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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Internação por transtorno alimentar aumentou 48% na pandemia, diz estudo

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

11/05/2022 04h00

Uma revisão sistemática publicada no International Journal of Eating Disorders sugere um aumento de 48% nas admissões hospitalares relacionadas a transtornos alimentares (TA) durante a pandemia da covid-19.

Covid-19 e TA

Os TA são transtornos mentais caracterizados por perturbações na alimentação ou no comportamento alimentar que prejudica substancialmente a saúde física e psicossocial. Anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno de compulsão alimentar e transtorno alimentar restritivo/evitativo são alguns exemplos de TA.

Como sabemos, a pandemia da covid-19 gerou consequências econômicas, financeiras, sociais, bem como para a saúde de muitas pessoas. Embora a pandemia tenha prejudicado a saúde mental da população de uma forma geral, é provável que tenha afetado particularmente as pessoas que sofrem com os TA ou têm maior risco de desenvolvê-los.

Assim, evidências sugerem que pessoas com TA experimentaram aumento das internações hospitalares com a pandemia.

Acredita-se que as medidas de controle da pandemia, como o isolamento social, podem ter contribuído para a exacerbação de comportamentos alimentares problemáticos e o consequente aumento das internações por TA.

Diante disso, uma equipe de pesquisadores liderada por Daniel J. Devoe, do Mathison Centre for Mental Health, da Universidade de Calgary, Canadá, realizou uma revisão sistemática examinando a literatura científica sobre covid-19 e TA.

O objetivo foi sintetizar o impacto da pandemia sobre os TA, partindo da hipótese de que pessoas que sofrem com esses problemas de saúde mental teriam exacerbação dos seus sintomas, aumento nas hospitalizações e variações no IMC durante a pandemia de covid-19 em comparação com o período pré-pandemia.

Revisão sistemática sobre covid-19 e TA analisou 53 estudos

A pesquisa foi realizada nos seguintes bancos de dados: CINAHL, Embase, Medline e PsycINFO, incluindo estudos de novembro de 2019 a 20 de outubro de 2021.

Foram considerados como critérios de inclusão: estudos sobre pessoas com TA (anorexia nervosa, bulimia nervosa, outros transtornos alimentares especificados, transtorno de compulsão alimentar periódica, transtorno alimentar restritivo evitativo); com dados originais relacionados à pandemia da covid-19 e TA; qualitativos, quantitativos, série de casos, transversais e longitudinais; escritos em qualquer idioma; realizados com pessoas de qualquer idade.

Cinquenta e três estudos foram incluídos na revisão sistemática, totalizando 36.485 pessoas com TA. Destas:

  • 3.223 apresentavam anorexia nervosa;
  • 1.203 bulimia nervosa;
  • 722 transtorno de compulsão alimentar periódica;
  • 1.243 outros transtornos alimentares especificados;
  • 126 transtorno alimentar restritivo evitativo;
  • 47 transtorno purgativo;
  • 25 síndrome da alimentação noturna.

A média de idade das pessoas com TA foi de 24,22 anos e o percentual de mulheres convivendo com esse problema de saúde foi de 90,3%.

Estudo sugere aumento de 48% das admissões hospitalares por TA pós-pandemia

Onze estudos compararam as diferenças nas admissões hospitalares por TA antes e durante a pandemia. As mudanças percentuais variaram de 0% a 123%. Mas, em média, foi observado um aumento de 48% nas admissões hospitalares por TA. Em números absolutos, antes da pandemia houve 591 admissões e pós-pandemia, 876.

Quanto às internações pediátricas, observou-se um aumento de 83%, enquanto nos adultos esse aumento foi de 16%. No entanto, provavelmente esses dados estão subestimados, pois alguns estudos avaliaram as internações pouco tempo após isolamento social, dois meses, por exemplo, o que é muito pouco para avaliar as admissões hospitalares adequadamente.

Nessa revisão, 36% dos estudos (19 deles) documentaram aumentos nos sintomas de TA durante a pandemia e 15% (oito estudos) demonstraram alterações no IMC e no peso. Também foram observados aumentos na ansiedade em nove estudos e de depressão em oito.

Em relação às medidas de isolamento social, foram encontrados resultados mistos, com alguns pacientes apresentando pioras e dificuldade de acesso aos serviços de saúde e outros relatando melhoras.

Por exemplo, um estudo mostrou que alguns participantes melhoraram e outros pioraram durante o isolamento. Já em outros dois estudos, os pacientes com anorexia nervosa apresentaram menos sintomas e ganharam peso progressivamente e pacientes com bulimia nervosa tiveram menos episódios de compulsão alimentar nesse período.

Pesquisas qualitativas apresentaram elementos positivos e negativos da pandemia da covid-19 para os TA

Quatorze artigos analisados eram pesquisas qualitativas ou mistas. Em 11 desses 14 estudos foi relatada a redução do acesso aos cuidados de saúde ou modificações no tratamento. Observou-se que o tratamento de TA foi encurtado ou atrasado ou que os pacientes enfrentaram barreiras para buscar assistência à saúde.

Em alguns estudos, pessoas com TA relataram percepções positivas em relação à telessaúde ou tratamento remoto, enquanto outros reconheceram limitações, incluindo questões técnicas ou estresse quanto a monitorar o próprio peso.

Quatro estudos viram as mensagens retratadas na mídia como fator contribuinte para o agravamento de sintomas de TA. Alguns deles mostraram que as mídias sociais e a mídia tradicional concentravam suas informações no medo de ganhar peso, prática de atividade física, alimentação saudável durante a pandemia e dietas, fatores identificados como estressantes e desencadeantes.

O isolamento social e com ele o sentimento de solidão, ansiedade e depressão foram mencionados pelos participantes em sete estudos como fatores que contribuíram para o agravamento dos sintomas de TA.

Apesar do impacto negativo geral da pandemia da covid-19, outros sete estudos apresentaram resultados positivos. Alguns pacientes relataram que ao longo da pandemia, as medidas de isolamento social permitiram que utilizassem o tempo livre para autocuidado, autorreflexão, proteção de gatilhos anteriores e aumento do apoio social.

Estudo é limitado, mas fornece informações úteis sobre TA e covid-19

Os autores do artigo alertam para a existência de muitas limitações importantes a serem consideradas ao interpretar os resultados da revisão sistemática. Por exemplo, eles consideram que a qualidade dos estudos incluídos não é tão boa e que apresentam muitas características heterogêneas, o que dificulta ou impede analisar estatisticamente alguns pontos.

De qualquer forma, esses resultados mostram as lacunas da pesquisa atual e podem contribuir com o desenvolvimento de intervenções que busquem prevenir os TA ou tratá-los da melhor forma possível, bem como fornecem informações úteis aos serviços de saúde e ao poder público para se prepararem para futuras pandemias ou momentos semelhantes.

Os TA são problemas de saúde mental crescentes, complexos e delicados, sendo crucial preveni-los, tratá-los adequadamente e estar preparado para situações que podem agravá-los.

Por isso, se a alimentação tem sido uma fonte de sofrimento para você, não hesite em consultar profissionais especializados para ajudar você a cuidar da sua saúde física e mental, o que inclui cultivar uma relação de paz com a comida e com o corpo.

Sophie Deram