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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Falta de acessibilidade impacta a qualidade de vida e autonomia dos idosos

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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

17/12/2021 04h00

Ao não acolher os corpos que envelhecem, as cidades tornam-se inimigas do tempo. Apesar das mudanças da pirâmide etária — meio visual para visualizar a proporção da população segundo faixas etárias — revelando o aumento da população idosa, as áreas urbanas carecem de infraestrutura adequada para quem tem 60 anos ou mais. O que significa deixar de atender as necessidades de milhares de pessoas, isto é, mais de 29 milhões segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Entraves à mobilidade contribuem para o isolamento e perda de autonomia de pessoas idosas, gerando desdobramentos negativos para a saúde emocional, psicológica e física. Por isso, o Estatuto do Idoso - Lei Nº10.741/2003 - logo nos primeiros artigos, deixa claro que às pessoas idosas são assegurados todos os direitos fundamentais e todas as oportunidades para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social em condições de liberdade e dignidade. Portanto, por lei, tudo isso deve ser assegurado pela família, comunidade, sociedade e pelo Poder Público.

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Olhar para a configuração do sistema de mobilidade das cidades, ou seja, o conjunto constituído pelas calçadas, ciclovias, linhas de ônibus etc., nos obriga a reconhecer inúmeras contradições no que diz respeito à consolidação de meios para que pessoas idosas tenham esses e outros direitos assegurados. A primeira coisa que salta aos olhos são as dificuldades encontradas logo ao colocar o pé para fora de casa, onde um buraco ou desnível podem tornar-se a causa de fraturas graves e até mesmo de danos irreparáveis.

Os desafios para a mobilidade de pessoas idosas não param por aí, estendem-se por pontos de ônibus, estações de trem, equipamentos públicos e tantos outros ambientes necessários à realização de atividades básicas como cuidar da saúde, se alimentar, levar e buscar a neta ou neto na escola. É urgente ampliar e atualizar o imaginário da maioria da população que conserva a visão de que as pessoas idosas exercem um papel secundário na sociedade, social e econômico.

Tal pressuposição, materializada por meio de palavras e ações cotidianas, também pode receber o nome de etarismo. Infundado, como são os preconceitos, o etarismo desconsidera a centralidade que pessoas idosas ocupam em grande parcela dos lares, como provedoras e cuidadoras, em muitos ambientes profissionais, como pessoas experientes, além de suas capacidades intelectuais e de sabedoria.

Diante de um ambiente urbano hostil, às pessoas idosas resta contornar dificuldades como semáforos para pedestres que fecham em um piscar de olhos, assentos exclusivos não respeitados pela população e até serviços exclusivamente digitalizados, que podem ser desafiadores para gerações formadas antes da revolução tecnológica e assim geram um cenário de exclusão digital que atinge, sobretudo, pessoas idosas de baixa renda.

Tais dificuldades e hostilidades do ambiente urbano impactam também pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, ou seja, pessoas para as quais as cidades não foram historicamente projetadas e desenhadas.

Entender a cidade como desenho, portanto provido de autoria e intencionalidade, contribui com a percepção de que as ruas, edifícios, parques e outros equipamentos públicos não são um mero acaso do destino, e sim frutos de planos, projetos e obras.

Nesse sentido, ao reconhecer um traçado mal feito - ou bem feito a partir de um ponto de vista reduzido que atende apenas uma parcela muito específica e beneficiada de público - , é preciso redesenha-lo com mais atenção e consideração à diversidade de corpos. Tal como foi proposto pelo Programa Calçada Segura, na cidade de São José dos Campos/SP.

Inaugurado em 2010, o programa tornou-se referência ao promover o diálogo entre as secretarias responsáveis por diferentes temáticas como urbanismo, meio ambiente, transporte e obras, assim como entes privados, por exemplo, durante processos de formação profissional de calceteiros, que são exatamente o que você pensou: pessoas que constroem calçadas.

Mas, um dos pontos que considero mais emblemáticos do programa são as ações educativas realizadas por agentes comunitários com idade acima de 60 anos, cujo papel é não só identificar prioridades de implementação, como também de sensibilizar a comunidade no que diz respeito à necessidade de adequar as calçadas aos padrões indicados pela prefeitura, o que também contribuiu para reintegração de pessoas idosas ao mercado de trabalho e das demais relações sociais.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL