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A potência do extremo sul da cidade de São Paulo na agricultura familiar

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

02/07/2020 04h00

O almoço depois da escola era brócolis e batata cozida com sal e azeite, preparado pelo meu avô. Tudo produzido no quintal de casa, que também tinha mexerica, mamão, alface, couve e um tanto de galinhas correndo pelo terreno. O pé de mexerica era ponto de encontro dos amigos do meu irmão. Eles se sentavam em volta da árvore e ficavam por horas fazendo piada sem graça de adolescentes.

Eu lembro direitinho de tudo, nossa vida era em torno da terra, das coisas do quintal e de tudo que meu avô semeava ali. A experiência de cuidar das coisas, olhar para elas cotidianamente e de pegar na terra. Que delícia foi nascer e crescer nesse lugar.

Em 2018, voltei ao território, dessa vez a trabalho, para rodar Parelheiros e mapear os cantos rurais, conhecer os agricultores, ouvir histórias, todas acompanhadas de um bom café. O projeto era o Ligue os Pontos, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano de São Paulo. Foram alguns meses, diversas conversas e caminhadas por terrenos, plantações e muitos presentes dos produtores - tantos, que por vezes não cabiam no trem de volta para casa.

Faço uma pausa na narrativa, para pedir licença para a minha companheira de campo, que com seu olhar primoroso e detalhista, esteve comigo nesse pedaço de diagnóstico sobre os agricultores da zona sul, Mônica Ribeiro. Abaixo, compartilho com vocês, um pequeno trecho da nossa pesquisa:

Produtores agrícolas da zona sul - Reprodução/Governo de SP - Reprodução/Governo de SP
Imagem: Reprodução/Governo de SP

"Quando chegamos à unidade produtiva de Dona Massue, chovia, e ela estava preparando mudas para o plantio. Rodeada por vários cães, logo veio nos receber. Gentileza é palavra que parece ter nascido com ela.

Massue é uma das primeiras agricultoras orgânicas da região, ?da primeira leva?, como ela mesma define. Com 74 anos, o corpo magro e flexível lembra o de uma menina. A disposição para aprender coisas novas também. Trabalha na produção com o marido e um dos quatro filhos. Os outros três estão no Japão, o mais velho há mais de 15 anos.

Verduras de vários tipos, PANCs, morango e laranja estão entre os cultivos de Massue. Um tipo de morango branco, vindo do Japão, é uma novidade que ela está plantando e vendendo, e que tem sabor muito mais doce que o tradicional.

Depois de nossa conversa, Massue surge com um líquido precioso: caldo de cana com morango. Esse produto, beneficiado com os morangos produzidos por ela e a cana cultivada por outra agricultora da região, Tomi, é vendido também na feira. Em uma volta pela propriedade, comemos jabuticaba do pé e os morangos brancos, de uma doçura sem igual. Esbarramos em vacas que ajudam na adubação - e produzem leite que, segundo ela, só o marido toma. A chuva impediu uma última travessura de sabor: colher lichia no pé."

Recordar é trazer de volta ao coração. Nas andanças pude revisitar meu território. Fomos hospedadas pelas agricultoras Valéria e Vânia, do sítio Boas Novas, que nos receberam com boa comida e muitas histórias - percorridas e registradas.

O projeto Ligue os Pontos ainda atua no território e lançou, nas últimas semanas, um amplo estudo sobre os agricultores da zona rural Sul de São Paulo e as unidades produtivas onde trabalham. O objetivo é orientar o planejamento de políticas públicas que fortaleçam a agricultura, a geração de renda e a preservação ambiental da cidade.

A base de dados utilizada é o Cadastro das Unidades de Produção Agropecuária da zona rural Sul da cidade de São Paulo, levantamento inédito na capital paulista realizado no primeiro semestre de 2019, em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Ao todo foram cadastradas 428 unidades de produção agrícola da zona rural Sul, sendo 171 no distrito de Parelheiros, 169 em Grajaú e 88 em Marsilac. Entre os principais resultados do cadastro, pode-se destacar que o agricultor da zona rural Sul é majoritariamente masculino (70%), casado (70%), com idade entre 35 e 59 anos (55%), reside com a família e possui apenas o Ensino Fundamental (45%). Trabalham, em sua maioria (80%), em propriedades de pequeno porte, com até 20 hectares.

Pela pesquisa o perfil desse produtor é majoritariamente masculino (70%), mas as mulheres são 30% dos responsáveis pela unidade produtiva. Mas o número de mulheres trabalhando na produção diária também é significativo, mas não levantado na pesquisa.

