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Sintomas e tratamentos da doença


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Ela tem câncer de mama há 12 anos: "Driblo problemas e vivo intensamente"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Giulia Granchi

Do VivaBem, em São Paulo

27/10/2019 04h00

Sentir um pequeno nódulo com a textura similar a uma casca de laranja foi o que levou Jussara Del Moral, 55 anos, a procurar um médico e, depois, receber o diagnóstico de câncer de mama, em 2007. Apesar de o subtipo ser bastante agressivo, um triplo negativo, o nódulo era pequeno e o quadro mostrava bom prognóstico —ela descobriu o problema cedo e não tinha pele ou axilas comprometidas pelo tumor.

"Quando soube do câncer, não conhecia nada sobre a doença. A primeira reação é viver aquele luto, pensar nas pessoas que você ama, o que vai ser da sua família, se você vai precisar deixar de curtir experiências... Vivi isso, mas ressignifiquei o quadro em pouco tempo, aceitando a realidade para viver com a condição da melhor maneira possível —e foi a forma como consegui encarar os desafios seguintes", conta Jussara.

Os médicos optaram por uma cirurgia conservadora; em vez da mastectomia, ela retirou apenas o quadrante onde o câncer se encontrava. Após cerca de seis meses de quimioterapia, a paulistana recebeu alta.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

A volta do câncer

Apenas dois anos após o tratamento, durante um exame de controle, Jussara recebeu a notícia de que estava com metástases no pulmão. "Não tive nenhum sintoma, então foi uma grande surpresa. O médico propôs cirurgia de pulmão para tirar os nódulos maiores e quimioterapia para os menores. Ele avisou que seria um processo difícil. Não sou destemida, mas sou corajosa. Minha intenção era ficar viva, então, operei", conta.

Foram necessárias mais doze sessões de quimioterapia semanais para zerar as metástases do pulmão. Ela também precisou trocar os remédios e encarar uma nova rotina de adaptação. "Quando tive metástases no pulmão, passei a ter um câncer receptor hormonal, que é 'alimentado' pelos meus hormônios. Leva um tempo até que o organismo se acostume com as novas drogas", conta.

Um caroço na cabeça

Jussara seguiu "curada" até 2013. Seu cabelo cresceu, ela voltou a trabalhar e vivia uma rotina normal, até que sentiu um calombo grande no topo de sua cabeça. "Parecia ter surgido de um dia para o outro", lembra.

A massa significava metástases no osso da calota craniana, e foi preciso que a paciente passasse por uma cirurgia grande para retirar parte do osso e enfrentasse 20 sessões de radioterapia. "O tratamento me fez perder definitivamente o cabelo em uma parte da cabeça —foram muitas sessões de radio com uma frequência muito forte. Hoje, uso uma prótese capilar, mas também aprendi a amar minha careca", conta.

Essa coisa da autoestima, pega, sim, mas não é tudo. É ok estar 12 kg mais gorda, não ter cabelo... A gente dribla essas coisas. O que importa é estar viva" Jussara Del Moral

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Mesmo após o tratamento, no ano seguinte, a doença progrediu. "Para esse tipo de tumor, é mais indicado radioterapia, mas como já havia passado por muitas sessões, voltei à quimioterapia, dessa vez de forma oral. Apesar de não atacar especificamente as metástases no osso da cabeça, faço o tratamento para controlar o câncer de mama, que é o que eu tenho", explica a paciente.

Em 2019, Jussara recebeu também o diagnóstico de uma única lesão no cérebro, que foi retirada com radiocirurgia. "Vivo em tratamento paliativo. Não existe cura para o que eu tenho e não sei se um dia terá —claro que espero que sim. Mas tenho qualidade de vida e escolho viver todos os momentos intensamente", afirma.

Jussara foi modelo para a exposição montada pelo Coletivo Pink "Artemisa: Frida, a coragem do Pink no Outubro Rosa" - Márcio Scavone
Jussara foi modelo para a exposição montada pelo Coletivo Pink "Artemisa: Frida, a coragem do Pink no Outubro Rosa"
Imagem: Márcio Scavone

"Todo mundo vai morrer um dia, mas o intervalo é valiosíssimo"

Apesar dos efeitos colaterais dos remédios, que incluem refluxos, enjoos e baixa imunidade em certo período do mês, Jussara considera viver uma rotina normal. "Os efeitos não são fortes, não tenho dores causadas pelo câncer... Apesar de ser uma doença grave e agressiva, ela é lenta e respondo bem aos tratamentos."

Jussara, que tem dois filhos, se aposentou por invalidez e hoje, além de cuidar da saúde, usa seu tempo livre para produzir conteúdo nas redes sociais, viajar e praticar atividades físicas, algo que afirma ajudar muito na qualidade de vida. "Fui aprendendo o que tinha que fazer para levar uma vida melhor. Sei que todos podem conquistar isso, mas nem todos têm essa percepção. Decidi não me colocar como vítima e viver o câncer dia e noite. Nunca perguntei 'por que comigo?'. Todo mundo vai morrer um dia e o tempo que temos de vida é valiosíssimo, estou curtindo com tudo que eu tenho direito", afirma.

Jussara na Table Mountain, montanha na África do Sul - Arquivo pessoal
Jussara na Table Mountain, montanha na África do Sul
Imagem: Arquivo pessoal

Canal no youtube

Há quatro anos, Jussara, que é formada em rádio e TV e nunca atuou na área, criou o canal no Supervivente no Youtube para falar sobre câncer de mama. "Eu já fazia parte de várias comunidades nas redes sociais e muitas pessoas, entre médicos, pacientes e curiosos, me incentivavam a criar um canal", conta.

Para a paulistana, trabalhar com comunicação era algo que estava pendente e foi possível riscar o desejo da lista tratando de assuntos sérios e ajudando pessoas a se informarem. "O que mais gosto é quebrar esse tabu de que a paciente metastática é superlimitada. Recebo mensagens todos os dias de pessoas dizendo que mudei a vida delas, e vale muito ser capaz de ressignificar o câncer para que a vida seja menos sofrida", aponta.

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