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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Casagrande perdeu emoções por 6 anos: 'Você usa droga para não sentir dor'

Em entrevista ao VivaBem, ex-jogador e comentarista fala sobre os impactos emocionais da dependência química e como chegou à abstinência total - Simon Plestenjak/UOL
Em entrevista ao VivaBem, ex-jogador e comentarista fala sobre os impactos emocionais da dependência química e como chegou à abstinência total
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

Do VivaBem, em São Paulo

31/08/2022 04h00

Quando estava com 15 anos, Walter Casagrande Júnior fez um trato com si mesmo: não deixaria de viver intensamente. Tinha acabado de perder uma das irmãs, Zildinha, de 22 anos. Ela era a sua melhor amiga e morreu após um infarto fulminante, enquanto brincava com os filhos. "Eu engoli a seco a morte dela e decidi que não ia mudar meu ritmo de vida. Via meus pais sofrerem todo dia e não queria sofrer também."

De maneira inconsciente, ele achou que não podia chorar. "Ficou aquela raiva, tudo para dentro, algo insuportável", lembra. Para diminuir a angústia, o então adolescente intensificou o uso de maconha, porque fazia nada doer. Mas a fuga do sentir duraria décadas.

Da maconha, Casagrande foi para a cocaína, heroína e anfetamina. O ex-jogador usou drogas por 37 anos e, durante seis, devido à intensa dependência, não se lembra de ter sentimentos. Passou por quatro internações e, hoje, aos 59 anos e sóbrio há sete, diz que compreender as emoções foi o maior desafio.

"Parar de usar droga em um tratamento fechado [como em clínicas de recuperação] é a coisa mais fácil do mundo, porque lá dentro não tem. Difícil é o lado de fora. Você deve entender que é um dependente químico e precisa cuidar da saúde mental', diz Casagrande

Casagrande - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
Casagrande viveu 'descontrole de sentimentos' após internação: 'Não entendia se tinha ou não emoção'
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

A frieza da cocaína

No final dos anos 1990, após a aposentadoria dos gramados, a frequência e a quantidade de substâncias aumentaram. "Eu virei um dependente químico mais ou menos em 98, 99. Antes eu usava droga, mas ainda tinha relacionamento com os meus filhos, ia ao clube jogar bola com eles", recorda.

Sem perceber, as consequências não demoraram a surgir e ele se afastou das pessoas, além dos sentimentos ficarem opacos.

Depois de muitos anos de cocaína, você fica um cara frio, nada mexe muito com você emocionalmente, você não chora, quase não ri. Ninguém que usa cocaína fica contando piada.

Ele pouco se lembra de sentir algo entre 2001 e setembro de 2007, quando teve um surto psicótico e capotou o carro em São Paulo. Após o acidente, foi internado involuntariamente pelo filho mais velho, Victor Hugo, na sua segunda passagem pela reabilitação.

"Eu não me via um dependente químico, pensava ser capaz de parar a qualquer momento e que devia sair da clínica, só que o meu filho tinha de autorizar", diz. Como assinava o pagamento da mensalidade, Casagrande decidiu parar. Pensou o óbvio: se não quitasse os débitos, uma hora seria expulso. Mas desistiu quando três ou quatro boletos se acumularam, após um psicólogo questioná-lo se queria voltar a viver como antes.

Veio então a parte mais difícil do tratamento: defrontar-se com as emoções. Após tanto tempo sem sentir nada, era difícil compreender tudo o que vinha à tona. "Na internação, os processos são todos paralelos, você tem muito para resolver dentro de você, uma porrada de coisas que você perdeu ou nunca teve e precisa descobrir."

Casagrande: 'Se não resolver traumas, o cérebro vai dar a opção que sempre deu, que é usar droga' - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
Casagrande: 'Se não resolver traumas, o cérebro vai dar a opção que sempre deu, que é usar droga'
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

A dependência química é uma doença crônica, normalmente com causas múltiplas —uma teia que inclui fatores genéticos, sociais e emocionais, por exemplo. Por isso, o tratamento é complexo e demanda, sobretudo, suporte à saúde mental e mudanças no comportamento do adicto.

Para Casagrande, especificamente, foi preciso revisitar memórias incômodas que tinha desde criança.

Eu tive traumas de infância que interferiram muito na minha mente. É aí que entra a realidade do tratamento em saúde mental, você aceitar que é dependente e partir para cima dos problemas emocionais. E a maioria não quer porque dói. Muito. Eu fui um deles, você usa droga exatamente para não sentir dor. Quando você vai fazer o tratamento, tem que ter coragem.

'O prazer da vida é esse?'

