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Sono, ansiedade, menopausa, vitamina B12: tudo isso pode afetar sua memória

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Denise Brito

Colaboração para VivaBem

11/01/2022 04h00

"Cadê o carro?" O motorista anda pelo estacionamento jurando nunca mais esquecer onde parou o veículo. Pequenas falhas de memória se tornam cenas clássicas do cotidiano por sua repetição, podendo gerar maior ou menor impacto na vida das pessoas.

"Meu esquecimento é contínuo. Esqueço as palavras e o que estava falando no meio da frase, um branco total... Isso fez com que ficasse um pouco insegura nas apresentações de projetos", relata Ju Fioroto, 41, diretora de arte.

Mesmo para quem os lapsos não são habituais, podem ocorrer sustos. "Há poucos dias planejei uma reunião. Preparei o material, instruí pessoas e marcamos para a manhã seguinte. Esqueci completamente. Só lembrei quando me ligaram, preocupados. Foi a primeira falha com algo importante", conta Fábio Greco, 63, empresário.

Vários fatores influenciam direta e indiretamente o desempenho da memória e, segundo neurologistas, apenas uma parte das reclamações que chegam aos consultórios está relacionada diretamente a ela, caso das demências, por exemplo.

A maior parte dos problemas decorre não de falhas na estrutura ou funcionamento fisiológico da memória, mas, sim, de interferências no caminho que uma informação precisa trilhar para ser satisfatoriamente memorizada e cujo principal ingrediente é a atenção.

Trata-se de um circuito com três etapas que a informação precisa percorrer para que seja gravada e esteja disponível quando solicitada: aquisição, consolidação e evocação. Elas ocorrem em estruturas do cérebro como lobo temporal, lobo frontal, hipocampo, amígdala e outras, variando conforme a fase do processo e o tipo de memória armazenada.

Assim, o cérebro seleciona uma informação atribuindo a ela uma importância emocional, conscientemente ou não, a retém e a resgata quando é requisitada.

A atenção decide

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Imagem: Keren Fedida/Unsplash

Existem vários tipos de memória, com diferentes mecanismos de armazenamento. No dia a dia, milhares de informações são manipuladas apenas por instantes e logo se apagam na chamada memória de trabalho. É o caso do número de telefone que se decora momentaneamente para uma única ligação ou a percepção da cor do carro de aplicativo que se utilizou.

"É comparável ao computador quando enviamos um documento para a impressora. Ele armazena temporariamente, imprime o que precisa e joga fora do buffer", compara Ivan Okamoto, neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein (SP).

As informações mais relevantes, e que tiverem percorrido em boas condições o trajeto entre as áreas do cérebro, podem passar para a memória definitiva, a de longo prazo. Nesse sentido, as boas condições de percurso da informação podem ser resumidas em uma pessoa atenta e focada, com o cérebro saudável e descansado.

"A atenção é parte do mecanismo da memória. É preciso estar atento para guardar a informação que se deseja", afirma Okamoto. "O sistema atencional funciona tanto na aquisição da informação quanto na sua evocação. Não adianta jogar uma informação no computador se eu não tiver um caminho de arquivamento."

Quando a atenção fica dividida, o processo de memorização é prejudicado pela falta de foco. É o caso, por exemplo, de uma pessoa que conversa com outra tendo barulhos em volta ou que está ouvindo alguém enquanto mexe no celular.

"A atenção é o elemento usado para a pessoa definir o que será gravado ou não na memória. Existe uma falsa ideia de que se consegue manipular várias informações ao mesmo tempo. A gente não tem essa capacidade toda", afirma Sonia Brucki, neurologista e professora da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

"Você decide para onde vai prestar sua atenção. É um processo de decisão seu. Se você faz várias coisas ao mesmo tempo, a chance de diminuir sua atenção em várias delas é muito grande, e sem atenção, não vai memorizar."

Há quem tenha naturalmente maior ou menor facilidade para memorização, devido a questões constitucionais, inerentes à própria pessoa. As condições do ambiente, no entanto, sempre serão um fator de influência para melhor ou pior desempenho, segundo Gustavo Melo de Andrade Lima, neurologista professor do Ipemed (Instituto de Pesquisa e Ensino Médico).

É o caso do excesso de estímulos ou da escassez de horas de sono. "Por cansaço ou fadiga, a pessoa vai ter dificuldade em passar pelas três etapas de absorver, reter e evocar a informação", afirma.

"Muita gente se queixa atualmente, acha que tem o diagnóstico de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), mas não tem. Ocorre que as informações hoje são tão dinâmicas e a demanda, tão grande, que o cérebro não suporta, pois há um limite. A atenção fica tão dividida, que quando a pessoa precisa focar, não consegue. As pessoas acham que está ocorrendo algum problema, mas é um excesso de demanda", explica Lima.

Interferências não percebidas

Cérebro, máquina do tempo - iStock - iStock
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A atenção dada a atividades que se elegem como prioritárias pode ajudar a entender o fato de serem menos suscetíveis a esquecimentos. "Às vezes, estou dirigindo e esqueço para onde estou indo. Já aconteceu várias vezes quando estou com muita coisa para fazer. Outro dia falei para minha afilhada que adorei o relógio dela. E ela: 'Claro, você que me deu'. Só que minha memória não falha no meu trabalho, lembro de todos os detalhes. Também lembro de tudo que meu marido me fala, quando ele tenta mudar uma história, pego no pulo", conta Marlucy Lukianocenko, 50, jornalista e editora de livros.

Muitas vezes, sem que se perceba, grandes dificuldades de memória ocorrem durante momentos de fragilidade mental, como na privação de sono, na sobrecarga mental por estresse e em distúrbios como depressão e transtornos de ansiedade.

