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Qualquer desatenção é TDAH? Como diferenciar distúrbio de outros problemas?

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Imagem: iStock

Diego Garcia

Colaboração para o VivaBem

01/03/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Embora tenha sintomas em comum com outros problemas, o TDAH possui um conjunto de sinais particulares que podem facilitar seu diagnóstico
  • O transtorno começa na infância e segue até a vida adulta; o que mais comum é a desatenção e a hiperatividade/impulsividade: a pessoa é inquieta
  • Por trazer prejuízos quando não tratado, o TDAH pode facilitar outras comorbidades como ansiedade, depressão e bipolaridade

Trabalhar de casa nos trouxe várias descobertas. Atire a primeira pedra quem nunca foi realizar uma tarefa, viu chegar uma notificação de uma rede social e inocentemente clicou. Depois abriu um e-mail, seguidas de várias outras janelas que nada tinham a ver com a intenção primária da busca. Dispersão não é novidade, mas nesses tempos de home office, parece que a desatenção e falta de foco aumentou muito, o que deixou muita gente preocupada se poderia sofrer o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, o TDAH.

A desatenção realmente é um dos sintomas clássicos do problema, porém não é o único. Especialistas afirmam que existem um conjunto de sinais que devem ser observados para um diagnóstico correto. Geralmente os indícios do TDAH são percebidos durante a infância, até por volta dos 12 anos. Além da desatenção, que prejudica a criança principalmente no período escolar, a hiperatividade e impulsividade também podem trazer prejuízos, principalmente na vida social.

Grande parte dos especialistas afirmam que a pessoa já nasce com o transtorno, embora outros digam que estudos recentes mostraram que é possível desenvolver o distúrbio depois de adulto. Apesar das polêmicas, é importante saber que para diagnosticar o TDAH é necessário analisar além dos sintomas do paciente, como seu histórico de vida.

Esse histórico é gerado desde a infância, com a distração e a hiperatividade. Quando adolescente, tende a ter problemas com o rendimento escolar e em realizar determinadas tarefas, principalmente as mais burocráticas e repetitivas. Esses comportamentos são levados para a vida adulta: não consegue acompanhar os estudos da faculdade, não para em emprego por ter dificuldade de realizar atividades simples, como relatórios, por exemplo, mas que exigem foco e atenção. Adulto com déficit de atenção, além da desatenção e de não conseguir ficar quieto, deixa tudo para última hora: é um procrastinador nato.

É comum ainda que pacientes adultos desenvolvam transtornos de ansiedade, crises de pânico, irritabilidade, bipolaridade, transtornos de humor e conduta e depressão. Por isso, quem é diagnosticado com TDAH deve fazer o tratamento com médico psiquiatra ou neurologista, aliado a psicoterapia, para melhora da qualidade de vida.

Cérebro de quem tem TDAH é diferente

Por meio de estudos de imagens cerebrais —e vale ressaltar que nos últimos 20 anos houve um avanço considerável na qualidade dessas imagens — foi constatado que pacientes com TDAH tem uma diferença de ritmo de maturação de estruturas do cérebro, em especial as áreas de controle motor e de tomada de decisões. Além disso, as conexões também são distintas em pacientes com déficit de atenção. Existe uma reorganização, um equilíbrio diferente e um pouco mais de conexões em outros circuitos.

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Imagem: iStock

Um estudo publicado em 2010 no periódico Ciências e Cognição e realizado por pesquisadores da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) mostrou que a neurotransmissão de catecolaminas, ou seja, hormônios como adrenalina, noradrenalina e dopamina, são insuficientes no córtex pré-frontal em indivíduos com TDAH. Isso resulta em esquecimento, distratibilidade (facilidade de desviar a atenção para o que não é importante), impulsividade e desorganização.

Tratamento exige colaboração

Após o diagnóstico do TDAH, o tratamento é feito à base de medicamentos, psicoterapia e atividades físicas. Os especialistas ressaltam, entretanto, que é necessário um esforço do paciente para que o método tenha sucesso. Não basta apenas tomar a medicação: o paciente precisa colaborar traçando estratégias para melhorar a atenção, lembrar onde deixa objetos, criar um agenda com as tarefas por ordem de prioridade, entre outras que podem ser definidas na psicoterapia.

Se você se identificou com alguns sintomas do TDAH nos últimos tempos, calma. Isso não quer dizer que você sofre com distúrbio de atenção e hiperatividade. Com a mudança de rotina, aliada aos sentimentos ligados a essa nova normalidade, ficamos mais vulneráveis a dispersar, perder o foco e o senso de prioridades.

Além disso, a mudança de ambiente traz distrações que o local habitual de trabalho não tem. Por exemplo, no escritório não temos televisão, familiares conversando ou nos solicitando atenção o tempo todo. Existem os colegas de trabalho que ajudam a manter o foco e horários a cumprir. Se sua produção caiu durante o home office ou você tem estendido as horas de trabalho, tente se organizar com as dicas dos especialistas:

  • Procure colocar os objetos sempre no mesmo lugar para não esquecer onde os deixou, assim como marcar informações importantes em um caderno ou bloco de notas;
  • Coloque alarmes no celular para se lembrar de todas as tarefas que devem ser realizadas durante o dia. Se achar interessante, pode colocar alertas para saber quando termina uma tarefa e a outra deve começar;
  • Escolha um local da casa para trabalhar e faça ali o seu escritório. Busque um local que seja mais tranquilo e não tenha muitas distrações;
  • Vista-se adequadamente para o trabalho, mesmo estando em casa. Evite o pijama ou camisola.

Fontes: André Luis Fernandes Palmini, médico neurologista e professor titular de neurologia do Núcleo de Neurociências, da Escola de Medicina e do Programa de Pós-Graduação em Medicina e Ciências da Saúde da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), chefe do Serviço de Neurologia e diretor clínico do Programa de Cirurgia da Epilepsia do Hospital São Lucas e pesquisador do Instituto do Cérebro - InsCer da PUC-RS; Antônio Marcos Alvim Soares Junior, médico psiquiatra e professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais); Mário Louzã, médico psiquiatra e coordenador do Ambulatório de TDAH em Adultos do IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas da USP.

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