (distrito em que está localizada) registrava como um todo 30,6 mortes a cada 100 mil habitantes. O índice também está abaixo da média do município de São Paulo (56,2).

"Percebam que todas essas ações foram feitas de baixo para cima, pela própria comunidade. Imagine se o Estado brasileiro estimulasse, inclusive financeiramente, esse modo de organização", nota Veiga. Isso vai ao encontro do conceito de economia solidária que coloca, enquanto princípio, a geração de trabalho e renda com "o ser humano no centro".

A economia solidária entende que as comunidades são empobrecidas, ou seja, têm a sua riqueza constantemente sugada para manter essa desigualdade brutal no mundo

Diego Veiga, cientista social

Para estimular a compra de pequenos agricultores e comércios locais, por exemplo, existem bancos comunitários com moedas sociais que circulam em um determinado bairro, região ou até cidade. Em Maricá (RJ), a população recebe uma renda básica de R$ 130 por mês na moeda social Mumbuca para consumir no próprio município.

Coletividade é central - ainda mais na crise

De volta ao Extremo Sul de São Paulo, Valquiria Cândido apostou no trabalho cooperativo para gerar renda na sua quebrada. Até 2007, ela trabalhava em uma grande empresa de coleta de lixo e percebeu a importância de desenvolver essa cultura na ponta. Quando saiu do emprego, se juntou a outras 20 pessoas do Grajaú para criar uma cooperativa. Nasceu assim a Cooperpac (Cooperativa de Catadores Seletivos do Parque Cocaia).

Fachada da Cooperpac, no Grajaú, zona sul de São Paulo, com pintura do artista Mauro - Júlia Dávila / pimpnossacooperativa.com - Júlia Dávila / pimpnossacooperativa.com
Fachada da Cooperpac, no Grajaú, zona sul de São Paulo, com pintura do artista Mauro
Imagem: Júlia Dávila / pimpnossacooperativa.com

Formada basicamente por mulheres que, em sua maioria, eram donas de casa ou trabalhadoras domésticas, o grupo precisou primeiro entender o funcionamento de uma cooperativa. Na tentativa e erro, buscando apoio de advogados e informação na Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente, em 2008 a Cooperpac foi formalizada. No início, a coleta era feita com carrinhos e as catadoras pediam para familiares e vizinhos juntarem os materiais. A casa de Valquíria servia de depósito até alugarem um lugar apropriado.

As cooperadas compraram uma perua e, em 2010, firmaram um convênio com a Prefeitura de São Paulo para fazer a triagem da coleta seletiva da região. A parceria garante aluguel e cobertura dos custos de água e luz de um galpão, além dos equipamentos.

Hoje, são 18 pessoas trabalhando - a maioria continua sendo de mulheres. Além de receber os caminhões da empresa responsável pela coleta nas ruas, o grupo tem um veículo próprio para buscar resíduos em escolas, condomínios e residências de bairros próximos. Por mês, são mais 80 toneladas processadas. Nem tudo é comercializado: 45% das embalagens que chegam não têm valor comercial.

Mais do que organizar o descarte de lixo, a Cooperpac promove a educação ambiental. Com a Covid-19, as cooperativas conveniadas estão paralisadas, e os catadores recebem um auxílio emergencial específico. Mas, antes, faziam oficinas e palestras em escolas, organizações e eventos locais sobre a importância da reutilização dos materiais e da preservação do meio ambiente.

"O trabalho em si não é só limpar, fazer a coleta e separar os recicláveis. É incentivar as pessoas a mudar seu comportamento, tomar consciência do consumo, se preocupar de onde veio seu alimento", aponta Valquíria.

"A preservação ambiental e o respeito às mulheres precisam sair da ignorância dos homens para poder nos dar a luz de seus reflexos positivos sobre a saúde e a qualidade de vida de toda a sociedade", concorda Sirlene Dias, educadora popular e presidente da Coohabras.

Fundada em 2010 após um encontro no Fórum Social Sul, a cooperativa habitacional tem o objetivo de facilitar o acesso à habitação digna a quem geralmente fica de fora do mercado imobiliário. Mais de 20% dos domicílios do país são alugados ou cedidos, e mais de 100 mil pessoas estão em situação de rua no Brasil, segundo estimativas do IPEA de 2016.

Atualmente, a cooperativa tem quatro áreas coletivas para beneficiar 700 famílias em Paranaíba (MS), Chapecó (SC), Fartura (SP) e Paranapanema (SP) - este último é o mais adiantado, em fase de obras. Entre os titulares das quotas, 69% são mulheres. E nas reuniões, elas são quase a totalidade. Já na cidade São Paulo, a Coohabras está em parceria com uma cooperativa de reciclagem com três centrais.

Na Coohabras, os próprios interessados em obter um imóvel investem dinheiro em uma "poupança coletiva" que é utilizada para a compra do terreno, o projeto de engenharia e de arquitetura. O desenho dos imóveis também tem participação dos futuros proprietários. Educadores populares orientam sobre os financiamentos disponíveis e a escritura é lavrada em nome do cooperado após a conclusão da obra. Sem fins lucrativos e com a compra coletiva do terreno, a obra sai mais barata.

"Todo o processo é entregue a preço de custo, totalmente cooperativo e em economia solidária. No empreendimento de Paranapanema, os cooperados são os trabalhadores contratados, então praticamos economia circular e o que ele paga para a cooperativa volta para ele em salário nesta fase do projeto", diz Sirlene.

"Desta forma podemos criar comunidades com uma tal capacidade de resiliência, que em tudo fortalecerá a identidade e os vínculos entre as mulheres e as famílias, integrando também os homens numa sociedade regenerada e junto à natureza. Um lugar onde as mães possam criar seus filhos em comunidades solidárias e não mais na condição de 'solitárias', como infelizmente as metrópoles têm proporcionado", conclui Sirlene.

Articulando diferentes áreas, os trabalhos de Sirlene, Valquíria e Bárbara são exemplos pequenos, mas potentes, que propõem uma economia pensada territorialmente, de forma coletiva e com atenção a cada indivíduo envolvido — formato que não antagoniza com a manutenção da saúde pública. "Precisamos urgentemente incentivar outra maneira de gerar trabalho e renda, e a economia solidária é uma alternativa viável", acredita o cientista social Diego Veiga.

*A Periferia em Movimento é uma produtora de Jornalismo de Quebrada fundada em 2009 em São Paulo que gera e distribui informação dos extremos ao centro.