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Annita reduz carga viral, mas não sintomas ou hospitalizações, diz estudo

De VivaBem, em São Paulo

23/10/2020 18h24

A nitazoxanida, vermífugo popularmente conhecido como Annita, foi capaz de reduzir a carga viral em pacientes leves de covid-19, segundo estudo coordenado pelo Ministério de Ciência e Tecnonologia. O medicamento, porém, não reduziu os sintomas analisados — tosse, febre e fadiga —, nem teve influência no número de hospitalizações.

Os resultados da pesquisa já haviam sido mencionados na segunda-feira (19) pelo ministro Marcos Pontes, que foi diagnosticado com a covid-19 em julho e participou deste ensaio clínico. Na ocasião, e sem dar muitos detalhes, Pontes disse que a nitazoxanida reduzia o contágio, a carga viral e a probabilidade de os sintomas aumentarem.

Segundo artigo publicado hoje na plataforma medRxiv, não há diferença entre o processo de cura dos sintomas entre os pacientes que tomaram o Annita e os que tomaram o placebo. Mas o medicamento "é seguro e diminuiu significativamente a carga viral, aumentando a proporção de pacientes que testaram negativo para coronavírus após cinco dias".

A nitazoxanida também não foi capaz de prevenir hospitalizações ou teve efeitos sobre resultados de exames de sangue, níveis de CRP (proteína c-reativa, produzida pelo fígado) ou biomarcadores inflamatórios.

Os pesquisadores admitem que o estudo tem uma série de limitações. Apenas três sintomas foram considerados e não foi realizado um acompanhamento de longo prazo (acima de 28 dias) dos pacientes — apenas aqueles que continuaram apresentando um ou mais sintomas depois de cinco dias foram contatados novamente.

Além disso, os voluntários foram instruídos a tomar o medicamento três vezes por dia, mas nada garante que eles tenham seguido as instruções. "Dado o controle por placebo, a não adesão [à prescrição médica] pode ter acontecido nos dois grupos", ponderam.

Os pesquisadores ainda pontuam que o perfil demográfico dos 392 voluntários — a maioria tinha entre 18 e 39 anos, poucos tinham comorbidades ou usavam outros tipos de medicamento — pode ter contribuído para os resultados favoráveis à nitazoxanida.

O artigo que relata os resultados do estudo ainda aguarda revisão por pares para ser publicado em um periódico científico internacional. O estudo foi coordenado pela pesquisadora Patricia R. M. Rocco, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Redução da carga viral

Segundo o estudo, a nitazoxanida foi capaz de reduzir a carga viral em pacientes com sintomas leves de covid-19. Essa medida mostra a quantidade aproximada de vírus nas amostras recolhidas. Saber esse número, entretanto, é uma informação de baixo valor clínico, como já apontou Alison Chaves, doutor em microbiologia e imunologia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em um artigo na revista Questão de Ciência. "Ela não tem grande significado médico, dado que essa informação não altera a conduta clínica nem se relaciona diretamente com o quadro do paciente".

No Twitter, Natalia Pasternak, doutora em microbiologia e presidente do Instituto Questão de Ciência, comentou o resultado do estudo: "O único desfecho positivo, a redução de carga viral, é questionável, já que não houve correção da carga viral basal (antes do início do tratamento). A carga viral nos dias cinco a oito não tem relevância clínica ou epidemiológica. Não houve redução de internação ou morte e a janela de transmissão é maior dois dias antes ou até dois dias após os sintomas. A carga viral menor depois disso não impacta na transmissão. Em suma, o medicamento não diminui internação, doença grave ou morte, e não tem impacto clínico nem na transmissão".

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