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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


O que pode ser?

Idade, doenças metabólicas e até neurológicas podem causar prisão de ventre

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Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para o VivaBem

19/11/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Uma frequência de evacuações que compreende desde 3 vezes por semana, ou mesmo 3 vezes ao dia, é considerada normal
  • Os sinais mais importantes da prisão de ventre são a consistência e volume das fezes, além da sensação de evacuação incompleta
  • Para a maioria das pessoas, as causas se relacionam a dieta inadequada, sedentarismo e desidratação
  • Uso de medicamentos à base de fibras e outros tipos podem ser necessários

Muita gente pensa que não evacuar todos os dias é sinal de prisão de ventre. Mas segundo o CAG (Colégio Americano de Gastroenterologia), isso é um mito. Se o seu intestino funciona até 3 vezes por semana, ou mesmo 3 vezes ao dia, relaxe por que está tudo bem. Na constipação, pouco importa você "ser um reloginho": o que a define é a presença de fezes duras, seu pequeno volume e a sensação de evacuação incompleta.

A constipação intestinal ou prisão de ventre é considerada uma queixa bastante comum que afeta cerca de 16% da população em todo o mundo. As mulheres são as mais acometidas pelo problema, que pode se manifestar em qualquer idade, desde a infância até a maturidade, quando a sua prevalência aumenta entre os indivíduos com mais de 65 anos.

Parte desses grupos ainda sofrerá com o esforço da evacuação e também apresentará distensão abdominal.

A maioria convive com a prisão de ventre por anos, portanto, de forma crônica, mas a dificuldade para evacuar pode aparecer de repente, especialmente nos períodos em que ocorrem mudanças na alimentação, viagens, ou entre pacientes acamados. Nestes, o intestino se movimenta mais lentamente pela falta de atividade física ou o uso de medicamentos.

Por que isso acontece?

Para 8 em cada 10 pessoas, o problema se relaciona a maus hábitos de vida, ou seja, dieta inadequada, sedentarismo e hidratação deficiente.

"Outra causa muito comum, especialmente no sexo feminino, é a chamada constipação funcional: não se identifica uma origem física para a enfermidade" explica Joaquim Prado P. Moraes Filho, professor de Gastroenterologia da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e membro da diretoria da FBG (Federação Brasileira de Gastroenterologia).

Conheça outras causas, algumas raras, outras mais frequentes:

Metabólicas

Neurológicas

Enfermidades estruturais do cólon ou reto (obstrução de saída)

Medicamentosas

  • Anti-inflamatórios
  • Antiespasmódicos
  • Medicações com cálcio
  • Antidepressivos
  • Opioides

Psicogênicas

  • Problemas emocionais ou psíquicos

Idade

  • Entre os idosos, perda de força muscular abdominal, uso de medicamentos e doenças degenerativas (Alzheimer e Parkinson)
  • Nas crianças, as mesmas causas dos adultos, destacando-se erros alimentares e fatores psicogênicos, além da Doença de Hirschsprung.

Gestação

  • Alterações hormonais e do metabolismo

Como reconhecer os sintomas

Além da dificuldade de evacuar, você pode também observar os seguintes sinais:

  • Cólicas abdominais;
  • Dificuldade para eliminar gases;
  • Náuseas;
  • Distensão abdominal;
  • Dor anal devido ao ressecamento das fezes e o aumento do bolo fecal, o que provoca fissuras anais que podem sangrar.

Quando é a hora de procurar ajuda?

José Joaquim Ribeiro da Rocha, docente da Divisão de Coloproctologia do Hospital das Clínicas da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo) relata que, geralmente, as pessoas se "ajeitam" com uma solução caseira ou se automedicam, e podem passar anos sem procurar atendimento médico. O que esses indivíduos não sabem é que a "a automedicação é imprecisa, não trata a causa da constipação, e ainda piora o quadro", diz.

De acordo com o especialista, o ideal é marcar uma consulta ao perceber que os sintomas persistem por mais de 30 dias, sem melhora.

Fique atento também aos sinais de alarme: a constipação começou depois dos 40 anos de idade, há sangue nas fezes; perda de peso; endurecimento do abdome ou impactação fecal (endurecimento das fezes). Ao notar qualquer uma dessas situações, marque uma consulta imediatamente para uma avaliação de um gastroenterologista ou proctologista.

Entre as crianças, os pais devem procurar o pediatra quando os sintomas persistam por mais de 2 semanas ou aumentem, progressivamente, logo após o nascimento.

Como é feito o diagnóstico

O médico levantará os dados da sua história clínica, seus hábitos de vida e antecedentes pessoais e familiares, e ainda fará exame físico e proctológico. Exames complementares podem ser solicitados, não só para conhecer do seu estado geral de saúde, mas também para detectar alguma doença relacionada à sua queixa.

A depender de cada caso, os testes mais importantes são a radiografia contrastada do intestino grosso (Enema Opaco), o tempo de trânsito colônico, exames de sangue e colonoscopia (eventualmente), além de biópsia do reto e manometria anoretal —para avaliar a pressão dos músculos da região anal.

Entre os idosos, além das peculiaridades da idade, é preciso investigar tumores colorretais.

