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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pessoas LGBTQIA+ têm a mobilidade urbana limitada pela violência

Eduardo Anizelli/Folhapress
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

01/07/2022 04h00

A avenida parou para a diversidade passar, mas não foi a primeira vez e não será a última. No dia 28 de junho celebramos o Dia do Orgulho LGBTQIA+, comemoração que se estende por todo o mês de junho.

A data remonta à rebelião protagonizada por Marsha P. Johnson - mulher trans, negra e ativista - no bar Stonewall, em Nova York-EUA, contra a repressão policial. O bar, que hoje é um importante lugar de memória, localiza-se na Christopher Street, rua demarcada como um espaço de resistência e que passou a nomear a celebração em diversas partes do mundo, o "Dia da Libertação da Christopher Street".

Vinte e oito anos depois, na cidade de São Paulo, pela primeira vez a Avenida Paulista é tomada por cores, reivindicações políticas e gritos de liberdade. Inicialmente chamada de "Parada do Orgulho GLT- Gays, lésbicas e travestis", com o tempo e amadurecimento do movimento, tornou-se a "Parada do Orgulho LGBTQIA+", sigla para lésbicas, gays, bixessuais, transgênero/transexuais/travestis, queer, intersexo, assexual e o símbolo +, que inclui, por exemplo, sem se limitar, pansexuais, crossdresser e pessoas não binárias.

A rua é um lugar de resistência e transformação, mas também é, para muitas pessoas, lugar do medo. Apesar dos longos anos de luta acumulados pelo movimento LGBTQIA+, os dados que revelam a violência sofrida por essa população são crescentes. E os principais alvos são corpos de pessoas transexuais e transgênero - sobretudo as travestis negras (pretas e pardas), conforme demonstra o Dossiê - Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2021, pesquisa coordenada por Bruna G. Benevides e publicada pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil).

Não é coincidência serem justamente esses corpos que se colocam no mundo de uma forma que confronta diretamente a heteronormatividade e binariedade de gênero. Isto é, um sistema formado exclusivamente por, respectivamente: pessoas heterossexuais, cuja orientação sexual tem como objeto o gênero considerado oposto; e cisgênero, cuja identidade de gênero corresponde àquela que lhe foi atribuída no nascimento.

O medo faz com que seja um desafio diário coisas tão simples como andar de mãos dadas, vestir a roupa que te faz bem e feliz em um ônibus, caminhar sem preocupação pelas ruas e encher alguém de beijos e abraços em uma área pública, em vista do risco de agregações física e psicológicas ou violações com desdobramentos irreversíveis.

Embora espalhada por todo o território nacional, a violência não ocorre de maneira homogênea, porque algumas áreas estão mais sujeitas à violência que outras, tais como bairros periféricos, áreas rurais e zonas com concentração de trabalhadoras sexuais -que são frequentemente alvo de violência, conforme demonstra o mesmo Dossiê da Antra, principalmente quando travestis, população para qual o trabalho sexual é, muitas vezes, o único caminho depois de serem rejeitadas e abandonadas por suas famílias e excluídas pela sociedade.

Quando o destino é a Parada do Orgulho LGBTQIA+ (que em São Paulo ocorreu no domingo do dia 19 de junho), à medida que as ruas, ônibus e trens aproximam-se da área central - em relação a qual quase sempre existe uma equivalência entre a grandeza da distância e o nível de exposição à violência -, as roupas tornam-se mais coloridas e alegres e as pessoas sentem-se mais confiantes para expressarem-se livremente da maneira com a qual se sente mais à vontade, uma vez que a percepção de segurança aumenta. Isso ocorre pois, provavelmente, a intolerância da família, vizinhança e entorno inseguro ficam para trás.

Apesar do crescimento das manifestações e da visibilidade das reivindicações do movimento, já faz quatro anos seguidos que o Brasil é o país que mais mata a população LGBTQIA+ no mundo, segundo dados do Relatório do Observatório de Mortes e Violências contra LGBTQIA+.Tudo isso altera e prejudica profundamente os padrões e possibilidades de deslocamento dessa população, por conseguinte, seus direitos de desfrutarem da cidade sem medo.

E se pudéssemos nos unir contra a transfobia, homofobia e qualquer tipo de intolerância e discriminação para assim transformar o cotidiano e colaborar para que as ruas sejam de fato lugares de celebração e de segurança para todos, todas e todes?

Nesse ínterim, seguimos ocupando as ruas com manifestações de orgulho e resistência, sem tirar do horizonte as palavras de Marsha: "Enquanto o meu povo não tiver seus direitos garantidos em todos os EUA, não há motivo para comemoração", trecho retirado do documentário "A morte e vida de Marsha P. Johnson".

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* Colaborou Le Becker Savastano, mestre em arquitetura e urbanismo.