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Fred Di Giacomo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O Brasil é uma grande boate de Goiânia

Israel e Rodolffo. (FOTO: Reprodução) - Reprodução / Internet
Israel e Rodolffo. (FOTO: Reprodução)
Imagem: Reprodução / Internet
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

24/03/2021 09h56

O cantor sertanejo Rodolffo, natural de Uruaçu (GO), se livrou, ontem (23), do paredão do Big Brother Brasil por uma diferença de menos de 1%. Ele e a atriz Carla Diaz estavam em uma disputa acirrada para ver quem deixava o programa televisivo mais popular do país. Rodolffo é famoso por sucessos de sua dupla com Israel, como "Também sei fazer falta" (mais de 38 milhões de plays no Spotify), e o feat em "Declaração pro bar" (mais de 67 milhões de plays no Spotify) de Guilherme e Benuto,

O que levou o goiano a ser indicado, de última hora, pelo líder Gil foi a declaração "Como que leva esse menino de vestido para as boates de Goiânia?", após o cantor Fiuk experimentar um vestido para usar na festa daquela noite. Gil, que é homossexual, não gostou do que Rodolffo chamou de "brincadeira". Rodolffo ainda completou: "É, as chérrima (os gays) vão nele [Fiuk]".

Gil usou a homofobia de Rodolffo, seu aliado naquele momento, para indicá-lo ao paredão. Famosos como Cleo Pires, Tati Quebra-Barraco e Bruno Gagliasso foram ao Twitter pedir a eliminação do cantor. O Brasil das redes sociais parecia ter uma só voz.

A exceção eram "só" as duplas sertanejas. Acontece que no Brasil, hoje, o sertanejo não é uma voz dissonante, mas, sim, o gênero mais popular do país. Aí que está o pulo do gato que os modernos do sudeste seguem ignorando.

Sertanejo, agro e Bolsonaro

Entre Mano Brown e Gregório Duvivier, entre Lula e Marcelo Freixo, entre o Leblon e a Rocinha; existe um gigante desconhecido da elite intelectual brasileira que alguns chamam de Brasil profundo, outros de Brasil real e eu chamo apenas de casa.

Casa, sim, porque me criei em Penápolis, uma cidadezinha de interior pouco maior que a Uruaçu de Rodolffo. A música dominante nos churrascos e rádios AMs lá na minha terra sempre foi o sertanejo. Quem não tinha sítio trabalhava para alguém que tinha. Quando ainda não existia escada rolante na cidade, nem elevador (como disse uma vez a humorista Sabrina Sato no finado programa do Jô Soares), eu tinha um vizinho que trabalhava como carroceiro e um grupo de vizinhos que trabalhavam como bóias-frias.

Todos meus amigos gays só saíram do armário quando se viram bem longe daquela cidade onde o que mais se vê pelas ruas são farmácias, botecos e igrejas, muitas igrejas. Ria-se sem culpa das piadas politicamente incorretas em qualquer situação. Aliás, dois dos penapolenses mais famosos tornaram-se humoristas do polêmico "Pânico na TV": Sabrina Sato e Guilherme Santana.

E foi lá ,onde nasci, lá onde as panelas não batem quando o presidente mente, que Jair Bolsonaro teve 75,15% dos votos no segundo turno. Na Uruaçu, de Rodolffo, a lavada foi até menor: 59,35% para Bolsonaro.

Rodolffo e Caio, outro goiano, este fazendeiro natural de Anápolis (GO), passam os dias no reality brasileiro falando do campo, de animais, da vida rural. Tem gente que acha forçado. Nunca botaram o pé no interior do país. É uma região dominada pelo agronegócio, o único setor da economia que cresceu em 2020 e que domina nossas exportações com o declínio da indústria nacional. É a região que criou o sertanejo, o gênero mais tocado nas rádios e plataformas de streaming do Brasil. E é do interior do país que vem Bolsonaro e Lula, as duas maiores forças da política nacional hoje.

Como fazer com que as "boates de Goiânia" respeitem os meninos de vestido?

Ontem (23), dia em que as votações por minuto do BBB batiam recordes, a Globo exibiu um VT de Rodolffo dizendo para Fiuk que havia sido criado em uma cidade pequena onde as pessoas eram racistas e homofóbicas. Que ele queria melhorar, mas que as pessoas não tinham paciência com ele. Depois de se safar do paredão por pouco, Rodolffo, que declarou voto em Jair Bolsonaro em 2018, disse que o "o mundo está cheio de mimimi" (algo que meus conterrâneos de Penápolis vivem repetindo nas redes sociais).

Rodolffo e Fiuk terminaram sua DR abraçados. Existe alguma chance desse diálogo entre esses dois Brasis acontecer? E se acrescentarmos nesse debate o Brasil de Lumena — a BBB negra, lésbica e ativista nascida na Bahia?

Rodolffo e Fiuk - Reprodução/Globoplay - Reprodução/Globoplay
BBB 21: Rodolffo brigou com Fiuk
Imagem: Reprodução/Globoplay

Sei que o clima no Brasil é tenso. No grupo de WhatsApp da minha cidade recebo, com susto, fake news dizendo que um tal vermífugo é 90% eficiente contra o coronavírus, mas qual a chance do país mudar se o coração do país não mudar junto? Qual a chance de meninos de vestido andarem tranquilos nas "boates de Goiânia" se não convencermos os Rodolffos do Brasil de que cada um veste o que quiser; ama quem quiser?

O termo "boate de Goiânia" aqui é uma referência direta à fala de Rodolffo. É óbvio que Goiânia não se resume ao sertanejo. A "boate de Goiânia" é Uruaçu, é minha Penápolis natal e é Caetés (PE), onde Lula nasceu. A "boate de Goiânia" é o Brasil e quem não entendeu isso, ainda, está por fora.

Sei que "quem tem fome tem pressa" e quem é ameaçado de morte tem mais pressa ainda. Difícil ter paciência com quem te ofende. Mas é esse Brasil "boate azul" que tem o dinheiro, as rádios, as armas, a igreja e o presidente. Se você não pode vencer pela guerra, vai ter que convencer pela diplomacia.

Na madrugada de ontem, enquanto as panelas batiam nos bairros ricos da capital paulista contra o presidente Bolsonaro, o resto do Brasil decidia que Rodolffo deveria vencer o paredão. Foi o mesmo Brasil que decidiu que Jair Bolsonaro venceria a eleição em 2018.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL