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Estresse do cuidador: o que fazer para diminuir a sobrecarga de quem cuida?

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Imagem: iStock

Samantha Cerquetani

Colaboração para VivaBem

17/07/2020 04h00

Cuidar do outro pode ser gratificante, mas exige tempo, paciência e leva a muitas mudanças na rotina. O cuidador, muitas vezes, fica responsável pela higiene pessoal, por levar ao médico, ficar de olho nas medicações e preparar a alimentação de um familiar idoso ou pessoa incapacitada por algum problema de saúde.

Como nem sempre a família tem condições de arcar com um profissional, é comum que essa função seja realizada por alguém que tenha um vínculo afetivo com quem está sendo assistido.

Essa situação envolve muita dedicação —às vezes até integral e por longos anos— causando um desgaste físico e até mesmo mental do cuidador. É comum que desenvolvam uma condição conhecida como estresse do cuidador, ou seja, uma tensão emocional decorrente do cuidado.

Muitos cuidadores deixam de realizar suas atividades do dia a dia como trabalhar, não se alimentam corretamente, dormem pouco e passam por muito estresse para cuidar de um ente querido que está impossibilitado.

"Estima-se que 30% dos idosos tenham algum grau de dependência. Por isso, eles precisam de um cuidador. Geralmente, são mulheres, com escolaridade baixa e vivem com a pessoa que está sob seus cuidados. E como não são treinadas para lidar com essa situação, algumas vezes acabam prejudicando a sua própria saúde", explica Paulo Camiz, geriatra e professor da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

Diversos estudos mostram que homens e mulheres responsáveis pelo cuidado prolongado de parentes apresentam taxas mais altas de doenças, resposta imunológica suprimida e até mortes mais precoces.

"Alguns idosos com demências, por exemplo, ficam agressivos, são teimosos e não aceitam a situação. Os cuidadores —profissionais ou familiares— ficam mais suscetíveis a problemas de saúde como dores no corpo, depressão e ansiedade", destaca Cristina Alves, diretora-superintendente da Acirmesp (Associação dos Cuidadores de Idosos da Região Metropolitana de São Paulo).

Como saber se tenho o estresse do cuidador?

Se você cuida de algum idoso ou pessoa incapacitada no momento, e acredita que está sobrecarregado e se sente esgotado, é importante averiguar esses sintomas e checar o que está acontecendo. O estresse do cuidador causa irritação, frustração, tristeza e falta de perspectiva.

Crise depressiva - iStock - iStock
Imagem: iStock

O cuidador ou a cuidadora se sente sozinho, desprotegido, com insônia, apresenta perda ou excesso de apetite e, em alguns casos, forte depressão. É comum relatarem um cansaço que não passa, descuidam da aparência e não tem tempo para si.

"É difícil termos uma estimativa de quantas pessoas são atingidas, já que os cuidadores, muitas vezes, não reconhecem os sintomas de alerta. A maioria acha que essa situação é algo normal, não procura ajuda e acaba sofrendo sozinho. Há um esgotamento sem perspectiva de cura ou evolução, pois não é como cuidar de uma criança. E ao final dos cuidados, no caso dos idosos, ainda há a possibilidade de perder a pessoa", explica Valmani Cristina Aranha, psicóloga e especialista em gerontologia e diretora da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

Outra questão que deve ser levada em conta é a dificuldade de aceitar a troca de papéis. Frequentemente, os cuidadores podem ficar confusos ou inseguros ao se tornarem responsáveis pelos seus pais, cônjuges ou amigos. E a falta de recursos financeiros e apoio também contribuem para aumentar ainda mais o sofrimento e a angústia.

Identificando o problema

O diagnóstico geralmente é realizado de forma indireta pelo geriatra ou médico que atende ao idoso/doente. Esses especialistas podem perceber que o cuidador também precisa de cuidados por causa dos sintomas apresentados e relatos do paciente.

