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Qual é o Remédio

Um guia dos principais medicamentos que você usa


Ivermectina é usada há mais de 40 anos contra verme, parasita e até ácaro

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Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para VivaBem

23/06/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Ivermectina é um antiparasitário capaz de combater vermes, parasitas e ácaros
  • Entre as suas vantagens, destaca-se seu efeito contra a pediculose (piolhos)
  • Bem tolerada por adultos e idosos, só pode ser usada por crianças acima dos 5 anos e 15 kg
  • É contraindicada para pessoas com meningite ou algumas enfermidades do SNC

Embora seja desconhecida de muitas pessoas, a ivermectina é um vermífugo responsável por uma das maiores intervenções de saúde em países africanos e da América Latina dos últimos 40 anos.

Em razão dos relevantes benefícios para a saúde pública, seus descobridores, William C. Campbell e Satoshi Omura, em 2015, receberam o prêmio Nobel de Medicina.

O que é ivermectina?

Trata-se de um medicamento que faz parte do grupo dos antiparasitários com ação em vários vermes e parasitas como os nematódeos, em especial o Strongyloides stercoralis, além de combater ácaros como o Sarcoptes scabiei, entre outros.

Em quais situações ela deve ser usada?

Esse medicamento só pode ser vendido sob prescrição médica. Dada a ampla utilização desse fármaco por mais de 40 anos, ele é considerado muito seguro.

Contudo, é importante que você faça o uso racional desse remédio, ou seja, utilize-o de forma apropriada, na dose certa e por tempo adequado.

A ivermectina pode ser usada nos seguintes infecções, também chamadas de infestações:

  • Estrongiloidíase intestinal, causada por Strongyloides stercolaris;
  • Oncocercose, cuja origem é o parasita Onchocerca volvulus;
  • Elefantíase (filariose), cuja origem é o Wurchereria brancrofti;
  • Lombriga (ascaridíase), causada pelo Ascaris lumbricóides;
  • Sarna (escabiose), originada pelo ácaro Sarcoptes scabiei;
  • Piolhos (pediculose), causada pelo ácaro Pediculus humanus capitis.

O seu médico pode também indicar esse fármaco para cuidados dermatológicos. Há também apresentações de uso veterinário.

Entenda como ela funciona

A ivermectina possui excelente farmacocinética, ou seja, é bem absorvida no trato gastrointestinal, até que chega ao seu alvo, efetua sua ação e se transforma em um produto a ser eliminado (metabolização). Ao finalizar sua tarefa, ela é excretada pela via fecal e renal, em um período estimado de 12 dias.

Gracinda Maria D'Almeida e Oliveira, farmacêutica e professora da PUC-PR, explica que, quanto à farmacodinâmica, ou seja, seu mecanismo de ação, "a ivermectina age contra os parasitas e vermes por meio da paralisação tônica, ou seja, atua imobilizando suas musculaturas. Isso faz que eles morram e sejam eliminados do organismo".

Conheça as apresentações disponíveis

Revectina® é a marca de referência da ivermectina. Mas você pode encontrar as versões genéricas. A apresentação disponível é comprimido 6 mg (dose única).

Embora o medicamento seja bastante seguro, é importante que ele seja utilizado somente sob orientação médica. Uma das características da ivermectina é que ela deve ser dosada de acordo com o peso corporal.

Além disso, somente o médico poderá identificar que tipo de parasita se busca eliminar, qual seria a dose ideal para você e, sobretudo, se haverá, ou não, necessidade de repetição do tratamento ou de uma terapia que combine medicamentos.

Em geral, o remédio começa a fazer efeito a partir de 4 horas de seu uso.

Quais são as vantagens e desvantagens desse medicamento?

Ao ser comparado com outros fármacos com o mesmo efeito, as principais vantagens são a sua alta eficácia contra os Strongyloides, o tempo curto da terapia e a reduzida possibilidade de efeitos colaterais, o que lhe confere segurança.

Na opinião do farmacêutico Marcelo Polacow, vice-presidente do CRF-SP, outra excelente vantagem é que a ivermectina é indicada para a pediculose (infestação por piolho). "Essa dermatose tem alta incidência no Brasil. Produzida pelo Pediculus humanus capitis, ela pode ser tratada com dose única, cuja administração, por via oral, apresenta benefício em relação aos tratamentos tópicos alternativos", esclarece.

A desvantagem é que embora seja um antiparasitário de largo espectro, quando não é possível fazer um exame para identificar qual é o verme em questão, o medicamento poderá ser usado em associação com outro fármaco.

Ela está incluída na Farmácia Popular?

Não, mas está na lista da Rename (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais), que elenca quais são os medicamentos necessários para atender aos principais problemas de saúde da população.

