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REPORTAGEM

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Eu disse sim à maior prova de ciclismo amador do país (e consegui "vencer")

Consegui concluir a prova de 102 km no Rio de Janeiro, depois de uma passagem bem-sucedida pelo Alto da Boa Vista - Cláudio Capella / Fotop
Consegui concluir a prova de 102 km no Rio de Janeiro, depois de uma passagem bem-sucedida pelo Alto da Boa Vista Imagem: Cláudio Capella / Fotop
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Diego Salgado

Repórter do UOL desde 2015, com passagens por Estadão e Portal 2014. Ciclista há 20 anos na cidade de São Paulo, já pedalou por 10 países e atravessou sozinho a América do Sul e a Europa. A Oceania é o próximo desafio.

26/11/2021 12h00

A distância de 102 quilômetros não assusta. Talvez por isso, este colunista não pensou duas vezes em aceitar o convite do Strava, aplicativo de monitoramento de ciclismo e corrida, para participar do L'Étape Rio de Janeiro, considerada hoje a maior prova de ciclismo amador do Brasil. Embora seja impactante, tal marca centenária já faz parte da minha rotina há três anos.

Outro ponto me deixou confortável para encarar o belíssimo percurso no último domingo (21): eu estava bem treinado para participar. Nos últimos 18 meses, pedalei 16.525 quilômetros nas ruas de São Paulo, em 270 dias de entregas de comida, por praticamente todos os bairros da capital e, também, em algumas cidades da região metropolitana. Além disso, tenho duas grandes cicloviagens na bagagem: de Porto Alegre a Santiano, em 2018, em um trajeto de 1.939 quilômetros em 27 dias, e de Barcelona a Amsterdã, em 2019, em 2.028 quilômetros em 29 dias.

No dia mais longo nas entregas, alcancei a marca de 168 quilômetros, em 11 horas seguidas de atividade física intensa, com mais de 28 kg de alimentos na bagagem. O L'Étape, portanto, parecia seu mais simples, mesmo com a minha inequívoca falta de experiência em provas deste tipo: seria a minha estreia. Acrescente aí outro ingrediente: um não usaria uma bicicleta speed. A minha companheira nas entregas por São Paulo iria ao Rio também.

Para evitar contratempos, troquei praticamente todas as peças da minha mountain bike. Coloquei-a numa mala apropriada e peguei um voo rumo a Rio, na véspera da prova. Embora estivesse acostumado às longas distâncias na cidade, eu não fiz qualquer tipo de preparação alimentar. A parte mental, mais importante que a física, na minha avaliação, porém, estava treinada há tempos.

Diego Rio - Rapha Rodrigues / Strava - Rapha Rodrigues / Strava
Fechei a prova em 4h39, competindo com uma mountain bike, em meio a centenas de modelos speed
Imagem: Rapha Rodrigues / Strava

Eu também fui mau aluno. Assisti ao briefing apenas na véspera, dias depois de analisar rapidamente o mapa e tomar conhecimento que a prova teria um trecho extremamente difícil, no Alto da Boa Vista. A ladeiras e subidas, que fizeram parte até dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016, tornaram-se, então, uma preocupação constante.

O percurso da prova era o seguinte: largada e chegada ocorreram na Marina da Glória. Na primeira parte, nós competidores alcançamos Copacabana depois de passarmos por Flamengo e Botafogo. Depois, seguimos até o Leblon, onde entramos no Jardim Botânico até o Alto da Boa Vista. Em seguida, retornamos até Botafogo, para uma parte complicada: quatro voltas entre o bairro e a região portuária da cidade.

O começo da prova

A largada aconteceu pontualmente às 5h12, horário do quinto pelotão, onde eu estava. Meu objetivo era terminar a prova entre quatro e cinco horas. Para isso, a minha velocidade média teria que girar em torno de 20 a 25 km/h. No trecho plano, pensei em buscar a marca de 30 km/h, a fim de compensar a baixa velocidade da serra. Em tempo: comecei a prova de máscara, pois havia aglomeração na largada. Depois de 30 minutos, passei a pedalar sem ela.

Diego medalha - Carol Brandão / Fotop - Carol Brandão / Fotop
Minha medalha recebida por ter terminado a prova: o que menos importou foi a colocação
Imagem: Carol Brandão / Fotop

De imediato, senti que seria possível alcançar a velocidade pensada. O equipamento estava leve. Uma circunstância, no entanto, passou a me afetar bastante. Quase todos os competidores estavam de speed e passavam por mim com extrema tranquilidade. A parte mental, meu forte, já não respondia tão bem. Passei, pois, a buscar outros competidores com mountain bike. Num universo de mais de 1.000 bicicletas, encontrei apenas três.

Até o começo da subida, que começou no km 18, tive dificuldades de concentração, também pelo peso enorme que seria encarar o Alto da Boa Vista sem nunca ter sequer passado de carro por lá.

Serra bem-vinda

Ao contrário do que se anunciava, o Alto da Boa Vista foi a melhor coisa que me aconteceu. Lá, consegui me igualar às bikes speed. Deixei muita gente para trás e voltei a me fortalecer mentalmente. Ainda, entretanto, seria preciso vencer as descidas em curvas sinuosas. Um desafio e tanto para um ciclista inexperiente nesse tipo de cenário.

Diego Serra - Vinícius Cabral / Fotop - Vinícius Cabral / Fotop
Subida da serra se tornou o ponto mais forte da minha corrida no Rio de Janeiro
Imagem: Vinícius Cabral / Fotop

A situação piorou quando, pouco atrás de mim, um ciclista perdeu o controle e sofreu um acidente - logo atendido pelos fiscais da prova. A partir daquele momento, a uns cinco quilômetros do retorno ao Jardim Botânico, minha ideia era descer as ruas com o máximo de cuidado, sem preocupação com velocidade, a fim de terminar a prova bem.

Apesar de bem-vinda, a subida deixou rastros. Eu já sentia dores no lado externo dos dois pés. Preferi utilizar tênis em vez de sapatilha, pois nunca andei clipado na cidade e seria temeroso estreá-lo justamente na minha primeira prova. Havia um pouco de incômodo no joelho e também nas costas, mas sem grandes preocupações.

Strava 1 - Reprodução - Reprodução
O dia mais longo nas entregas de comida: quase 170 quilômetros em 11 horas
Imagem: Reprodução

Uma batalha com a cabeça

O trecho final da prova tinha 49 quilômetros e começava em Botafogo. Naquele momento, eu teria quatro trechos de 11 quilômetros, até a região portuária, passando pelo túnel Marcello Alencar. Ao chegar lá, teria de voltar a Botafogo, completando a segunda perna de 11 quilômetros. Em seguida, era preciso repetir tudo e ainda fechar os cinco quilômetros finais, de Botafogo à Marina.

Talvez pelo peso das idas e vindas, mesmo num percurso plano, essa etapa da prova se mostrou a mais complicada. Além das dores nos pés, os pelotões passavam por mim como flechas. Além disso, eu já não conseguia manter a velocidade de 30 km/h. Eu, sob muito esforço, atingia 25 km/h.

Strava 2 - Reprodução - Reprodução
Meu resultado na L'Étape Rio: 102 quilômetros em aproximadamente 4h30
Imagem: Reprodução

Após a segunda perna, porém, a cabeça começou a enxergar o fim da prova. A 27 quilômetros do fim, eu tinha certeza que terminaria bem o desafio. Restava, então, alcançar o tempo entre quatro e cinco horas. Mantendo 25 km/h, descontando o tempo de parada para reidratação e alimentação, eu conseguiria.

Ao fim, completei os 102 quilômetros em 4h39, na 758ª colocação entre 844 competidores homens e mulheres. O vencedor foi o Argentino Francisco Chamorro, com a marca de 2h41. Outras 302 pessoas competiram na prova de 46 quilômetros. Depois de experimentar todas a atmosfera da prova, já tracei uma meta para 2022: treinar em bikes mais rápidas e buscar uma melhor posição, com um pouco mais de conhecimento e técnica.

Para efeito de comparação, no dia em que percorri 168 quilômetros em São Paulo, a altimetria foi de 1.851 metros, com velocidade média de 15,2 km/h. No L'Étape, a altimetria atingiu 960 metros, e a velocidade média, 21,9 km/h.