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Blog da Sophie Deram

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Estudo associa ultraprocessados ao risco de doença inflamatória intestinal

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Imagem: iStock
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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

11/08/2021 04h00

Um estudo internacional realizado em 21 países, entre eles o Brasil, foi publicado na revista British Medical Journal e mostra uma associação entre o consumo regular de alimentos ultraprocessados e um maior risco de desenvolver doenças inflamatórias intestinais.

Doenças inflamatórias intestinais e alimentação

As doenças inflamatórias intestinais são doenças crônicas caracterizadas por inflamações ao longo do sistema gastrointestinal, gerando riscos de diarreia, falta de apetite e perda de peso, além de anemia e desnutrição, em casos mais graves.

As principais formas das doenças inflamatórias intestinais são a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa.

A retocolite ulcerativa é assim chamada porque apenas o cólon do intestino grosso e o reto são atingidos, enquanto na doença de Crohn podem ser encontradas inflamações em toda a extensão do trato gastrointestinal, da boca ao ânus.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Coloproctologia, mais de 5 milhões de pessoas no mundo todo sofrem com esses problemas de saúde e em geral a doença se manifesta durante a adolescência e vida adulta (entre 15 e 40 anos).

Ainda há muito o que se descobrir sobre as doenças inflamatórias intestinais. Suas causas são desconhecidas, mas sabemos que são multifatoriais.

Até o momento, acredita-se que o seu desenvolvimento se dá pela ativação do sistema imunológico da mucosa intestinal como resposta à disbiose intestinal em pessoas com suscetibilidade genética. Também se sabe que a alimentação altera a microbiota intestinal, podendo modificar a resposta imune e assim contribuir para o desenvolvimento das doenças inflamatórias intestinais.

Outra coisa observada é o aumento da incidência das doenças inflamatórias intestinais em vários países onde antes eram incomuns.

Existe a hipótese de que fatores ambientais, como a alimentação, poderiam explicar em partes essa observação. Estudos sugerem que o baixo consumo de fibras e alto consumo de açúcares, gorduras e alimentos ultraprocessados, compostos por aditivos alimentares (como os emulsificantes), podem ser fatores de risco para as doenças inflamatórias intestinais. No entanto, os estudos investigando a influência da alimentação são limitados.

Por isso, os pesquisadores utilizaram dados do estudo de coorte Pure (Prospective Urban Rural Epidemiology), para avaliar a relação entre a ingestão de alimentos ultraprocessados e o risco de desenvolver doença inflamatória intestinal.

Investigando doenças inflamatória intestinais e ultraprocessados

O estudo Pure foi realizado em 21 países da Europa, América do Norte, América do Sul, África, Ásia e Oriente Médio, a saber: Argentina, Bangladesh, Brasil, Canadá, Chile, China, Colômbia, Índia, Irã, Malásia, Palestina, Paquistão, Filipinas, Polônia, África do Sul, Arábia Saudita, Suécia, Tanzânia, Turquia, Emirados Árabes e Zimbábue.

Os participantes foram inscritos no estudo Pure entre 2003 e 2016 e avaliados pelo menos a cada três anos. Os resultados do estudo trazem dados incluídos até 5 de julho de 2019.

Para a coleta de dados, uma equipe de pesquisadores utilizou um questionário para obter informações detalhadas sobre a alimentação de 116.087 adultos com idades entre 35 e 70 anos. Muitas outras características foram levadas em consideração como: idade, escolaridade, localização, consumo de álcool, tabagismo, IMC, atividade física etc.

Cada participante teve sua ingestão alimentar avaliada por meio de QFA (questionários de frequência alimentar) específicos de cada país. O QFA consiste em uma lista de alimentos ultraprocessados (alimentos e bebidas com aditivos alimentares, como embutidos, cereais matinais, molhos, refrigerantes, doces, sucos industrializados) e os participantes devem indicar a frequência com que cada um deles é consumido.

Ao longo do acompanhamento médio de 9,7 anos, foram registrados 467 novos diagnósticos de doenças inflamatórias intestinais, sendo 90 de doença de Crohn e 377 de retocolite ulcerativa.

Associação entre doenças inflamatórias intestinais e alto consumo de ultraprocessados

Após considerar e ajustar os outros fatores potencialmente influentes, os pesquisadores observaram que a maior ingestão de alimentos ultraprocessados foi associada a um maior risco de desenvolver doenças inflamatórias intestinais.

Ao comparar com um consumo menor que uma porção de ultraprocessados por dia, encontraram um risco de 82% de desenvolver retocolite ou doença de Crohn entre aqueles que consumiram cinco ou mais porções por dia, e um risco de 67% entre aqueles que consumiram de uma a quatro porções por dia.

Diferentes subgrupos de alimentos ultraprocessados, incluindo refrigerantes, alimentos refinados e adoçados, salgadinhos e carnes processadas, foram associados a taxas de risco mais altas para doenças inflamatórias intestinais.

A ingestão de alimentos ultraprocessados (tanto em porções quanto em gramas diários) foi maior na América do Norte, Europa e América do Sul. Nesses lugares se consumiu mais carnes processadas e refrigerantes. O consumo de alimentos doces foi maior na América do Sul, seguido do Oriente Médio e Sudeste Asiático. E os salgadinhos foram mais consumidos na América do Norte e Sudeste Asiático.

Já o consumo de carne branca, carne vermelha, laticínios, amidos, frutas, legumes, verduras e leguminosas (feijões, ervilhas, lentilhas) não apresentaram associação. No entanto, aqueles com uma ingestão de alimentos fritos maior que uma porção por dia apresentaram um risco maior de desenvolver doença inflamatória intestinal em comparação com aqueles com ingestão zero de frituras.

Os pesquisadores acreditam que essa associação pode existir porque muitos dos alimentos fritos também são processados, por exemplo: nuggets de frango e batatas fritas. Segundo eles, a ação da fritura e do processamento do óleo poderia modificar os nutrientes dos alimentos, de modo que não é o alimento em si que confere um risco aumentado, mas sua forma de processamento.

Menos ultraprocessados e mais qualidade

Vale apontar que esse estudo apresenta algumas limitações. Por exemplo, ele não permite estabelecer relações de causalidade, apenas associações. Além disso, os resultados foram baseados no autorrelato dos participantes e não considerou as mudanças da alimentação ao longo do tempo. Portanto, são necessárias mais pesquisas que investiguem o papel dos ultraprocessados no desenvolvimento de doenças inflamatórias intestinais.

No entanto, os achados apoiam a hipótese de que fatores ambientais, entre eles a alimentação, podem influenciar o risco de desenvolver doenças inflamatórias intestinais, cuja prevalência tem crescido ao longo do tempo.

Enquanto mais estudos não são realizados, é preciso ficar atento. Nada de ver os ultraprocessados como vilões, mas é importante entender que eles não precisam nem devem ser a base da nossa alimentação.

Reduzir os ultraprocessados é importante por outras doenças crônicas, pela obesidade, pelo meio ambiente e pela nossa saúde em geral.

A pesquisa também me faz lembrar que precisamos de alimentos (mesmo industrializados) de melhor qualidade! Isso é importante para que a indústria de alimentos se sinta pressionada a reformular seus produtos, como já vemos acontecer timidamente por aqui e em outros países do mundo.

Por fim, sugiro que você coma mais comida fresca e caseira, cozinhe mais e tenha uma boa relação com a comida!

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL