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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A história de uma viagem de bicicleta do Brasil ao Chile

A chegada ao Chile, depois de passagem pelo sul do Brasil, Uruguai e Argentina - Arquivo
A chegada ao Chile, depois de passagem pelo sul do Brasil, Uruguai e Argentina Imagem: Arquivo
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Diego Salgado

Repórter do UOL desde 2015, com passagens por Estadão e Portal 2014. Ciclista há 20 anos na cidade de São Paulo, já pedalou por 10 países e atravessou sozinho a América do Sul e a Europa. A Oceania é o próximo desafio.

08/06/2021 12h21

O trecho a seguir faz parte da introdução do livro De Oceano a Oceano - Uma travessia de 1.939 km de bicicleta. A cicloviagem foi feita por mim em setembro/outubro de 2018.

Havia sangue no asfalto. Sangue fresco, que escorria até o meio-fio, onde dezenas de pessoas já se acotovelavam pelo próximo capítulo daquela cena urbana e violenta. Dali era possível ver o motorista do micro-ônibus na tentativa vã de explicar o acidente a um policial. O dono do sangue estava morto. Perto dali, a companheira chorava sentada à beira do asfalto, distante dos holofotes. Lamentava que havia feito as pazes com ele horas antes do acidente. De uma hora para outra, desesperou-se e precisou ser amparada por duas mulheres.

Eu estava lá. Havia chegado segundos depois do atropelamento. Ao lado da minha velha bicicleta, assisti às cenas seguintes em pé, atrás do grupo de espectadores ávidos por mais informações. Eu vi a morte de perto. Dessa vez, ela estava viva, paradoxalmente viva. Ao ver tudo aquilo, apuros que eu havia passado nos últimos 34 dias vieram à mente.

Do túnel escuro e a disputa desleal com caminhões, já no Chile, ao vento implacável na Cordilheira dos Andes, ainda no lado argentino, numa resposta breve da natureza ao meu desafio irresponsável a ela. Da noite na estrada sem acostamento em meio à região desértica da Argentina ao cansaço surreal do primeiro dia da longa viagem, em que desisti duas vezes de tudo aquilo.

As histórias e todos dos receios estiveram comigo o tempo todo, assim como o prazer de atravessar o continente, ver paisagens inimagináveis e experimentar o lado bom da solidão na estrada. Eu realmente tinha encontrado a paz e, para falar a verdade, aquilo foi a melhor coisa que já tinha feito na vida. Tudo estava guardado na cabeça ou traduzido em letras miúdas e desorganizadas num pequeno caderno de bolso. No instante em que a realidade se apresentava assim tão verossímil, o medo, a vulnerabilidade e a insegurança falavam bem alto. E ao ver aquela cena tão brutal, eu voltei a experimentar todos aqueles sentimentos.

O local do acidente fatal era o ponto final de uma viagem idealizada, produzida e executada por mim. Foi numa madrugada comum, meses antes, que decidi que naquele exato espaço eu daria a última pedalada. A praia, que começou a dar as caras ainda em Viña del Mar, entrava na história como o capítulo final de uma ideia surgida quase cinco semanas antes. Eu queria pedalar de Rio Grande, no litoral gaúcho, até Valparaíso, cidade chilena da costa do Pacífico. Ir sozinho era minha primeira condição.

Na minha contagem, 1.920 quilômetros já tinham ficado para trás quando comecei a sentir a maresia vinda do Pacífico no rosto. Faltavam apenas 19 quilômetros. Já era possível celebrar quando o azul do Oceano Pacífico se apresentou de forma imponente naquela manhã agradável de primavera. Eu, de fato, já me sentia um vencedor há dias, mas reencontrá-lo me fez encher o peito para os últimos quilômetros daquela longa viagem. Dali em diante, eu teria de seguir na orla para vencer a divisa quase inexistente entre Viña del Mar e Valparaíso.

Viña del Mar e Valparaíso são como irmãs siamesas. Grudadas, sem qualquer aviso de limítrofe físico entre elas. Apesar disso, quando o mapa impõe a divisão, as características mudam aos poucos, até ficaram completamente distintas. Eu senti isso quase na pele, porque as orlas maravilhosas e coloridas já haviam ficado para trás. Com elas, as ciclovias tão bem-vindas também já não faziam parte do cenário.

De uma hora para outra, tudo era cinza, tudo era asfalto, tudo era cidade. Por isso, recoloquei os pneus da bicicleta na concorrência injusta com os carros e ônibus da avenida que margeia o oceano. Era questão de tempo para que o ponto de chegada fizesse parte daquela história, enfim. Nem mesmo um susto me roubaria a chance de aproveitar tudo aquilo. O micro-ônibus passou perto, é verdade, senti a lataria triscar meu ombro. Mas eu já estava perto. Faltavam menos de cinco quilômetros.

Não tardou para que tudo acabasse. Eu olhei para o meu destino, mantive as pedaladas firmes, com a ponta dos pés. Parei na calçada e desci da bicicleta: 1.939 quilômetros tinham ficado para trás. A sensação de promessa cumprida era enorme, e eu já podia tirar fotos, registrar o momento para sempre. Mas havia um corpo no chão, atropelado pelo mesmo micro-ônibus que flertou com meu ombro. Aquele sangue fresco no asfalto, que escorria lentamente até o meio-fio, poderia ter sido o meu.

Não era hora de celebrar nada. Nada fazia sentido. Eu só queria voltar para casa. Empurrei a bicicleta até o outro lado da grande avenida. Dei algumas voltas sem graça pela cidade, acanhado e medroso. Em menos de duas horas, eu já estava na rodoviária, prestes a subir num ônibus rumo a Santiago. No dia seguinte, apanharia um avião com destino a São Paulo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL