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Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


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Ele decidiu buscar ajuda para tratar alcoolismo: 'Chega de perder quem amo'

Geovani Gilberto trata alcoolismo com ajuda do grupo Alcoólicos Anônimos - Arquivo pessoal
Geovani Gilberto trata alcoolismo com ajuda do grupo Alcoólicos Anônimos Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

14/10/2021 04h00

Por volta de 2015, Geovani Gilberto trocou a compulsão alimentar pelo vício em bebidas alcoólicas. Realizou a cirurgia bariátrica e, aos poucos, foi ficando cada vez mais dependente do álcool. Teve depressão, ideações suicidas e chegou num ponto que precisou ser internado em um hospital de Joinville (SC), cidade onde vive.

Aos 41, o fiscal de transporte conta que a ajuda da família, principalmente da ex-esposa, dos amigos e da comunidade dos AA (Alcoólicos Anônimos) são essenciais para sua recuperação. Leia a seguir o relato completo de Geovani:

"Eu pesava mais de 160 kg e passei pela cirurgia bariátrica. Sabia que tinha um risco de trocar o vício pela comida por outro. No meu caso, a compulsão acabou indo para a bebida.

Mas o alcoolismo começou devagar. Em 2015, era casado e fazia faculdade. O problema é que quando eu bebia, mesmo em pequenas doses, eu já tinha alguns 'apagões'. Eu me transformava em outra pessoa, mudava totalmente a personalidade.

Cheguei num ponto que eu tive, também, depressão. Na verdade, não sei o que veio antes, se a depressão ou o alcoolismo. Mas tudo foi se agravando e eu comecei a ter ideações suicidas.

Isso tudo, com certeza, atrapalhou meu casamento, porque eu bebia e, quando ela chegava em casa do trabalho, eu estava dormindo, totalmente apagado e alcoolizado.

Ainda nesta época, quando estava casado, minha então esposa me dava muito apoio. Foi ela quem me levou ao Caps AD [Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Outras Drogas] e lá comecei a me tratar. Melhorei, mas tive uma recaída muito forte.

Preferi sair de casa porque não queria que meu filho e minha esposa me encontrassem naquela situação e, de repente, sem vida —as ideias suicidas eram muito fortes. Fui morar com um amigo, porém também não deu muito certo por causa da situação toda. Mesmo assim, eu não procurava ajuda.

Geovani  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Geovani conta com apoio do AA e do Caps
Imagem: Arquivo pessoal

Esse meu amigo insistiu, mas eu não conseguia dar o primeiro passo. Então, aluguei um apartamento e saí da casa desse colega. Um dia, meu pai e minha ex-mulher apareceram em casa para me resgatar.

Passei a noite toda bebendo e, por isso, resolveram me levar para a casa da minha irmã. Almocei por lá e fui internado à tarde.

Não esqueço dessa data até hoje: 15 de outubro de 2019. Fiquei internado 15 dias na ala psiquiátrica de um hospital em Joinville.

Neste intervalo internado, ocorreu o casamento da minha irmã e não pude estar presente. Depois desse período, fui para a casa dos meus pais, onde voltei a morar em um quartinho.

No começo, tomava remédios antidepressivos —e ainda tomo— que me causavam muitos efeitos colaterais. Ficava sem emoções, não conseguia interagir com ninguém. Passava horas sentado na área externa de casa.

Enquanto esperava o divórcio sair, permaneci como dependente no plano de saúde da minha ex-mulher. Fazia acompanhamento psicológico, psiquiátrico, além de terapia ocupacional.

Grupo dos Alcoólicos Anônimos me ajuda muito

Neste ano, os papéis do divórcio saíram e, agora, peguei encaminhamento da psiquiatra para retomar meu atendimento pelo Caps.

Dentro dos grupos, há todos os tipos de pessoas viciadas em vários tipos de drogas. Tem desde uma pessoa que vive em situação de rua até o empresário.

Já fiz o acolhimento no centro e, nesta semana, começo a participar dos grupos do Caps. Também vou continuar participando do AA, de maneira virtual —inclusive, algumas pessoas se sentem mais confortáveis assim do que de forma presencial.

No começo, tinha muito preconceito e resistência em participar do AA. Mas a partir do momento em que fiz parte dali —olha o que disse: fazer parte—, minha mente abriu demais para as questões de álcool e drogas.

Hoje, não tenho problema algum em falar abertamente sobre isso porque é algo que quase toda família vivencia ou já vivenciou.

Quando contei minha história no Twitter e em outras redes, muitas pessoas deixaram comentários de casos na família ou delas próprias.

No mesmo lugar que vende arroz e feijão, vende álcool

Nunca fui de sentar em uma mesa de bar e beber. Sempre comprava a bebida, escondia dentro de uma sacola, e bebia enquanto caminhava na rua, sozinho.

O álcool virou um objeto para qualquer relação social: as pessoas saem para tomar drinques e, em churrascos, sempre têm que levar cerveja ou outra bebida. Nunca usei outras drogas, mas digo que o álcool é a pior delas.

Não sei onde posso encontrar crack ou cocaína, mas sei, de cabeça, onde vende álcool. No mesmo lugar que vende arroz, feijão e pão, eu também encontro o álcool.

Então, você passa pelos locais e as pessoas podem beber tranquilamente, ninguém vai estranhar. Socialmente, o álcool é muito aceitável, em qualquer ambiente.

Geovani Gilberto - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Geovani segue tratamento contra alcoolismo
Imagem: Arquivo pessoal

Nunca esqueço que, durante o tratamento, fui na casa de um casal de amigos e disse que não iria beber. Esse amigo falou a seguinte frase: 'não confio em uma pessoa que não bebe cerveja'.

Cansei de perder quem eu amo

Nesta caminhada de recuperação, contei com o apoio de muitas pessoas. Uma grande amiga me dava o maior apoio, principalmente na parte mais pesada da depressão. Conversávamos sempre.

Também é importante enaltecer minha ex-esposa. Ela foi muito importante nos primeiros passos da minha cura, foi a pessoa que ficou mais próxima de mim. Minha irmã, meus pais e meus amigos do sindicato também ajudaram muito.

Depois que saí da internação, fiquei um ano e meio sem beber, mas depois eu voltei. Estou há uma semana sem beber. Fiz isso um dia antes de ir ao AA e começar este novo ciclo.

Tenho um filho de 13 anos, que é a pessoa mais doce e carinhosa que conheço. Nos damos muito bem. Mas o pior de tudo é que ele foi testemunha, uma vez, de um dos meus rompantes. Isso me machuca muito e tenho vergonha. Não quero que ele veja isso nunca mais.

Há uns quatro meses, posso dizer que, um dia, acordei totalmente diferente. Os dias foram passando e, cada vez mais, fui me sentindo mais feliz. Comecei a me preocupar mais comigo, me cuidar mesmo e, principalmente, a sorrir mais. Não tenho mais aquela depressão de antes.

Antes, sentia muita dor e angústia, não tinha esperança e nem planos para o futuro. Hoje, tudo mudou. Estou no meu apartamento, tenho muitos planos e quero crescer.

Também quero recuperar o tempo perdido com meu filho e estreitar cada vez mais os laços com ele. Desejo acompanhar todas as coisas que ele faz e, assim, ser mais participativo na vida dele, tanto nos momentos de tristeza quanto nos de alegria.

Chega de perder quem eu amo porque, quando a pessoa bebe, ela deixa de aproveitar os melhores momentos da vida, as oportunidades de abraços, beijos e carinho.

Gosto dessa frase e espero que mais pessoas possam se identificar com ela para que deixem de fazer algo que possa ser prejudicial a ela, como ocorre com o alcoolismo."

O que é alcoolismo?

É uma doença crônica que se instala depois que uma pessoa faz uso contínuo, descontrolado e progressivo do álcool. Diversos fatores contribuem para isso, como quantidade e frequência, saúde da pessoa e aspectos ambientais, psicológicos, sociais e genéticos.

O consumo deixa de ser algo prazeroso e passa a impactar toda a vida da pessoa. Caracteriza-se como transtorno por uso de álcool quando, independentemente da frequência e da quantidade, essa pessoa tem sinais de alterações de comportamento.

"Ela fica agressiva e inapropriada, por exemplo, afetando principalmente as relações familiares, além de impactos nas capacidades ocupacionais", diz Arthur Guerra, psiquiatra e presidente executivo do Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool).

Em consulta médica, é comum o paciente entrar em negação e falar que não bebe, segundo o psiquiatra. "Além disso, há uma certa arrogância desse paciente e, também, uma projeção, ou seja, colocar sempre a culpa em alguém ou algo para o consumo do álcool."

Há tratamento?

Sim, depende de cada caso. Mas é importante que a pessoa ou a família procure ajuda de um psiquiatra. "Não existe um padrão, mas, em geral, em dependências mais graves, obtemos muito sucesso quando iniciamos a abstinência total do uso de álcool", explica Guerra.

O tratamento deve envolver ainda atendimento psicológico, grupos de apoio (como o AA) e presença da família. Prática de atividade física também ajuda na recuperação do paciente. É possível obter ajuda pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Para isso, basta buscar um Caps em sua cidade ou uma UBS (Unidade Básica de Saúde).

Caso você esteja pensando em cometer suicídio, procure ajuda especializada como o CVV e os Caps da sua cidade. O CVV funciona 24 horas por dia (inclusive aos feriados) pelo telefone 188, e também atende por e-mail, chat e pessoalmente. São mais de 120 postos de atendimento em todo o Brasil.

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