Casagrande teve coragem. Ele ficou internado por um ano e confrontou muitos demônios. Fora da clínica, também participava de grupos com outros dependentes químicos. De lá, ia para casa. Estar sozinho após tanto tempo foi difícil, porque ainda não entendia a proporção do que sentia.

Os sentimentos ficam descontrolados. A paixão era muita paixão, o amor era muito amor. Eu não sabia como eu sentia as coisas. Você não sabe o que sente pelas pessoas, se está mesmo acontecendo algo que condiz com a felicidade ou não.

Outro desafio foi se habituar ao prazer "comum". O uso crônico das drogas acostuma o mecanismo de recompensa do cérebro ao alto estímulo das substâncias, um prazer intenso, algo que, nem de longe, compete com as sensações normais da vida.

"Como a droga tem alto potencial de disparar estímulos, o dependente acaba sempre optando por aquela substância. Outras atividades, como relações interpessoais, trabalho e mesmo coisas que geram prazer, como sexo e passeios, ficam sutis para o cérebro", explica a psiquiatra Dângela Lassi, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Casão diz gostar de 'coisas pacatas'. Na foto, posa com bonecos do amigo e ex-jogador Sócrates (à esq.) e do diretor de cinema Quentin Tarantino - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
Casão posa com bonecos do amigo e ex-jogador Sócrates (à esq.), morto em 2011, e do diretor de cinema Quentin Tarantino
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

Sem as drogas, não demorou para Casagrande se questionar se viver era "só" aquilo mesmo. "Eu vi muita gente depois que tem alta do grupo terapêutico, com um tempo na rua, falar: 'O prazer da vida é esse? Isso que é legal?'. Porque o cara se tratou, mas quando sai está esperando um p*ta prazer, e a vida não tem. Você se habituar a esse prazer mediano é uma coisa difícil e o dependente químico tem de abrir espaço para coisas novas. A gente usa droga há 20 anos, vai gostar de quê? Não gosta de nada mesmo."

Nesse processo, o suporte de psicólogas foi essencial para redescobrir experiências. Elas o acompanhavam no cinema e teatro ao menos três vezes na semana, além de outras ocasiões. Isso ajudou Casagrande não só a se entreter e criar uma rotina, mas a acostumar o cérebro a novos hábitos —e prazeres. As saídas também funcionavam como uma terapia instantânea para tratar eventuais aflições do momento.

Hoje, quando fico sozinho em casa, vem na minha cabeça de ir tomar um café, ir ao cinema. Antes, eu pensava: 'Pô, vou usar droga'.

Abstinência total

A última internação de Casagrande foi em 2015. Ele buscou voluntariamente a clínica duas vezes naquele ano e, na última, pediu para ser tratado como se estivesse na primeira passagem. Queria parar de beber e organizar a rotina. O consumo de álcool não era abusivo, mas virou refúgio para mitigar o sofrimento após a morte da mãe, Zilda, em setembro de 2013. Ele também tinha voltado a cheirar cocaína.

"O psiquiatra falava que eu não podia beber e eu dizia que não tinha problema com álcool. Não posso fazer uma happy hour de sexta à tarde com os meus amigos? Eu estava contrariado, continuei fazendo happy hour e, obviamente, fiquei patinando", conta.

Permaneceu internado por sete meses, em um modelo híbrido, porque precisava se sentir livre. Saía, geralmente acompanhado pelas psicólogas, para atividades de rotina —como caminhar no Parque Ibirapuera (SP), ir ao cinema, ao teatro e trabalhar.

Casagrande deixou a clínica quando a equipe médica sentiu que ele estava pronto para praticar a abstinência do lado de fora. Nunca mais bebeu, mas precisou de autocontrole. "Uma vez fui fazer palestras no Ceará, viajava o estado todo. Um baita calor, todo mundo tomando caipirinha, passava aquela cervejinha e eu ficava com vontade."

Colocou em prática o que a psicóloga lhe havido ensinado e pedia água gelada com limão espremido. "Ela disse: 'Não se engane, quando você tiver vontade de tomar uma cerveja gelada, é sede. Não é a cerveja, é qualquer coisa gelada'. Eu tomava, passava a sede e esquecia que existia cerveja."

Casagrande considera sobriedade a sua maior liberdade - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
Casagrande considera sobriedade a sua maior liberdade
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

Em 2019, também parou com o cigarro. Diz que "desaprendeu" após passar a semana em uma clínica de medicina chinesa. Perguntou se podia fumar, ouviu que sim, mas olhou e "não tinha um cinzeiro, era tudo flor, pavão, arara voando". Achou que acender um cigarro não combinava com o ambiente e, quando saiu, esqueceu do que fazer depois de colocá-lo na boca. "A fumaça nem entrava, eu punha na boca e não sabia o que fazer."