São quadros que têm em comum prejuízos de memória e de atenção, além de perda da capacidade de resolução de problemas diários, devido a alteração em áreas do cérebro como as relacionadas à regulação do humor, motivação e planejamento, segundo Karine Martins, mestra em psicologia pela UFAL (Universidade Federal de Alagoas), especialista em neuropsicologia e em psicologia cognitivo comportamental.

Nos casos de ansiedade, as alterações podem ocorrer também na área relacionada a memórias emocionais, como o medo condicionado. "Tendo essa área hiper ativada, a amígdala, a pessoa fica em estado de alerta para ameaças, comprometendo a atenção e, consequentemente, prejudicando a memória. Pelas várias áreas envolvidas, a atenção é tão vulnerável a interferências, como à privação de sono, à preocupação, fome, entre outros fatores", diz Martins.

Por isso, na hora de prova às vezes pode dar zebra. "No vestibular, mesmo sabendo a matéria, não consegui lembrar na hora as fórmulas de matemática e física. Algumas palavras de inglês também, mesmo comuns. Foi uma época de muita ansiedade e estresse, dormia muito pouco, acordando algumas vezes de madrugada", conta Marcelo Peron, 18, estudante.

"A situação é mais preocupante quando esses déficits cognitivos vão se instalando e não são percebidos pelo indivíduo e, sim, por seus familiares e amigos. Nesses casos, principalmente em idosos, é fundamental que seja avaliada a possibilidade de uma síndrome demencial", explica Lívia Gitaí, neurologista e professora da UFAL (Universidade Federal de Alagoas).

O que pode afetar a sua atenção e memória

Alcoolismo, álcool, bebida alcoólica - iStock - iStock
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Alcoolismo - A ingestão excessiva de bebida alcoólica danifica as células nervosas do cérebro, afetando funções como memória e aprendizagem, levando à demência alcoólica.

Traumatismo cranioencefálico - É conhecido o risco de desenvolvimento de demência em alguns esportes, como futebol americano e boxe, por favorecerem traumas, inclusive traumas repetidos, a encefalopatia traumático crônica.

Menopausa - A alteração hormonal típica desta fase é associada a transtornos que causam insônia, sintomas depressivos ou ansiosos, que causam alteração de memória.

TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) - Uma disfunção de neurotransmissores causa transtorno da atenção e dificuldade de foco. Também parece problema na memória, mas não é.

Demências primárias - As mais comuns são o Alzheimer, mais comum em idosos, a demência associada a Corpos de Lewy e a demência frontotemporal, que acomete também jovens. A doença de Parkinson, em uma fase avançada, pode incluir déficit cognitivo.

Demências secundárias - Decorrentes de algum outro processo fisiopatológico (primário). O exemplo mais comum é a demência vascular, resultante de um AVC (Acidente Vascular Cerebral).

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Vitamina B12 - Importante para o metabolismo celular dos neurônios, sua deficiência pode gerar déficit cognitivo e dar origem à demência. Ocorre tanto em jovens quanto idosos, sendo comum, pela baixa absorção de vitamina, pacientes que se submeteram a cirurgia bariátrica, quem sofre de gastrite atrófica e adeptos do veganismo sem acompanhamento nutricional.

Hipotireoidismo - A redução da função da glândula tireoide em idosos pode levar a um quadro de déficit cognitivo e de demência pela redução do nível do hormônio tireoidiano que atua em várias funções do corpo.

Sífilis - A doença ainda é endêmica no Brasil e a forma de neurossífilis envolve um quadro demencial. Sempre é incluída nos exames de investigação de memória.

Dicas para manter a memória em dia

  • Estresse baixo é bom

O estresse é desejável para o processo de aprendizado e até necessário para um mínimo de atenção. É preciso chegar ao nível considerado ótimo, de estresse e de atenção, para a melhor produtividade. "A pessoa largadona, sem nenhum estresse, está com a atenção lá embaixo", diz Okamoto. "Se o nível de estresse ultrapassar o ponto, o desempenho atencional cai. Por isso a recomendação para se ter sempre um hobby, uma atividade física, uma válvula de escape para diminuir a ansiedade. Este é um dos motivos de não compensar varar a noite estudando para uma prova."

  • O ambiente influencia

Para favorecer o processo de absorção, retenção e evocação de informações na hora de estudar, é preciso ter atenção com foco máximo. "Recomendo tirar todos os estímulos por perto, fechar o quarto, janela, tirar o celular de perto, manter a atenção no ponto principal até passar pelo processo. Isso também significa estar com o cérebro saudável e equilibrado, pois após uma noite de insônia ou de bebida vai ser difícil", diz Andrade Lima.

  • Estratégia mnemônica

Ao estacionar o carro, associar informações ajuda a memorizar o local da vaga utilizada. A cor do veículo, por exemplo, a letra de identificação do piso, combinados com dados pessoais podem reforçar a possibilidade de evocar a lembrança do que se deseja.

  • Atividade física
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Exercitar-se faz bem às funções mentais, pois aumenta a produção de alguns neurotransmissores, reduz o impacto do estresse, promove a qualidade do sono, ajuda a combater ansiedade, depressão e fatores de risco para derrame cerebral.

  • Atividade mental

Estimular a formação de sinapses desde a infância através do estudo e de experiências significativas ajuda a compor uma boa reserva cognitiva. "Uma reserva cognitiva alta, com muitas sinapses neuronais ajuda o cérebro a tolerar algumas perdas sem chegar a desenvolver demência", diz Lívia Gitaí.

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