Como é feito o tratamento

Uma vez definido o diagnóstico, a abordagem terapêutica é sempre personalizada. A gastroenterologista Sandra Beatriz Marion, professora do curso de medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), explica que, na maioria dos casos, a terapia consiste em mudar os hábitos de vida.

Os pacientes recebem orientações sobre dieta, hidratação e atividade física, bem como estratégias para estabelecer uma nova rotina evacuatória. Medicamentos naturais à base de fibra também podem ser úteis e poderão ser de uso contínuo.

"A primeira coisa que é preciso saber é que não existe remédio milagroso que faça o intestino funcionar a vida inteira", fala a médica. "Se não houver parceria do paciente, se ele não se conscientiza da importância desses cuidados essenciais, ele não alcançará o resultado que deseja", completa.

Para as pessoas que não respondem a essa estratégia, há uma série de fármacos disponíveis, como os que umidificam as fezes (laxantes osmóticos) ou as deixam mais oleosas (emolientes). Existem ainda medicamentos que atuam no equilíbrio de um tipo de serotonina do intestino.

As últimas opções são os laxantes irritantes, exatamente os que as pessoas utilizam em primeiro lugar na automedicação. Muito potentes, têm efeito imediato, mas se usados por longo período lesionam os nervos do intestino (mioentérico). O resultado é que a prisão de ventre só piora.

Terapias para casos mais complexos

Quando a constipação é mais grave, especialmente entre as mulheres, e não se conheça a causa, além de todas as possibilidades acima descritas, o tratamento poderá ter solução cirúrgica com a remoção do intestino grosso ou colectomia total (retirada do cólon).

Mais recentemente tem-se utilizado a neuromodulação sacral, um marca-passo na região lombar que emite estímulos elétricos nos nervos modulares.

Saiba como adequar a dieta

O correto consumo de fibras solúveis está relacionado à adequada formação do bolo fecal, com fezes mais macias e volumosas, enquanto as fibras insolúveis aceleraram o trânsito intestinal. O consumo diário indicado delas é de 25g/dia. E não adianta comer 5 folhas de alface americana e 1 tomate por dia! Esses itens têm 0,9g 1,5g de fibra, respectivamente.

Às fibras, junte o consumo adequado de água (ele deve ser calculado de acordo com o seu peso: 0,35ml por quilo) e evite o sedentarismo. Até a introdução de probióticos e prebióticos na alimentação pode ser benéfica e necessária.

A orientação de um nutricionista é bem-vinda. Isso porque "nem todos respondem à mesma dieta e, assim, devem ser avaliados individualmente, sempre considerando seus hábitos, restrições e preferências alimentares, a fim de garantir um melhor resultado", explica a nutricionista Camila Naegeli Caverni, nutricionista clínica e mestranda da EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo).

Note-se que, para algumas pessoas, a mudança de hábitos alimentares é de grande ajuda, mas não resolve totalmente o problema. Nesse caso, gastroenterologista e nutricionista devem trabalhar juntos para garantir melhores resultados.

Como colaborar com o tratamento

Nem sempre é possível prevenir a prisão de ventre. Contudo, caprichar no consumo de fibras deve ser um hábito para toda a vida. Além disso, mantenha-se sempre bem hidratado e pratique atividades físicas regulares.

Você também pode adotar as seguintes medidas para evitar o desconforto de uma crise ou colaborar com a terapia:

  • Organize-se para ter um horário certo para ir ao banheiro, de preferência pela manhã, após o café --ou depois das refeições;
  • Vá ao banheiro quando sentir necessidade de evacuar. Evite adiar essa urgência;
  • Prefira alimentos naturais e integrais;
  • Beba ao menos 1 litro e ½ de líquidos ao dia;
  • Aprenda a ler o rótulo dos produtos que consome para neles identificar o teor de fibras;
  • Evite o consumo de alimentos industrializados e ultraprocessados, como arroz branco, farinha de trigo refinada, fubá, polvilho;
  • Priorize, à mesa: feijão, lentilha, ervilha, arroz integral, linhaça, aveia, milho, farinha de centeio, verduras e legumes (todos), frutas (todas);
  • Mantenha uma atividade física satisfatória - 30 minutos, 4 vezes por semana.

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UOL Notícias

Fontes: Joaquim Prado P. Moraes Filho, professor livre-docente de Gastroenterologia da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e membro da diretoria da FBG (Federação Brasileira de Gastroenterologia); José Joaquim Ribeiro da Rocha, docente da Divisão de Coloproctologia do Departamento de Cirurgia e Anatomia do Hospital das Clínicas da FMRP-USP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo), e médico responsável técnico pela Proctogastroclínica de Ribeirão Preto; Sandra Beatriz Marion, professora do curso de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná), especialista em Gastroenterologia e endoscopista titulada; Camila Naegeli Caverni, nutricionista clínica da Headache Center Brasil, e mestranda da EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo). Revisão técnica: Sandra Beatriz Marion.

Referências: Ministério da Saúde; ACG (American College of Gastroenterology); Maria Vazquez Roque, Ernest P Bouras. Epidemiology and management of chronic constipation in elderly patients. Clin Interv Aging. 2015; Treatments for Constipation: A Review of Systematic Reviews. Rapid Response Report: Summary with Critical Appraisal. Ottawa (ON): Canadian Agency for Drugs and Technologies in Health; 2014.

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