De acordo com Amouni Mourad, docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) e assessora técnica do CRF-SP, é possível que um medicamento não conste da lista da Farmácia Popular, mas esteja na da Rename: "Nesta, estão previstas algumas classes medicamentosas, principalmente para doenças crônicas que necessitam de tratamento de uso contínuo", o que não é o caso da ivermectina.

Saiba quais são as contraindicações

Ela não pode ser usada por pessoas que sejam alérgicas (ou tenham conhecimento de que alguém da família tenham tido reação semelhante) ao seu princípio ativo ou a qualquer outro componente de sua fórmula.
Lembre-se de falar com seu médico antes de usá-la, especialmente se souber que alguém de sua família já teve algum tipo de reação.

Nas seguintes condições, também, você não deve utilizar esse medicamento:

  • Meningite ou algumas enfermidades que se relacionem ao SNC (Sistema Nervoso Central)
  • Doenças que reduzam o sistema de defesa do corpo

Crianças e idosos podem usá-la?

Sim. A medicação é bem tolerada em todas as faixas etárias. Entretanto, o uso pediátrico só deve ocorrer em crianças acima dos 5 anos de idade e com peso superior a 15 kg. Isso porque ainda não existem estudos científicos que comprovem sua segurança em idades e pesos inferiores aos indicados.

Quanto aos adultos maduros: não há contraindicação para esse grupo, especialmente porque, em geral, o tratamento é de curto prazo, o que reduz o risco de efeitos colaterais entre eles.

Estou grávida? Posso usar ivermectina?

Como não existem pesquisas de segurança feitos com grávidas, essas pacientes devem falar com seus médicos para que eles possam avaliar o custo x benefício do uso do medicamento. O mesmo se aplica às lactantes.

Qual é a melhor forma de consumi-la?

Há evidências de que o uso da ivermectina deve ocorrer com o estômago vazio. A orientação é de que ela seja ingerida após 2 horas das refeições. Para esse fim, prefira água.

Existe uma melhor hora do dia para usar esse medicamento?

Não. Em geral o tratamento é feito por meio de dose única. O importante é que a ivermectina seja ingerida na forma indicada pelo médico.

O que faço quando esquecer de tomar o remédio?

Na maioria das vezes, a terapia prevê dose única. Mas se, no seu caso, forem necessárias outras doses, tome assim que lembrar e reinicie o esquema de uso do medicamento. É desaconselhado tomar doses em dobro de uma vez para compensar a dose que foi esquecida.

Se você é daqueles que sempre se esquecem de tomar seus remédios, use algum tipo de alarme para lembrar-se.

Quais são os possíveis efeitos colaterais?

Este medicamento é considerado bem tolerado, seguro e eficaz, mas alguns indivíduos podem apresentar as seguintes reações —que serão leves e passageiras:

  • Diarreia
  • Náusea
  • Dor abdominal
  • Falta de apetite
  • Constipação
  • Vômito
  • Tontura
  • Sonolência
  • Vertigem
  • Tremor
  • Febre
  • Coceira
  • Lesões de pele
  • Urticária

Outras manifestações podem ser observadas nos casos de oncocercose, mas a doença é mais comum em países africanos.

Interações medicamentosas

Alguns medicamentos não combinam com a ivermectina e podem alterar ou reduzir seu efeito. Avise seu médico se estiver consumindo algum medicamento que tenha ação junto ao SNC, tais como os que tratam a insônia e a ansiedade. Além destes, fique atento, caso esteja utilizando as seguintes substâncias:

  • Acetaminofeno (paracetamol)
  • Ácido acetilsalicílico (aspirina)
  • Ácido graxo poliinsaturado ômega-3 (exemplo: óleo de peixe)
  • Ácido valpróico (anticonvulsivante)
  • Albendazol (vermífugo)
  • Álcool
  • Difenidramina (anti-histamínico)
  • Multivitamínicos, Vitamina B; Vitamina B12; Vitamina C; Vitamina D3, Vitamina K
  • Pirantel (vermífugo)
  • Polietileno glicol 3350 (laxante)
  • Praziquantel (antiparasitário)
  • Prednisona (corticoide)
  • Sulfametoxazol ou trimetoprim (antibiótico)
  • Tartarato de metoprolol (utilizado por pacientes cardíacos)
  • Ubiquinona (CoQ10) (suplemento indicado para pacientes com doenças cardiovasculares)

Comunique também ao profissional da área da saúde, antes de usar esse medicamento, que você faz uso contínuo de algum tipo de fitoterápico.

Há interação com exames laboratoriais?

Existem relatos de alterações em exames durante o uso do medicamento: aumento temporário de células do sistema imunológico (eosinófilos), enzimas hepáticas (transaminase) e aumento de hemoglobina (proteína sanguínea).

Caso você tenha de se submeter a algum tipo de teste laboratorial, lembre-se de comunicar aos profissionais que está sob tratamento com a ivermectina.

Qual a relação entre a ivermectina e a covid-19?