Infelizmente a pesquisa não mostra informações sobre raça/cor entre os agricultores da região. Esse ponto é extremamente necessário para um perfil genuíno da região. Procurei a equipe técnica do Ligue os Pontos para entender essa falta de dados com esse recorte.

O estudo mostra que as propriedades menores estão localizadas próximas às áreas urbanizadas e ao longo dos braços da Represa Billings, o que mostra o efeito da pressão urbana. Já as propriedades maiores estão localizadas em áreas mais afastadas dos núcleos urbanos, especialmente na região de Parelheiros e na bacia da Represa da Guarapiranga.

Os dados levantados também apontam que apenas um quarto do total da produção é comercializada. Entre os quase 62% dos agricultores que afirmaram comercializar sua produção ou parte dela, 47% declararam ainda ter rendimento mensal inferior a mil reais. O que faz com que 41% do total dos produtores exerçam outra atividade fora da propriedade como complemento de renda. Dado que se apresentou já em nossas primeiras conversas com eles em 2018, principalmente os mais jovens. Mas apesar de um longo caminho para ajustar problemas e enfrentar os desafios, 60% dos produtores enxergam um futuro onde os jovens assumam as responsabilidades pela produção.

O que houve durante a pandemia e a necessidade de quarentena?

No início da quarentena muitos agricultores familiares sofreram com a dificuldade de escoar alimentos. A incerteza das vendas vinha principalmente dos produtores convencionais, já que a popularidade dos produtos orgânicos segue crescendo. A diferença entre o perfil dos agricultores e do valor entre produções convencionais e orgânicas ainda é muito grande. Inclusive, um dos eixos de atuação do projeto, em parceria com a Casa de Agricultura de Parelheiros, é prestar assistência técnica rural, com a visita quinzenal de agrônomos às propriedades cadastradas. Além de oferecer suporte e ajudar na melhoria da produção, os técnicos explicam sobre a importância da transição agroecológica, principalmente no que diz respeito aos impactos na saúde e meio ambiente.

No cinturão verde de São Paulo, toneladas de alimentos foram destruídos por agricultores, sem possibilidade de venda ou até mesmo de doação por falta de transporte para distribuição. Lembrando que os 7.000 produtores do chamado cinturão verde da região metropolitana de São Paulo respondem por 25% do abastecimento nacional de verduras.

Comunidades Quilombolas, Caiçaras e a Periferia de São Paulo conectadas

A roça quilombola e a pesca artesanal caiçara aproximaram mundos que pareciam distantes antes da pandemia da Covid-19. Moradores das periferias de São Paulo, duramente atingidas pelo vírus, encontraram um traço de união e apoio, de comunidade para quilombo, de comunidade para comunidade, no alimento produzido com resistência e afeto.

Em dois meses e diversas articulações e parcerias, a Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira (Cooperquivale), com sede em Eldorado (SP), e a comunidade caiçara da Enseada da Baleia, na Ilha do Cardoso, conseguiram distribuir um total de cerca de 14 toneladas de comida de verdade para famílias da região do Capão Redondo, na zona sul, e da Vila Brasilândia, na zona norte da capital paulista.

Os carregamentos com até 26 variedades de produtos como peixe seco, cará, inhame, laranja, banana, limão, mamão, rapadura, taiada, entre outros, chegaram em maio e junho aos bairros, que lideram o triste ranking com mais mortes por Covid-19, segundo levantamento da Prefeitura de São Paulo com dados atualizados até o dia 5 de junho.

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também tem realizado ações de doação de alimentos produzidos por seus integrantes em acampamentos e assentamentos pelo país.

Tais exemplos são importantes para reforçar a conexão campo e cidade, que é fundamental e urgente!

O direito à alimentação, negado a muitos brasileiros em contextos normais, em uma situação de pandemia se agrava e se transforma em fome. A previsão de especialistas é que o país irá triplicar o número de pessoas em situação de extrema pobreza. Eram 13,8 milhões em 2019, quando a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) informava que o Brasil estava de volta ao Mapa da Fome, posição que havia deixado em 2014.

As ações de distribuição de alimentos, que hoje ocorrem por causa da pandemia, precisam se tornar política pública, visando o amplo acesso a uma alimentação adequada nesses territórios periféricos. Os produtores precisam também de subsídios para produção em grande escala e venda com valores acessíveis para a população. É fundamental que os territórios periféricos consumam alimentos produzidos nas regiões rurais da cidade.

Precisamos popularizar ainda mais a alimentação segura e familiar, transformando-as em prato principal e cotidiano nas mesas das pessoas e nas escolas públicas. E para que os jovens permaneçam no campo, com a possibilidade de potencializar a agricultura familiar nos territórios, planejando e pautando um futuro para a alimentação saudável.

Mariana Belmont