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Todo idoso sente dor? Não! Condição não precisa fazer parte da velhice

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Imagem: iStock

Samantha Cerquetani

Colaboração para VivaBem

09/10/2020 04h00

Sentir dor uma vez ou outra é bastante comum. E é até mesmo um sinal de alerta do nosso organismo para indicar que algo está errado. Mas imagine ter de conviver com esse desconforto todos os dias? Infelizmente essa é a realidade de muitos idosos que são afetados por dores crônicas, ou seja, que persistem por mais de três meses e, às vezes, de forma intensa.

De acordo com dados da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), estimam-se que de 20 a 50% dos idosos apresentam algum problema de saúde que causa dor. E esses números aumentam quando a pessoa é hospitalizada, variando de 45 a 80% dos casos. E mesmo quando buscam ajuda médica, mais de 50% não recebem um tratamento adequado para controlar a dor.

"A dor crônica nos idosos é uma doença por si só. Ela afeta muito a qualidade de vida, pois essas pessoas têm mais depressão, ansiedade e podem se isolar. É comum que a dor crônica seja subdiagnosticada pelos profissionais de saúde, o que compromete o tratamento", destaca Diogo Kallas, presidente da comissão de dor da SBGG.

Além disso, quem convive com a dor frequentemente pode ter a mobilidade reduzida, aumentam-se os riscos de quedas, além de distúrbios do sono como insônia.

Por que o idoso sente tanta dor

As dores que acometem os idosos, geralmente, estão relacionadas aos problemas de saúde mais comuns nessa faixa etária. Por isso, os distúrbios que afetam os músculos e os ossos estão no topo da lista.

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"A fraqueza muscular é fisiologicamente mais comum nos idosos, predispondo às quedas recorrentes e sobrecarga articular. Os fatores emocionais como a depressão, por exemplo, reduzem a serotonina, prejudicando o sistema analgésico e contribuindo para a amplificação e perpetuação da dor", explica Levi Jales Neto, reumatologista da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.

Sabe-se que as mulheres são mais atingidas pelas dores, de forma geral. Isso ocorre por conta de questões hormonais, tipo de trabalho exercido durante a vida e por terem menos massa muscular em comparação aos homens. Com o passar dos anos, é comum que os idosos tenham uma perda da massa óssea e também fragilidade nos ossos.

As doenças abaixo costumam causar dores na terceira idade:

Osteoporose: essa condição afeta os ossos, podendo acarretar fraturas. As regiões mais acometidas pela doença são costelas, quadris, pulsos e coluna. E quando há fraturas, além da dor intensa, os idosos demoram mais para se recuperar, principalmente quando precisam de cirurgias.

Algumas pessoas apresentam dores nas costas ou no pescoço devido a uma fratura de compressão, ou seja, ruptura em uma das vértebras. Essa situação proporciona dor a longo prazo, principalmente se não for tratada adequadamente.

Doença vascular periférica: é um estreitamento ou obstrução dos vasos que levam o sangue para as pernas. Por isso, ocasiona dores nos músculos da perna ou queimações enquanto o idoso caminha.

Neuropatia diabética: é uma complicação de quem tem diabetes e danifica os nervos periféricos devido aos altos níveis de açúcar no sangue a longo prazo. Geralmente, os sintomas são queimação e formigamento dos pés e mãos.

Síndrome dolorosa pós-acidente vascular: idosos que tiveram um AVC (acidente vascular cerebral) também podem ser afetados com a dor constante. Algumas pessoas relatam a sensação de queimação ou regiões do corpo doloridas. Outros ficam mais sensíveis ao toque e a temperatura, especialmente ao frio.

Dor do membro fantasma: idosos que passaram por amputações durante a vida podem sentir dor ou alguma sensação desagradável no membro que não existe mais.

Polimialgia reumática: é um distúrbio inflamatório que traz dor e rigidez muscular em várias partes do corpo como ombros, pescoço, braços e quadril. Pode ser bastante incapacitante e comprometer atividades do dia a dia.

Lombalgias: é o termo técnico para dores nas costas, mais especificamente a região lombar. Geralmente, ocorre devido ao "mau uso" da coluna durante a vida ou por esforços repetitivos, má postura, excesso de peso e pequenos traumas.

