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Jane e a mãe tiveram câncer juntas: "Esporte deu força para seguir sem ela"

O câncer de mama não impediu o sonho de Jane disputar os Jogos Parapan-Americanos de 2011 e a Paraolimpíada de Londres 2012 - Arquivo pessoal
O câncer de mama não impediu o sonho de Jane disputar os Jogos Parapan-Americanos de 2011 e a Paraolimpíada de Londres 2012 Imagem: Arquivo pessoal

Bárbara Therrie

Colaboração para o UOL VivaBem

30/06/2019 04h00

Cinco meses após descobrir que a mãe tinha câncer de mama, Jane Karla Gogel, 43, recebeu o mesmo diagnóstico. Atleta paraolímpica, ela treinou mesmo durante a quimioterapia e teve o esporte como grande aliado para superar a doença e a perda da mãe. A seguir, ela conta sua história:

"Eu fui diagnosticada com poliomielite aos três anos de idade. Inicialmente, meu corpo ficou todo paralisado, mas, com o tratamento, consegui recuperar parte dos movimentos, como ficar em pé e voltar a andar. Na infância, achava que o esporte não era para mim, nunca frequentava as aulas de educação física por falta de acessibilidade, ficava na sala fazendo trabalhos extras.

Meu primeiro contato com o esporte aconteceu tarde, em 2003, quando eu tinha 28 anos. Uma associação de deficientes físicos da minha cidade convidou os associados para experimentar várias modalidades adaptadas. Brinco que foi amor à primeira raquetada com o tênis de mesa. No início, era um hobby, mas com uma semana de treinos fui convocada para a seleção brasileira e tive a chance de ver atletas de alto rendimento competindo cheias de garra. Pensei: 'É isso que quero fazer da vida'. Passei a treinar todos os dias e me profissionalizei.

A descoberta do câncer de mama

Jane recebeu o diagnóstico de câncer de mama cinco meses depois da mãe - Arquivo pessoal
Jane recebeu o diagnóstico de câncer de mama cinco meses depois da mãe
Imagem: Arquivo pessoal
Em 2009, minha mãe, a Maria Helena, descobriu um câncer de mama. Cinco meses depois, senti uma dor no seio esquerdo durante um treino, passei a mão e havia um carocinho. Fiz um ultrassom, o ginecologista disse que era um problema hormonal. Ele me orientou a tomar uma medicação, falou que eu ia melhorar, mas não acreditei e busquei uma segunda opinião. Eu me consultei com o oncologista da minha mãe, insisti que queria fazer uma biópsia, e veio o diagnóstico: câncer de mama. Foi um baque, um buraco se abriu na minha frente, fiquei superpreocupada pensando como daria essa notícia para a minha mãe.

Em um segundo momento, pensei como isso impactaria na minha carreira de atleta. Estava em uma ótima fase, mas tinha consciência de que precisaria fazer uma pausa para cuidar da minha saúde. O primeiro passo foi fazer a cirurgia para retirar o tumor.

Eu e minha mãe fizemos o tratamento ao mesmo tempo. Dávamos apoio uma a outra, eu tentava mostrar a ela que estava bem, não queria deixá-la triste

Apesar dos efeitos da quimioterapia, Jane disputou campeonatos e ganhou medalhas durante o tratamento do câncer - Arquivo pessoal
Apesar dos efeitos da quimioterapia, Jane disputou campeonatos e ganhou medalhas durante o tratamento do câncer
Imagem: Arquivo pessoal
Durante as sessões de quimioterapia, sofri com os efeitos colaterais, tinha fraqueza, enjoos, dores no corpo, fiquei careca, perdi as sobrancelhas e os cílios. Às vezes, quando ficava um pouco disposta, fazia exercícios, treinava saque em casa e batia uma bolinha com meu marido, o Joachim, que era meu treinador.

O tênis de mesa era o meu refúgio. Na época, pedi liberação do médico para participar de um torneio no Rio de Janeiro. Queria distrair a mente, resgatar a sensação boa de estar em uma competição, me reunir com a minha equipe. Foi um grande desafio, batia a fraqueza, eu suava frio, mas persisti e tive um bom desempenho. Fui medalha de ouro na categoria individual e conquistei a prata em grupo. Eu me senti viva, forte e grata a Deus por aquela oportunidade.

O esporte era o meu escape, me ajudou a superar o câncer de mama pela capacidade de me manter focada, pensar positivo, buscar o resultado, estabelecer metas e acreditar na vitória

Não encarei a doença como uma sentença de morte, mas coloquei na cabeça que ia me tratar, melhorar e ainda daria tempo de participar dos Jogos Pan-Americanos de 2011 e garantir a vaga para as Paraolimpíadas de Londres de 2012. Isso me motivou a prosseguir.

Em 2011, encerrei o ciclo de radioterapia e recebi alta do tratamento. Fui curada! A sensação de estar livre era maravilhosa. O quadro da minha mãe também estava estabilizado, mas, um ano depois, ela teve metástase no cérebro e faleceu. Foi a pior perda da minha vida, até hoje tenho um vazio que ninguém pode ocupar, ela faz muita falta.

Jane com o marido, os filhos e a mãe - Arquivo pessoal
Jane com o marido, os filhos e a mãe
Imagem: Arquivo pessoal

Minha mãe falava para eu nunca desistir do esporte, dizia que era algo bom para mim. Ela gostava de me ver jogando, era a minha maior torcedora. A lembrança da voz dela me falando isso me encorajou e, após o luto, voltei a treinar e a competir. Mais uma vez busquei forças no tênis de mesa, fui para os Jogos de Londres e alcancei a quinta colocação.

Em 2014, a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa montou um centro de treinamento em São Paulo. A mudança seria inviável para mim porque teria de deixar minha família. Decidi continuar em Goiás, mas não queria ficar parada. Busquei outra atividade e me identifiquei com o tiro com arco pelo maior contato com a natureza.

Jane trocou o tênis de mesa pelo tiro ao alvo e é uma das melhores do mundo na modalidade - Arquivo pessoal
Jane trocou o tênis de mesa pelo tiro ao alvo e é uma das melhores do mundo na modalidade
Imagem: Arquivo pessoal

Eu me aprofundei no novo e esporte e me aperfeiçoei nas técnicas. Ano passado, fui a número 1 do ranking mundial paraolímpico, esse ano estou na segunda posição, me preparando para as Paraolimpíadas de Tóquio de 2020.

Após essas duas adversidades, o câncer de mama e a morte da minha mãe, posso afirmar que o esporte me tornou uma pessoa mais forte. Sei que outras dificuldades virão, mas, como um adversário em uma competição, não podemos nos abater, devemos sempre ter o objetivo de nos superar e chegar ao topo. Nem sempre a vitória virá, o importante é ter garra e não desistir."

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