Até o momento, não existem medicamentos ou terapias aprovadas pelas autoridades médicas e sanitárias para prevenir ou tratar a covid-19. As estratégias que os médicos dispõem buscam prevenir infecções e controlar o avanço e a gravidade da doença, incluindo o uso de oxigênio e ventilação mecânica quando indicados.

Contudo, entre as pesquisas sobre possíveis abordagens terapêuticas contra a covid, chamou a atenção um artigo publicado por pesquisadores do Instituto para a Infecção e a Imunidade Peter Doherty (Austrália), em junho de 2020.

Em estudos laboratoriais preliminares (in vitro), a ivermectina se mostrou eficaz na inibição da replicação do Sars-CoV-2, o coronavírus, no prazo de 24 horas. Embora pareça promissor, o uso desse medicamento ainda precisa ser testado em humanos. Esses dados foram publicados online pelo periódico Antiviral Research.

Sergio Alexandre Liblik, gastroenterologista e professor de gastroenterologia clínica da Escola de Medicina da PUC-PR diz que já existem vários estudos iniciais mostrando que a ivermectina é uma molécula de ações variadas que poderão resultar no desenvolvimento de medicações capazes de ter efeito na glicose, no colesterol, no tratamento de tumores e até vírus. Daí a iniciativa dos pesquisadores australianos.

"Apesar desse potencial, isso não significa que ela será eficaz contra todos os vírus. O que é bem conhecido é que a ivermectina mata parasitas grandes por meio da paralisação muscular. Já no coronavírus, o mecanismo é outro, e se refere a uma enzima capaz de 'cortar' o seu RNA. Contudo, esta é uma hipótese que ainda precisa ser confirmada", completa o médico.

Enquanto isso, na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos (NIH), já consta na estante dos estudos clínicos uma pesquisa do HU-UFSCar (Hospital Universitário da Universidade Federal de São Carlos - SP). O estudo, dirigido pelo infectologista e professor da mesma instituição, Henrique Pott Júnior, vai comparar a eficácia e a segurança de diferentes doses de ivermectina para o tratamento da covid-19. Na data do fechamento desta reportagem, o recrutamento de pacientes ainda não havia iniciado.

Em casa, coloque em prática as seguintes dicas:

  • Fique atento à validade do medicamento, que é de 24 meses. Considere que, após aberto, essa validade é ainda menor;
  • Mantenha o medicamento sempre dentro da própria embalagem e nunca descarte a bula até terminar o tratamento;
  • Leia atentamente a bula ou as instruções de consumo do medicamento;
  • Utilize o medicamento na posologia indicada;
  • Ingira os comprimidos inteiros. Evite esmagá-los ou cortá-los ao meio --eles podem ferir sua boca ou garganta. A exceção é a indicação médica;
  • Escolha um local protegido da luz e da umidade para armazenamento. Cozinhas e banheiros não são a melhor opção. A temperatura ambiente deve estar entre 15°C e 30°C;
  • Guarde seus remédios em compartimentos altos ou trancados. A ideia é dificultar o acesso das crianças;
  • Procure saber quais locais próximos da sua casa aceitam o descarte de remédios. Algumas farmácias e indústrias farmacêuticas já têm projetos de coleta;
  • Evite o descarte no lixo caseiro ou no vaso sanitário. Frascos vazios de vidro e plástico, bem como caixas e cartelas vazias podem ir para a reciclagem comum.

O Ministério da Saúde mantém uma cartilha (em pdf) para o Uso Racional de Medicamentos, mas você pode complementar a leitura com a Cartilha do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos - FIOCRUZ) (em pdf) ou do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (também em pdf). Quanto mais você se educa em saúde, menos riscos você corre.

Fontes: Sergio Alexandre Liblik, gastroenterologista e professor de gastroenterologia clínica da Escola de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná); Gracinda Maria D'Almeida e Oliveira, farmacêutica e professora da PUC-PR, com experiência na área de farmacologia, atuando principalmente na atenção farmacêutica, assistência farmacêutica, farmacêuticos e farmacovigilância; Marcelo Polacow, farmacêutico, mestre e doutor em farmacologia, vice-presidente do CRF-SP (Conselho Regional de Farmácia em São Paulo); Amouni Mourad, farmacêutica, professora do curso de farmácia da Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP) e assessora técnica do CRF-SP. Revisão Técnica: Amouni Mourad.

Referências: Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária); US National Library of Medicine (Clinical Trials); Leon Caly et alii. The FDA-approved drug ivermectin inhibits the replication of SARS-CoV-2 in vitro. Antiviral Research. 2020; S. Omura. Ivermectin: 25 years and still going strong. Int. J Antimicrobial Agents. 2007.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que dizia o título e a chamada na Homepage do UOL sobre este texto, a ivermectina está no mercado há 40 anos, e não 60. A informação já foi corrigida.

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