Câncer: quem enfrenta a doença pode sentir bastante dor, dependendo do local da neoplasia. Em alguns casos, dependendo do tamanho do tumor, ocorre uma pressão nos órgãos, ossos e nervos. Além disso, os tratamentos contra o câncer, como a quimioterapia, trazem dores e desconfortos em idosos.

Artrite: consiste em uma inflamação das articulações bastante comum em pessoas acima de 65 anos. Quem tem a doença sente dor nas articulações, rigidez e inchaços --sintomas que dificultam os movimentos.
Vale destacar que idosos que realizam cirurgias, apresentam insuficiência cardíaca, problemas renais ou DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) também são acometidos por dores fortes que atrapalham a rotina. Além disso, dores abdominais e de cabeça também são frequentes.

Como é feita a avaliação

Geralmente, o idoso faz o acompanhamento com um geriatra que pode identificar a causa da dor. Mas há também a possibilidade de se consultar com um especialista em dor. Durante a consulta, o médico avalia os sintomas, a localização da dor e o histórico do paciente.

É importante que seja averiguado como a dor afeta a rotina do idoso e se ele está deprimido. No exame físico, é possível checar se há inflamações, como está a marcha, se há espasmos e como está a força muscular.

Há escalas específicas que medem a intensidade do desconforto. "A dor é avaliada na consulta médica onde é pesquisada sua localização, intensidade, fatores de melhora e piora. Podemos usar escalas como a visual analógica em que o paciente classifica a dor de 0 a 10. E algumas são próprias para pacientes com demência que não sabem expressar sua dor", explica Thais Ioshimoto, geriatra do Hospital Israelita Albert Einstein (SP).

É fundamental realizar uma avaliação abrangente para entender a origem da dor antes de definir um tratamento específico. Por isso os especialistas precisam checar também se a dor está comprometendo o nível de independência do idoso.

Tratamentos e formas de melhorar a qualidade de vida

Existem diversas opções de tratamento disponíveis para controlar a dor crônica em idosos. A primeira tentativa costuma ser a indicação de medicamentos com outras ações combinadas para melhorar a qualidade de vida. O tratamento medicamentoso é realizado com várias classes de remédios que vão de analgésicos a morfina para os casos de dores muito fortes. O antidepressivo também costuma ser indicado para combater a depressão e a apatia.

"A imobilidade é um fator que piora muito a situação. Por isso, indica-se a atividade física regular para os idosos. O corpo necessita de exercício para mantê-lo sem dor. Vale natação, caminhada e musculação leve. O importante é se manter ativo", diz Marcelo Levites, clínico geral e coordenador do programa de longevidade do Hospital 9 de Julho (SP).

Os tratamentos não medicamentosos para dor incluem acupuntura, massagens, técnicas de relaxamento e psicoterapia. Podem ser indicados medidas terapêuticas como fisioterapia motora para fortalecimento muscular. Hidroterapia e pilates são opções consideradas eficientes para controle de lombalgia e dor osteomuscular.

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Imagem: Getty Images

Mas essas indicações devem ser feitas de forma individual pelo profissional de saúde. O importante é tratar a dor para evitar complicações e outros fatores que pioram a condição física e mental do idoso.

Os especialistas consultados por VivaBem reforçam que a dor não deve ser considerada uma situação inevitável do envelhecimento. "Ter um estilo de vida saudável com a prática de atividades físicas regulares, controle de peso e uma boa alimentação ajudam a diminuir os problemas de saúde e, consequentemente, no controle da dor nos idosos", diz Ishiomoto.

E os cuidadores desempenham um papel fundamental na busca pelo alívio da dor crônica em idosos. "Eles ajudam na administração dos medicamentos, transmitem as orientações para reduzir risco de queda e acompanham nas consultas médicas. Também ficam atento para os sinais de alerta e face de dor, fazem massagens e aplicam os tratamentos locais. E sabe-se que a interação do cuidador com o idoso tem importância na redução da depressão dessas pessoas", finaliza Jales Neto.

Revisão técnica: Marcelo Levites.

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