O tratamento de abstinência total é defendido por especialistas, porque é comum que uma pessoa com dependência prévia desenvolva adicção por outra substância. Isso ocorre porque o que capitaneia a doença é a compulsão, que pode incentivar a busca por estímulos que compensem o déficit no sistema de recompensa do cérebro —álcool, remédios com potencial de abuso e até mesmo jogos eletrônicos, por exemplo.

"Não existe cura, porque a doença não desaparece do cérebro. Tem que ter vigilância. Uma vez que o cérebro é sensibilizado à substância, ele tende a buscar novamente. Só que quanto mais tempo sem uso, mais fácil fica de controlar impulsos e fissuras", explica a psiquiatra Dângela Lassi.

Mania de perseguição

O condicionamento físico dos tempos de atleta ajudou Casagrande, que teve quatro overdoses e nenhuma sequela. Mas ele sentiu diversos impactos emocionais da dependência, incluindo a persecutoriedade —sentimento patológico de perseguição.

Quando teve o surto psicótico, em 2007, ele via demônios. Depois, veio a sensação de que as pessoas tentavam atingi-lo, com olhares e palavras, e a impressão de ser seguido. "Eu achava que era real, um complô contra mim. Fiquei muito tempo assim, acontecia de repente."

Acredita que isso se formou ao longo dos anos, porque vivia receoso: pensava que qualquer carro de polícia o pararia e, por ser uma pessoa pública, temia ser visto usando drogas. "A cocaína com uso excessivo já te deixa muito perto de ter um surto psicótico. Você tá muito louco na rua e a persecutoriedade vem quando você acha que qualquer carro de polícia tá te olhando, todo mundo percebendo."

Caveiras, nos anéis, representam vida para Casagrande; Em ida ao Rio de Janeiro há alguns anos, ele acreditou ser seguido por carros e motos na Avenida Brasil - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
Caveiras, nos anéis, representam vida para Casagrande
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

Com o tempo e terapia, o tratamento evoluiu. Há muito ele não se sente persecutório, mas, se acontece, consegue perceber os sentimentos logo de início e freá-los. "É doloroso ficar assim, péssimo. Machuca, porque você entra quase em surto psicótico. E como que eu vou falar? Vou dizer: 'Não posso trabalhar, porque eu estou persecutório'? Não vão nem saber o que é e pensar que eu estou usando droga de novo."

Não interessa mais o que as pessoas têm nas mãos

A Copa do Mundo de 2018, na Rússia, abriu um capítulo importante na trajetória de Casagrande. No dia da final, ao vivo na TV Globo, após a França vencer a Croácia, o então comentarista disse que aquele era o mundial mais importante da sua vida, por ser o primeiro evento totalmente sóbrio e sozinho. Na Copa de 2014, ele ainda bebia e, nas Olimpíadas de 2016, tinha a companhia de psicólogas e da cantora Baby do Brasil, sua ex-namorada.

Chegar sóbrio, permanecer sóbrio e voltar para minha casa sóbrio era o lema. Ele conseguiu e chorou —muitos de nós também, ao assistir ao depoimento.

'Na Rússia,  as pessoas bebiam e eu nem percebia, porque o meu foco não é mais esse', conta o ex-jogador - Simon Plestenjak/UOL - Simon Plestenjak/UOL
'Na Rússia, as pessoas bebiam e eu nem percebia, porque o meu foco não é mais esse', conta o ex-jogador
Imagem: Simon Plestenjak/UOL

Ele entendia a dimensão daquilo, mas a ficha demorou alguns dias para cair. Casagrande se sentia estranho, porque notou não se lembrar das mãos de ninguém. "Eu fiquei preocupado, pensando que tinha acontecido alguma coisa comigo. Cheguei ao Brasil e já fui à psicóloga."

Lá, compreendeu o simbolismo. Percebeu que as mãos, que por anos roubaram a sua atenção segurando latinha de cerveja, copo com bebida, drogas, perderam a importância. "Eu tinha mudado o foco, o que as pessoas tinham nas mãos não me interessa mais. Quando ela me falou isso, eu pensei: 'Nossa, eu alcancei um patamar interessante'."

Para o Qatar, que sedia a Copa do Mundo a partir de 20 de novembro, Casagrande diz que irá atento, como colunista do UOL. "Eu estou indo confiante, mais tranquilo, mas nunca desinteressado ou despreocupado. As escolhas que eu tenho que fazer lá são as mesmas que eu faço aqui."

Estar sóbrio é uma vitória, talvez uma das maiores em sua vida. E um dos principais trunfos, com certeza, é voltar a compreender o que sente. Boa Copa, Casão.