"O estresse se apresenta inicialmente como uma forma de alarme e é mais leve. É comum esses cuidadores terem insônia ou falta de paciência nessa fase. Depois, o organismo do cuidador passa a dar respostas ao estresse: surgem as doenças como elevação da pressão arterial, taquicardia, enxaqueca ou gastrite. E, em seguida, há uma exaustão extrema que exige tratamento", relata Cristina Borsari, psicóloga e coordenadora da psicologia hospitalar da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo.

Veja, a seguir, alguns sinais que merecem atenção:

  • ansiedade e/ou depressão;
  • perder o contato com amigos;
  • estar sempre exausto;
  • irritação frequente;
  • sem energia;
  • negligenciar a própria saúde;
  • dores no corpo;
  • sentir culpa quando está longe;
  • ficar sempre preocupado e com pensamentos negativos;
  • falta de concentração;
  • dores frequentes de cabeça ou estômago;
  • imunidade baixa;
  • falta de tempo para o lazer.

Dedicação e cuidados em tempo integral

Em 2016, Claudia Azevedo, 50, passou a cuidar de sua mãe, Maria Moreira, 85, após ela ter um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Por conta do derrame, a idosa ficou totalmente paralisada e passa todo o tempo na cama.

De repente, a rotina de Claudia mudou completamente: ela teve de aprender a trocar fraldas e dar banho na pessoa que sempre cuidou dela.

Cuidadora - Thinkstock - Thinkstock
Imagem: Thinkstock

"É uma rotina estressante, fico sempre atenta na expectativa de que algo aconteça com ela. Não tenho tempo para mim, pois recebo pouca ajuda. Não tive escolha e a minha mãe agora é a minha responsabilidade", afirma.

Com o passar do tempo, Claudia, que também realizou uma mastectomia em 2012 após um câncer de mama, percebeu um desânimo frequente. Ao procurar ajuda, foi diagnosticada com transtorno de ansiedade e depressão. Ela sente falta de ter mais tempo para se cuidar e conseguir ter outros relacionamentos.

"Faço terapia em grupo e tratamento psiquiátrico para conseguir ter qualidade de vida e dormir melhor. Também tenho problemas na coluna e de artrose, já que pego muito peso. Eu a levanto da cama com frequência para que não tenha feridas no corpo. Mas, não faria nada diferente, faço tudo o que posso por ela, não deixo que se entregue ou fique triste com a situação", relata.

O que pode ser feito para diminuir a sobrecarga

Histórias como a de Claudia são bastante comuns, mas algumas atitudes no dia a dia diminuem os impactos emocionais que levam o cuidador a ter mais problemas de saúde —emocionais e físicos. O primeiro passo é estabelecer uma rotina de cuidados reais, ou seja, fazer o que é necessário e não buscar a perfeição.

É fundamental dividir as tarefas e admitir que precisa de ajuda para dar apoio à pessoa assistida.

Felicidade - iStock - iStock
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"É importante manter os exames de rotina em dia. É preciso sempre conversar com o médico sobre sintomas de depressão e ansiedade. Vale participar de grupos de apoio para desabafar e desenvolver o hábito de pedir ajuda e aceitar ser cuidado(a) também", completa Cristina Alves.

Outra questão é conseguir ter tempo para o lazer e evitar o isolamento. É fundamental manter relacionamentos com outras pessoas, não apenas com quem é assistido. Geralmente, os cuidadores passam longas horas cuidando do outro e esquecem que precisam de pausas ou de realizar atividades que tragam prazer como leitura ou assistir um filme. É necessário também manter a atividade física, tentar realizar um alimentação equilibrada e dormir bem.

Em alguns momentos, o cuidador percebe que está no seu limite. Muitos sentem uma depressão intensa e/ou mudam de comportamento, ficando mais irritados ou propensos a agressões ou desrespeito ao idoso ou pessoa doente.

"É muito importante cuidar de quem cuida. O cuidador pode perder a capacidade de lidar com essa situação. E é necessário averiguar se a pessoa não precisa buscar uma institucionalização para que o idoso ou doente tenha mais atenção e os cuidados necessários. É uma alternativa para melhorar a qualidade do cuidado, mas deve ser uma decisão individual", finaliza Aranha.

Revisão técnica: Cristina Borsari.

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